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O livro incrivelmente sexista que foi chamado de 'romance de estreia' de Trump

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A arte original da capa de Trump Tower, com Donald J. Trump indicado como o autor

Quando foi lançado em julho de 2012, Trump Tower, de Jeffrey Robinson, não chamou muita atenção, apesar da chamada que mencionava “o romance mais sexy da década” e do endosso de Donald Trump.

“O romance Trump Tower, de Jeffrey Robinson, mostra tudo”, escreve Trump na única frase elogiosa que aparece na contracapa. “Eis o drama dos Ultra-ricos, dos Ultra-poderosos e dos Ultra-lindos que moram no endereço mais glamuroso do país. Mal posso esperar para vê-lo na televisão!”

Uma das únicas críticas foi o New York Post, que disse: “A sala vermelha de Cinquenta Tons de Cinza encaixaria direitinho em Trump Tower”.

A resenha somente discutia os eventos que se passam nas primeiras páginas do livro, tais como uma moradora da Trump Tower sendo detida contra sua vontade em um ato descrito como BDSM, mas não consensual. Esse claro ataque sexual é descrito de forma casual no livro.

Apesar de o livro descrever graficamente a vida sexual dos moradores e funcionários da Trump Tower (como um funcionário transando no set de “O Aprendiz”), o prédio, que fica na 5ª Avenida, em Nova York, continua exibindo o romance com destaque em suas lojas.

No ano passado, o livro estava nas prateleiras do alto da Trump Store, acima de todos os outros livros do presidente eleito dos Estados Unidos. Neste mês, Trump Tower aparece num display perto do Trump Bar e era um dos únicos livros ainda à venda na loja do prédio (agora a maioria dos itens são relacionados à campanha presidencial).

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O livro na prateleira mais alta da loja da Trump Tower, em julho de 2015

Se parece estranho que Trump tenha tamanha afinidade por Trump Tower, faz mais sentido quando você sabe que a editora inicialmente vendeu o livro como “o romance de estreia do autor best-seller, magnata empresarial internacional, superstar da TV e ícone de Nova York, Donald J. Trump.”

O Huffington Post obteve materiais promocionais que mencionam Trump como o autor de Trump Tower e fazem referência a um número ISBN diferente do livro que se pode comprar hoje em dia.

A agência ISBN, organização responsável pela atribuição desses números, confirmou que o número está registrado em sua base de dados. “O livro tinha status de ‘ainda não publicado’ quando tornou-se indisponível”, explica um porta-voz do Perseus Books Group, editora responsável pelas duas versões de Trump Tower.

Na versão original do livro, que supostamente estaria disponível em 2011, o nome de Trump aparece como o autor principal, acima do de Robinson – embora as duas capas sejam praticamente idênticas.

O material promocional enviado a bibliotecas e livrarias depois foi atualizado, com a informação de que a publicação fora cancelada. Um ano mais tarde, apareceu a nova versão de Trump Tower.

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Materiais promocionais para o Trump Tower original

O livro é incrivelmente sexista. São descritos os atributos físicos de praticamente todas as personagens mulheres, ao contrário dos homens. O tamanho dos seios é mencionado repetidas vezes, com frases como: “Ela estava vestida de branco, com a blusa aberta até o umbigo, o que não ajudava a esconder seus seios pequenos”.

Mesmo quando uma personagem é mencionada de passagem, boa parte do espaço é usado para descrever sua aparência, muitas vezes com adjetivos como “cheinha”. Essa descrição é usada para três personagens diferentes.

O romance também descreve com detalhes várias propriedades de Trump, como Mar-a-Lago e o Trump National Golf Club. A história principal envolve moradores e funcionários da Trump Tower, mas o próprio Trump aparece aqui e ali para dizer que algum morador é maluco, para discutir a demissão de algum empregado ou para falar de sua vida sexual.

O arco dominante do livro acompanha o administrador do edifício e seu trabalho. No começo do romance, ele diz para si mesmo: “Donald Trump pode achar que manda na Trump Tower”. Mais de 400 páginas depois, o administrador superou vários obstáculos – mas acaba vendo sua autoridade minada por Trump no último parágrafo.

Vários erros tipográficos, aparições bizarras de celebridades (entre elas ninguém menos que Bill Clinton) e mudanças abruptas de tom tornam um desafio a missão de ler o livro até o final. A primeira parte pode ser descrita como vagamente erótica, com várias cenas envolvendo mulheres nuas e sexo. O restante descamba para política de escritório, acordos comerciais e uma investigação de assassinato. O administrador do prédio é um dos suspeitos, mas é liberado quando os policiais desistem do caso. Ninguém parece interessado na mulher assassinada, então beleza.

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Jeffrey Robinson e a versão publicada de Trump Tower

Assim como em seus livros de não-ficção, aparentemente Trump não “escreveu” Trump Tower, mas sim contratou Jeffrey Robinson como ghostwriter. Uma biografia antiga de Robinson como palestrante, publicada no site da empresa JLA, afirma que o autor “pode também confessar ter sido o autor de um romance de Donald Trump”. (Um porta-voz da JLA disse ao HuffPost que “nossa biografia está correta”.)

Trump trabalhou no projeto de um livro Trump Tower pelo menos desde o fim dos anos 1990, quando tentou transformar a ideia em um programa de TV.

“Contratamos um roteirista de Los Angeles e desenvolvemos um piloto com [o canal] Showtime”, diz Bob Frederick, da produtora canadense MVP Entertainment, ao HuffPost.

“E Donald ficou feliz [com o piloto], porque era um conceito meio ‘Dallas’ e ‘Dynasty’. Apesar de ele não ter responsabilidade criativa na série, ele foi remunerado por seus direitos.”

Parte do material promocional de Trump Tower afirma (ênfases nossas):

Na grande tradição de Arthur Hailey, Harold Robbins, “Dynasty” e “Dallas”, vem Trump Tower, de Jeffrey Robinson, onde a vida de todos é um drama. Deixe sua modéstia no térreo. Trump Tower é o romance mais sexy da década.

A série de TV não foi adiante, mas Trump continuou tentando fazer o projeto decolar com outros canais, incluindo o Lifetime, em 2008. Nessa versão, Trump seria o narrador.

Isso não deve ser confundido com outro projeto de TV autobiográfico também fracassado, o The Tower. Em fevereiro, o The Washington Post obteve parte do roteiro que Trump estava desenvolvendo com a rede NBC.

O projeto se concentraria num personagem chamado John Barron (pseudônimo que Trump usava para conversar com jornalistas), que era um negociador habilidoso.

Trump também seria obcecado pela série Dynasty, então faz sentido que ele quisesse se incluir numa versão sua. Joan Collins, uma das estrelas da série que diz ter se inspirado em Trump, afirmou que o empresário queria um papel na série. Quando foi recusado, ele gritou: “Mas eu sou Dynasty’!

Mais tarde, Trump teria tentado convencer Collins a participar da versão de O Aprendiz Celebridade. O Guardian também afirmou que em 1990 Trump teve um romance com Catherine Oxenberg, uma das atrizes da série, embora ela tenha afirmado que os boatos são “uma grande piada”.

Não está claro por que Trump decidiu tirar seu nome do livro. Robinson se recusou a conversar com jornalistas sobre o assunto durante a eleição, apesar de seus representantes receberem os detalhes desta reportagem. A editora de Trump Tower, Vanguard, efetivamente fechou na época em que o livro foi publicado.

O Perseus Book Group, que controlava a Vanguard, não retornou pedidos de entrevista e somente confirmou que o número ISBN estava em sua base de dados.

O designer responsável pelo material gráfico, Jeff Williams, ainda trabalha na Perseus, mas também não respondeu aos pedidos de entrevista, assim como ex-funcionários da Vanguard.

Várias livrarias e bibliotecas confirmaram que, apesar ter listado em seus arquivos a versão original de Trump Tower, não têm uma cópia física do livro com o código ISBN 10: 159315643X / ISBN 13: 9781593156435.

Elementos do material promocional aparecem no serviço Nielsen BookData, para o qual as editoras enviam esse tipo de informação. Um porta-voz da Nielsen disse que a empresa não tem mais em arquivo materiais referentes a esse ISBN.

O livro registrado originalmente pode ser diferente da versão publicada de outras maneiras. O material promocional sugere que a versão inicial tinha 100 páginas a menos. A trama também teria ligeiras diferenças, tais como uma personagem – “a mulher misteriosa com a piscina coberta” – que não aparece na versão de Robinson.

O produtor de TV Bob Frederick disse que Trump estava cauteloso em relação a uma versão preliminar do programa de TV por causa do “conteúdo sexual” e não queria “uma série sobre sexo”. Como o livro publicado tem muito sexo, pode ser uma das razões pelas quais Trump tirou seu nome do projeto.

Um representante de Trump não respondeu pedidos de comentário.

#TrumpTower, de Jeffrey Robinson, tem tudo. Os ultra ricos, poderosos e lindos. É a leitura obrigatória do verão.”

Como Trump é o presidente eleito dos Estados Unidos, faz sentido ler com atenção Trump Tower e os outros livros que ele “escreveu”. Neste caso, há absurdos à altura da sua campanha.

Eis algumas das cenas de sexo mais estranhas em Trump Tower:

O administrador da Trump Tower confere se uma moradora chamada Cindy Benson está bem em seu apartamento e descreve seus “seios deslumbrantes”:

Abrindo a porta lentamente – “Senhora Benson?” – lá estava ela, completamente nua e amordaçada, com os braços acima da cabeça, algemados à armação da cama, com as pernas abertas, também presas à cama… “Miss Benson…”

Mais tarde, na mesma cena:

Apesar de ela ter feito mechas loiras no seu cabelo escuro, seus olhos grandes e castanhos eram os mesmos que a ajudaram a ficar famosa, e suas maçãs do rosto eram as mesmas, suas pernas eram as mesmas, mas, como Belasco já tinha descoberto – com um quilo e meio a mais do que na adolescência – agora ela tinha seios absolutamente deslumbrantes.

Um morador chamado Rick sai de seu quarto e manda uma estranha transar com ele:

“Naquele momento, Ricky ouviu um barulho no corredor. Ele o seguiu até o segundo quarto, abriu a porta e viu um cara pelado em cima de uma mulher pelada. Ele não conhecia nenhum dos dois.

“Ops.” O cara olhou, mas não parou. “Ei, Ricky, sou o Bugs. Ela é a Shari.” “Não se preocupem comigo.” Ricky ficou parado lá. Shari olhou, meio que acenou e levantou os pés. “Prazer em conhecê-lo.

"Ele os observou por um momento, depois entrou no quarto e deitou na cama com eles. “Quando tiver terminado com ele, querida”, disse Ricky para Shari, “sobe em cima de mim. Só toma cuidado para não me deixar marcas com essa pulseira no seu tornozelo.”

Um ascensorista fala do filho recém-nascido com um morador e diz: “Ele adora os peitos da mamãe”:

Jaquim tirou uma foto do bolso e mostrou para David. “Sete quilos já. São as roupas que você e a senhora Cove compraram para ele. Ele gosta muito.” “Sete quilos. Bom.

” David não tinha ideia se era bom ou ruim, mas sabia que tinha de dizer algo gentil. Jaquim apontou para o peito e disse: “Ele adora os peitos da mamãe”.

Depois, na mesma cena:

David balbuciou: “Eu provavelmente também gostaria dos peitos da mamãe dele” e, em vez de usar sua chave, tocou a campainha.

Um agente de Hollywood chamado Zeke conversa com [a apresentadora de TV] Katie Couric sobre uma festa e fala de algo que Trump lhe contou sobre as “meninas absolutamente deslumbrantes” com as quais ele costumava transar:

“Isso era o que Trump queria saber quando mencionei o negócio para ele. Sabe o que eu disse para ele?” “O que?” “Disse: ‘Donald, quando você é dono do mundo, transa muito.”

Couric olhou torto para ele. “E você sabe o que ele me disse?”, Zeke meneou a cabeça várias vezes, “ele disse que quando era solteiro e estava com algumas das mulheres mais bonitas do planeta, meninas absolutamente deslumbrantes, ele costumava transar o tempo todo. Ele disse:

‘Zeke, não precisava ser dono do mundo’. E eu disse para ele, Donald, claro que não, porque você já era dono do título”. Couric sorriu educadamente.

Duas moradoras falam de almoçar juntas e se perguntam se serão capazes de ficar de roupa.

“Mulheres que almoçam”, disse Cyndi. “Desta vez”, sugeriu Alicia, “vamos tentar não tirar a roupa.”

Um designer de lingerie conversa com um morador do prédio sobre seus objetivos:

“Como Firenzi se descreveu certa vez para Carson: ‘Crio roupas íntimas para as putas em que todo homem sonha que sua amante se transforme’.”

Uma funcionária da NBC diz para um morador, também da empresa, que será promovida no lugar de dois colegas brancos:

“Ora, essa é moleza.” Ele a lembrou: “Dois caras brancos e uma menina linda, de minoria, com seios perfeitos? Não tem disputa.”

Uma moradora casada, chamada Tina, decide transar com Ricky e algumas pessoas perguntam se podem assistir:

Aí ele viu Tina e sorriu. “Se não sou eu visitando a enfermaria.” Ela foi até ele e segurou seu braço. “Vem me fazer.” “Que ótima ideia”, disse ele. Uma das mulheres na sala perguntou: “Podemos assistir?” O cara do lado dela sugeriu: “Talvez a gente devesse filmar”. “Vão se foder”, disse ela para os dois, e arrastou Ricky para o quarto.

Uma funcionária da Trump Tower chamada Antonia conversa no telefone com um ator da Broadway chamado Tony. Ambos falam de si mesmos na terceira pessoa o livro inteiro.

“Tire a blusa”, disse ele mais uma vez. As mãos dela estavam tremendo. “Não.” “Sim”, disse ele. “Tire a blusa.” Ela pegou a parte de baixo da blusa, mas não moveu as mãos. “Não,” “Sim.” “Não posso.” “Sim, pode. Faça o que estou dizendo.

Tire a blusa.” Ela tentou engolir, mas a boca estava seca. “Não posso...” “Tire. Tire a blusa. Faça o que estou dizendo.” Ela fechou os olhos, hesitou e tirou a blusa.

“Tirou?” “Sim” “Agora... tire a calça...” “Não...” “Sim, tire a calça, vamos.” Quase em transe, ela desabotoou o jeans, abriu e deixou os cair até os tornozelos. “O que você está vestindo agora?” Ela ficou de olhos fechados e sussurrou: “Calcinha e sutiã”. “Agora tire o sutiã.”

As mãos dela tremiam enquanto ela buscava o fecho e fazia o que ele queria. “Sim?”, perguntou ele. “Sim”, disse ela, deixando o sutiã cair no sofá. “Agora tire a calcinha.” Ela não se mexeu.

Ela começou a se tocar e agora suas pernas estavam tão bambas que ela não conseguia mais ficar de pé e caiu no sofá. Ele continuou sussurrando, e ela não conseguia parar. “Tommy... Tommy.... Antonia quer Tommy...” “Antonia vai ter Tommy”, disse ele. “Hoje à noite. Tommy vai ao apartamento de Antonia, vai tocar a campainha e Antonia vai abrir a porta para ele completamente nua...”

“Isso”, gemeu ela. “Sim, Antonia?” “Isso... isso... completamente nua.” “E vai fazer tudo o que Tommy quiser.” “Isso.” Ela não conseguia parar. “O que Tommy quiser.” “O que Tommy quiser.” “Isso... isso”, disse ela bem alto. “O que Tommy quiser.”

Um morador chamado Mikey convence as mulheres a mostrar os seios.

Mikey caminhou até ela. “Não deixe Wendy sozinha...” “Quem é Wendy?” Ele apontou para a mulher seminua. “Sharon, ali.” “Achei que o nome dela fosse Wendy.”

“O da esquerda é Wendy, o da direita é Sharon. Como são os nomes dos seus?” Rindo, ela levantou a blusa e, sem sutiã, mostrou uma pequena tatuagem do lado de cada um dos seus seios. “Esquerda... e direita.”

“Que legal”, disse Mikey, ajudando-a a tirar a blusa. “Ei”, disse Joey, “essa é minha namorada nova.”

“Não, cara”, insistiu Mikey, “o da esquerda e o da direita são históricos.” Ele pegou a mão dela e começou a desfilá-la pelo quarto, mostrando as tatuagens para todos.

Mais tarde, na mesma cena:

“Quando a mulher pegou no sono, Mikey viu que pelo menos seis mulheres estavam de seios de fora. Ele proclamou: “Morri. Estou no paraíso dos peitos.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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