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'Spotify Talks': Daniela Mercury, Negra Li e Iza conversam sobre os desafios de ser mulher no mercado da música

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"É mais difícil você afirmar o seu conteúdo intelectual nesse mundo em que só olham para as suas pernas", reclama Daniela Mercury durante uma de suas falas no Spotify Talks, evento promovido pela plataforma de streaming de música Spotify.

Nesta terça-feira (22), as cantoras Negra Li e Iza estiveram ao lado da baiana na sede da empresa em São Paulo para um bate-papo sobre O poder do feminino na música. Durante pouco mais de uma hora, as artistas com trajetórias e públicos diferentes compartilharam suas experiências diante da desigualdade de gênero dentro do cenário musical brasileiro.

Machismo na mídia, ausência de mulheres nas diferentes áreas do mercado fonográfico, o racismo como empecilho dentro da arte e as redes sociais como ferramentas de mudança foram algumas questões discutidas pelas artistas.

A seguir, você acompanha 5 reflexões apresentadas nessa noite, que dão uma perspectiva dos desafios que as mulheres ainda precisam enfrentar para serem ouvidas e respeitadas em suas carreiras.

Machismo no rap

"Eu era ingênua, tinha 16 anos quando comecei no RZO. Certas coisas que eu sofri em relação ao machismo, eu não percebia na época. Fui perceber depois. Eu era bastante podada. Eu mudei muito meu jeito de ser e de me vestir para poder ser respeitada. Eu não podia sorrir, não podia usar minhas saias curtas, meus shorts. Então comecei a usar as roupas dos meus irmãos, camisões e calças. Diziam que eu não podia cumprimentar homem com beijo. E eu deixava de fazer essas coisas, considerando isso como algo normal. Por um lado, acho também que eu me preservei. Mas hoje ninguém pode me falar nada. Quando saí daquele universo do rap e fui seguir em carreiro solo, acredito que me libertei. Passei a ter rugas no rosto, coisa que eu não tinha, porque passei a sorrir. Enfrentei o machismo, sim, mas foi de uma forma ingênua. Uma hora percebi que precisava ser liberta de alguma coisa e eu fui. Fui ser livre pra ser como eu sou, como eu era antes de entrar no rap." - Negra Li

Cantora, mas não só

"Eu componho desde menina. Sou compositora de grande parte da minha obra e muita gente não sabe. Eu fiz um disco agora 100% autoral, o Vinil Virtual, pontuando isso de novo porque não se dá atenção para isso. E existe algo engraçado que acontece: os repórteres nas coletivas de imprensa e entrevistas individuais sobre os álbuns não perguntam as mesmas coisas para homens e mulheres. Já disse várias vezes: 'Dá pra fazer uma pergunta de homem, por favor?’, 'Dá pra me perguntar alguma coisa como seu eu fosse um artista masculino?', muito antes de eu casar com Malu. (...) Perguntam coisas fúteis, do tipo: 'Você já fez cirurgia plástica?', 'Você malhou muito?'. E eu respondo: 'Dá para me perguntar sobre a obra?', 'Sobre os arranjos?', 'Sobre a produção intelectual?'. Isso é horrível e acontece até hoje.” – Daniela Mercury

Mulher desobediente

"Graças à minha mãe e minha vó, fui desobediente. Dizia minha mãe que tinha ordem na casa, mas eu nem sabia. fui perguntar pra ela outro dia se tinha. Ela disse que tinha e eu acho que não tinha. (...) Em 2001, eu resolvi fazer um disco mais íntimo, porque todos os meus álbuns falam do Brasil, falam da Bahia. Têm um olhar de crônicas sociais. E aí o diretor musical me disse: 'Não me interessa o que uma mulher pensa'. Quer dizer, eu Daniela Mercury, já poderosa no mundo, rica, com contratos milionários e o cara diz isso? Cara de pau da p*rra, né? (...) Ele me dizia: 'Você é insuportável porque você tem argumento pra tudo'. Eu respondia que ele estava acostumado com artistas burros e submissos. (...) Uma mulher que não é submissa, que não se coloca no lugar onde põem ela, isso é insuportável. Até meu pai dizia: 'Filha, precisa disso?’. Eu dizia: 'Lógico que precisa, as pessoas precisam se educar". Não há conquista sem confronto, cacete. (...) Às vezes, precisamos ser mais agressivas porque existe uma agressão contra nós que nem percebemos. Por que é tão mais difícil pra gente fazer uma coisa normal? Eu só queria fazer meu trabalho. Mas sempre vinha alguém atrapalhando o caminho. O problema do machismo é que atrapalha demais o trabalho. Nós [mulheres] faríamos muito mais sucesso, ocuparíamos espaços muito mais importantes, mas não conseguimos porque os homens estão ali. É diretor, presidente, muito homem nas companhias. Daí quando chega uma mulher desobediente e com autonomia, consciência jurídica, fazendo contratos com a condição de decidir absolutamente tudo, os caras ficam putos.” – Daniela Mercury

Racismo e machismo, juntos

"O machismo e preconceito racial sempre estiveram na minha vida juntos. É muito complicado porque a gente está em um meio onde só tem homens. É inevitável que o machismo aconteça. Eu sou negra, sou da Zona Norte do Rio. É inevitável que as pessoas me lembrem disso o tempo inteiro. Mas é muito importante o papel que a gente tem agora na sociedade. Eu fico muito feliz por ter o apoio de uma grande companhia para fazer o meu trabalho e levar a minha palavra para as pessoas. Porque eu precisava disso quando era mais nova. (...) A minha mãe me lembrava de que eu era bonita todos os dias. Olha que trabalho! "Você é linda, inteligente, pode fazer o que quiser e estar onde quiser". Esse era um papo que eu tinha com ela diariamente. Então é como se eu já saísse de casa armada para isso, pra combater mesmo. E eu tinha o que combater. Porque eu era atacada todos os dias. (...) Hoje a gente vive um momento muito especial. A gente tem voz, espaço para se achar e para falar com quem precisa ouvir a nossa mensagem. E nós temos que usar isso da melhor forma possível. Existe o racismo e o machismo, mas são questões que a gente precisa enfrentar com a maior naturalidade do mundo porque existem pessoas que podem sequer trabalhar por causa disso.” - Iza

Retratação às pessoas de pele preta

"A maioria dos ritmos que utilizamos na música pop no mundo é originária da África. São ritmos que trouxeram, em si, discursos de afirmação. A gente, no Brasil, precisa dar muito espaço, muita retratação para as pessoas de pele preta. A gente está discutindo pele branca, pele preta e cabelo diferente hoje, depois de mais de 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos. É horrível isso. Mas ao mesmo tempo eu acredito que estamos vivendo uma época menos hipócrita. As hierarquias na sociedade ainda privilegiam os homens. Os homens são a referência pra tudo. Você compara tudo com o homem porque ele é a norma. A heterossexualidade é a norma. A gente tem que desconstruir isso. (...) Eu vim morar em São Paulo há três anos. Uma pessoa que trabalha comigo há trinta anos - que considero da minha família - trouxe os filhos com ela. E quando viam que eles tinham pele preta, não davam emprego pra eles. Tem muito racismo no Brasil. Muito, não é pouco não. É inacreditável isso. Assustador. Mas eu acho que é um momento que as redes sociais estão mostrando o que as pessoas pensam e o nível de ignorância em que entramos sobre nós mesmos. Porque é a falta de conhecimento de quem somos, sobre as nossas origens, sobre nossas ascendências é que fazem a gente tentar alcançar esse padrão do que é hierarquicamente considerado poderoso. Realmente, as mulheres negras precisam assumir o poder, sim. Ocupar o seu lugar na sociedade mais do que nunca." – Daniela Mercury

No player abaixo é possível assistir à íntegra do bate-papo.

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