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'American Honey' é muito mais do que um filme sobre jovens desajustados e sem esperança

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AMERICAN HONEY
Sucesso em festivais, o filme de Andrea Arnold converte Sasha Lane em estrela | Reprodução
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Imagine que você é universitária caloura e está curtindo o recesso de primavera na agitação das praias de Panama City, Flórida. Uma mulher britânica de meia-idade se aproxima.

Ela pergunta se você – estudante de psicologia nascida no Texas e que trabalha em turnos diferentes num restaurante mexicano de rede – gostaria de estrelar um filme. Isso nunca passou por sua cabeça. Você não tem como recusar, certo?

Menos de um ano mais tarde você está percorrendo o tapete vermelho em Cannes, onde o tal filme dá à mulher britânica, cujo nome é Andrea Arnold, seu terceiro prêmio do júri nesse festival (os outros foram por Marcas da Vida [Red Road] de 2006, e À Deriva [Fish Tank], de 2009).

E, alguns meses depois desse festival francês, você e seus colegas de elenco fazem um pseudo “spring break” próprio no Festival de Cinema de Toronto, onde um ônibus especial os leva pela cidade e para a festa após a première do filme, que acontece num bar country onde a agitação maluca rivaliza com a das praias da Flórida, virando um dos grandes eventos da semana.

O filme em questão, American Honey, que estreou em 30 de setembro, condiz com o espírito das histórias que subsidiam sua trama ágil.

Odisseia da estrada que acompanha um bando alegre de desajustados em busca de estabilidade transitória, American Honey é provavelmente o único título exibido em Toronto onde a visão de jornalistas dançando com o elenco ao som de We Found Love, de Rihanna, e No Type, de Rae Srremmurd, parecia uma cena cortada do próprio filme durante a editoração.

festival de cinema de cannes
Riley Keough, Sasha Lane, Andrea Arnold e Shia LaBeouf no Festival de Cinema de Cannes.

Quanto à estudante felizarda que Andrea Arnold arrancou da obscuridade, por assim dizer: ela é Sasha Lane, atriz de primeira viagem que agora está com 21 anos. Ela foi escolhida para o papel principal em American Honey: o de uma jovem chamada Star que procura restos de comida em lixões e escapa de sua vida familiar desregrada, juntando-se a uma equipe viajante de vendedores de assinaturas de revistas composta de vendedores itinerantes com históricos passados semelhantes ao dela.

Um artigo longo de 2007 publicado pelo New York Times sobre essas equipes, frequentemente anárquicas, levou Andrea Arnold a refletir sobre o tipo de pessoas que abandonam sua casa para partir em uma peregrinação nômade.

Os vendedores de assinaturas percorrem os subúrbios para oferecer assinaturas de porta em porta; eles dormem em hotéis baratos de beira de estrada e intercalam brigas com farras noturnas com os outros integrantes de sua tribo improvisada.

“A ideia que eu quis explorar é que esses jovens com antecedentes complicados formam uma espécie de família substituta no ônibus”, disse Arnold, sentada no café de um hotel de luxo na tarde antes da première de American Honey em Toronto.

“Foi essencialmente isso o que me atraiu: a ideia de que todos esses jovens vindos de todo lugar tinham vida difícil. Acho que não é tanto que eles vendam assinaturas de revistas – eles se vendem, se bem que eles não pensem nesses termos, acredito.”

american honey
Riley Keough e outros atores do elenco em cena de American Honey.

No meio da entrevista um garçom se aproximou para ver se queríamos fazer um pedido. Ele reconheceu Andrea Arnold imediatamente. “Chardonnay?”, perguntou. A diretora riu. “Isso foi ontem à noite”, ela explicou.

“A gente se reuniu ontem, a equipe toda do filme. Faziam meses que não nos víamos, então ficamos um tempão, tomamos um drinque e acabamos em algum bar esportivo, dançando em volta das mesas.”

Parece ser exatamente esse o tema da experiência que é American Honey. Apesar de todas as festas que acontecem na tela, muitas vezes em campos perto dos motéis onde os vendedores se hospedam, Arnold garantiu que as farras eram ainda maiores quando as câmeras não estavam filmando.

Ela nunca revelava o próximo destino da viagem aos atores – em sua maioria novatos, mais Shia LaBeouf, que imbui de um machismo selvagem o personagem por quem Star se apaixona. Começando no Oklahoma e atravessando o Meio-Oeste, os atores vagaram em tempo real com seus personagens.

Apesar da existência de um roteiro acabado, Arnold muitas vezes se acomodava na parte de trás da grande van branca da equipe de vendedores, ao lado de dois gravadores de áudio, e capturava a ação no estilo do cinema vérité. A técnica enfatiza a viagem libertária da trama.

Nesse percurso, o romance descarado que ocorre na tela entre Star e seu namorado fundiu-se com a vida real. Num turbilhão que teve vida curta, Sasha Lane teria ido morar com LaBeouf após a rompimento deste com Mia Goth, com quem contracenou em Ninfomaníaca.

Os tabloides tiveram uma leve fixação por Lane e LaBeouf. Até eu lhe contar sobre isso, Andrea Arnold não sabia que veículos de fofocas como Page Six e The Daily Mail tinham divulgado o drama.

A história toda é um tanto fortuita, especialmente considerando as resenhas elogiosas que American Honey vem recebendo. Andrea Arnold tinha escolhido outra atriz para ser Star, mas ela abandonou a produção semanas antes do início previsto das filmagens, levando Arnold a iniciar uma corrida desabalada pela Flórida em busca de outra desconhecida que encarnasse a agitação e intranquilidade da protagonista.

Arnold disse que, se tivesse feito o filme dois anos antes, Star teria saído completamente diferente – mas por motivos “sobre os quais é difícil falar”, porque a evolução do projeto é algo pessoal para a diretora, filha de pais divorciados e que revela em seu trabalho um fascínio com a instabilidade e a autodescoberta. (Arnold também dirigiu três capítulos de Transparent, e seu curta-metragem Wasp, premiado com o Oscar, gira em torno de uma mãe solteira em dificuldades.)

sasha lane e shia labeouf
Sasha Lane e Shia LaBeouf em cena de American Honey.

Mas American Honey é mais do que uma utopia de desajustados. Como o artigo do New York Times que o inspirou, o filme de quase três horas (uma duração merecida) destaca a violência e volatilidade que às vezes assombram as equipes de vendedores itinerantes de assinaturas de revistas.

O grupo é administrado pela ditatorial Krystal, representada pela eletrizante Riley Keough, cujos papéis de destaque incluem The Girlfriend Experience e Mad Max: Estrada da Fúria. Entre palavras de ânimo e críticas, Krystal manda o grupo espancar a pessoa que vendeu menos a cada dia.

Nenhum dos vendedores questiona para onde Krystal manda o dinheiro que eles ganham; parte do dinheiro paga sua alimentação e alojamento, enquanto parte é entregue a uma empresa que só quer arrancar tudo o que pode deles e que é indiferente ao monopólio que exerce sobre o bem-estar desses jovens.

De algumas maneiras a equipe rejeita as estruturas capitalistas da sociedade ordenada, mas mesmo assim os vendedores são sujeitos a esse sistema de maneira selvagem. Em toda sua glória sensual, o filme é nitidamente americano.

Enquanto escreveu o filme, que pode ser visto como tendo afinidade com Kids e Spring Breakers, Andrea Arnold percorreu o país encontrando equipes de vendedores de assinaturas. Ela conheceu uma jovem que entrou para uma dessas equipes assim que saiu da prisão e foi estuprada três vezes.

Arnold também encontrou jovens que estavam fugindo de situações familiares péssimas e descobriram um mundo sem limites na estrada. Era algo tão feio quanto belo, e é exatamente isso que é captado por American Honey.

Durante a pesquisa feita pela diretora as rádios tocavam Lady Antebellum. Arnold ouvia a canção constantemente e absorveu a letra sobre uma garota de uma cidade do interior que deixou sua casa e mais tarde ansiava pela simplicidade de sua infância.

A canção forma uma cena vital no filme, quase à moda de Quase Famosos, em que os membros da equipe acompanham a canção, cantando juntos, consolidando sua união, e a letra oferece esperança para seu futuro.

Foi um momento fundamental das filmagens. Uma personagem deveria cantar acompanhando a rádio na van, mas a voz da atriz foi gravada naquele dia, e o resto do elenco cantou junto para ajudar. Foi exatamente esse o espírito que a diretora quis transmitir ao longo de todas as farras da equipe de Honey nos festivais.

“Os atores a estavam ajudando, apoiando”, explicou Arnold. “Aquilo encarnou perfeitamente a razão por que eu quis fazer o filme.”

A diretora imagina que seus personagens vão continuar juntos depois de American Honey terminar. Em dez anos talvez eles terão abandonado as revistas em favor de outra utopia, o sonho americano avançando com a idade e, espera-se, a chegada da maturidade.

“Dei a Shia uma foto linda do Sul americano, com árvores, e por alguma razão essa imagem teve uma ressonância grande comigo e me levou a querer fazer o filme”, comentou Arnold. “Fiquei imaginando que de alguma maneira os personagens vão acabar no campo. Eles vão cultivar seus próprios legumes e fabricar móveis. Vão juntar-se a Star. Vão estar juntos ainda, entre árvores. É mais ou menos isso que eu gostaria de ver acontecer com eles.”

O filme ainda não tem previsão de estreia no Brasil, mas você pode começar assistindo ao trailer:

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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