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'3%': Série distópica da Netflix mostra futuro do Brasil com abismos do presente

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“Se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.”

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) escreveu o trecho acima em Além do Bem e do Mal (1886), livro no qual ele contraria a mecânica de pensamento da filosofia ocidental daquela época, baseada principalmente no moralismo católico. Ele defende que o futuro da humanidade dependerá de “super-homens” e cada indivíduo deve escolher entre a servidão e a escravidão.

O livro foi publicado no século 19, mas há ecos dele tanto nos dias atuais, nos quais estreia 3%, a primeira série brasileira a ser exibida pela Netflix, quanto no futuro árido e desolador no qual se passa a trama criada por Pedro Aguilera.

De fato, assistir aos episódios do seriado pode causar certo mal-estar: o vislumbre deste futuro construído das ruínas de um colapso ambiental, social e moral lembra e muito a vertigem de encarar um abismo. E lembra muito o Brasil de hoje também.

Em 3%, a sociedade brasileira se divide em duas partes: o Continente, repleto de escassez de recursos, miséria e desesperança, e o Mar Alto, onde todos têm direito a uma vida mais humana. No entanto, só há um caminho para se chegar lá: vencer no Processo, uma dura seleção para a qual jovens de 20 anos se alistam. Apenas 3%, como sugere o título, devem chegar ao Mar Alto.

“Sem dúvida, a série culminou em uma conjuntura política na qual ela serve como alerta”, diz em entrevista ao HuffPost Brasil a atriz Bianca Comparato. Ela interpreta Michele, uma das protagonistas da série.

“A globalização faliu e a prova disso é a eleição de políticos conservadores neste ano. Se a gente continuar segregando e dividindo, a gente pode chegar [a um futuro como o de 3%].”

3 por cento

A meritocracia é um dos fundamentos do mundo da série – no futuro, os brasileiros ainda vivem as consequências mais extremas do modelo. (No vídeo acima, o elenco comenta se a baixa porcentagem é fiel à realidade do País.)

Permanece, entretanto, a ideia quase romantizada de um indivíduo capaz e merecedor de vencer no Processo – pois por mais vaga que esta imagem seja, tanto quanto a própria ideia do Mar Alto, trata-se da única esperança que os brasileiros do Continente têm.

O comentário social de 3% é afiado: fica nítida a metáfora sobre o Brasil. À primeira vista, não é difícil de se identificar com Michele ou Fernando (Michel Gomes), um cadeirante negro. Outra figura frequente na paisagem social brasileira é Marco (Rafael Lozano), mauricinho cuja família é tradicionalmente aprovada no Processo – o rapaz acredita piamente que também o será apenas por ter a família que tem.

Joana (Vaneza Oliveira) é obstinada e responde ao desafio desafiando-o de volta. Ela se une ao maquiavélico Rafael (Rodolfo Valente) para a disputa; nada mais adequado que se aliar àquele que pode te derrotar.

Eles são supervisionados pelo soturno Ezequiel (João Miguel), o homem de gelo que conduz as seleções. O sistema, por sua vez, crê que precisa observá-lo. Para tanto, Aline (Viviane Porto) é enviada com a tarefa de analisar o desempenho e os métodos de Ezequiel.

Conforme a história se desenrola, as primeiras impressões que temos dos personagens apenas nos introduzem aos seus segredos, contradições, motivações e seus passados – que influenciam muito suas ações. No futuro de 3%, a dor das lembranças ainda pode definir quem somos – a idealização do “super-homem” que sobrevive ao Processo segue se distanciando – e o arco narrativo de Ezequiel e Julia (Mel Fronckowiak) é particularmente incisivo ao dizer isso.

A cartela de personagens traz diversidade. Há negros, mulheres, asiáticos e um deficiente em papel protagonista. Zezé Motta dá vida a uma das grandes chefes do sistema opressor. Aguilera sinaliza nisso a capacidade de fazer escolhas notáveis para contar sua história.

“Apesar das coisas horríveis que rolam no futuro, algumas outras deram uma agilizada”, disse. “A gente não queria construir um Mar Alto que tivesse os mesmos problemas de hoje, como machismo e racismo. Achamos interessante ter no poder camadas sociais que não têm tanto acesso a ele hoje. Traz a sensação de ‘é para aí que o mundo está indo’, mesmo que lentamente.”

“O fato de você ter essa pessoa em uma posição de poder, já é uma mensagem forte por si só”, comenta Porto. “Quando você não coloca o cara da minoria necessariamente como bonzinho, você tira o maniqueísmo da coisa. O importante é justamente não só misturar como estética, como grupo, mas misturar também com papéis e posições.”

Miguel acredita na importância de se ter um elenco que representa a miscigenação do País. “É importante que a série questione, levante questões sobre o poder corporativo. A gente vive uma realidade em que se fala muito dessas questões de minorias, mas os modelos são muito velhos.”

Criador e criatura

Aguilera, de apenas 27 anos, começou a rabiscar o conceito da série em 2009, quando estudava cinema na Universidade de São Paulo (USP). À época, ele estava lendo Admirável Mundo Novo (1932), clássico da ficção científica de Aldous Huxley, e relendo 1984 (1949), de George Orwell.

Sob influência das histórias de distopia, ele, Jotagá Crema, Daina Giannecchini e Dani Libardi, todos colegas de faculdade, desenvolveram o enredo de 3% – a obra venceu um edital do Ministério da Cultura e foi transformada em uma websérie. O projeto não foi para frente, mas o piloto foi disponibilizado no YouTube e viralizou.

Agora sob batuta da Boutique Filmes, 3% tem produção mais robusta e elaborada – o diretor-geral é César Charlone, indicado ao Oscar pela fotografia de Cidade de Deus (2003) e ao Bafta por O Jardineiro Fiel (2005), ambos filmes de Fernando Meirelles –, mas sofre de um mal de sua época. A grande oferta de histórias de ficção distópica no mercado faz com que a série de Aguilera, inevitavelmente, seja parecida com outras obras, como A Ilha (2005), filme de Michael Bay, ou a franquia Jogos Vorazes, com livros de Suzanne Collins e adaptações para o cinema com Jennifer Lawrence.

3% derrapa frequentemente no roteiro: há diversos diálogos sem função ou pouco lapidados. Além disso, há momentos em que as atuações soam artificiais, sem fluidez – mas nada que chegue ao ponto de tornar o seriado menos envolvente ou tenso.

Resta dar tempo ao tempo para sabermos se 3% decola, como tantas outras séries da Netflix. Por ora, os oito episódios disponíveis na plataforma de streaming a partir desta sexta-feira (25) garantem um entretenimento no mínimo interessante – e tão incômodo quanto olhar para um abismo.

Assista abaixo ao trailer:

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