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A TV nunca teve tantos personagens LGBTQ quanto agora

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LAVERNE COX ORANGE IS THE NEW BLACK
A atriz transgênera Laverne Cox em cena de 'Orange is the New Black' (Netflix) | Paul Schiraldi Photography/Divulgação
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A gente já falou muito por aqui sobre a desigualdade racial e de gêneros em Hollywood: atrizes e atores negros da TV ganham menos que colegas brancos e têm menos voz na indústria cinematográfica; atrizes falam menos e têm três vezes mais chances de ficarem nuas em cena; filmes com elencos liderados por mulheres tendem a ganhar notas piores de usuários e críticos homens, ainda que produções com boas representações femininas tenham a mesma chance de sucesso. Em resumo, não está sendo fácil. Mas o ano de 2016 trouxe uma boa notícia: ainda que a passos lentos, a representatividade LGBTQ na TV americana tem aumentado.

É o que aponta um estudo conduzido pela GLAAD, organização não-governamental estadunidense que busca ampliar o espaço de representação e a voz da comunidade LGBTQ. A organização monitora de perto a representação de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e queers na mídia – e, no relatório Where we are on TV, faz uma análise da inclusão de personagens diversas na telinha. Realizado anualmente há 21 anos, o relatório desta temporada considera seriados exibidos nos Estados Unidos entre junho de 2016 e maio de 2017 cujos elencos tenham sido anunciados e confirmados pelas emissoras e serviços de streaming. Também entram na conta programas de outros países que sejam exibidos em solo estadunidense.

Segundo dados deste ano, das 895 personagens que integram o elenco de 118 séries exibidas no horário nobre da TV aberta americana, 43 personagens são LGBTQ – um aumento em relação às 35 do ano anterior. A porcentagem de personagens LGBTQ no elenco regular também cresceu: nesta temporada, elas representam 4,8% do total – um número ainda muito baixo, mas que marca a maior porcentagem identificada pela GLAAD nas últimas duas décadas.

Nos canais de TV a cabo, o número de personagens regulares também cresceu, subindo de 84, no ano passado, para 92 neste ano – já os personagens LGBTQ com participações recorrentes diminuíram (eram 58 em 2015 e 50 em 2016). Nos serviços de streaming Amazon, Hulu e Netflix, o número de personagens regulares e recorrentes cresceu, saltando de 59 para 65 nesta temporada.

A porcentagem de personagens regulares da TV aberta americana que vivem com alguma deficiência subiu neste ano de 0,9% para 1,7%, o percentual mais alto desde que a GLAAD começou a monitorar essas estatísticas em 2010. Cada uma das três plataformas têm um personagem LGBTQ retratado como HIV positivo, sendo apenas um personagem regular, na série How to Get Away with Murder.

Personagens homens gays são os que têm mais espaço na TV aberta americana e a cabo – eles são 49% (um aumento de dois pontos em relação ao ano passado) e 46% (aumento de cinco pontos) das personagens LGBTQ nessas plataformas, respectivamente. Personagens bissexuais conquistaram mais terreno, representando 30%, 32% e 26% das personagens LGBTQ na TV aberta, a cabo e nos serviços de streaming, respectivamente.

Em 2015, nenhuma personagem trans integrava o elenco das séries de TV aberta americana: em 2016, elas são três nessa plataforma, seis na TV a cabo e 7 na programação original de serviços de streaming. Por outro lado, a representação de mulheres lésbicas teve uma queda: nesta temporada, são 92 personagens nos programas de TV aberta e fechada, no ano passado eram 98.

“Ainda que tenha havido um grande avanço e a TV continue muito à frente do cinema no que diz respeito à representatividade LGBTQ, devemos destacar que a televisão – e as séries de TV aberta, mais especificamente – falharam com as mulheres queer neste ano”, aponta o relatório. Mais que números, o documento destaca um problema recorrente que se fez presente novamente em 2016: 12 personagens lésbicas e bissexuais foram mortas em narrativas televisivas desde o início do ano. “Isso é especialmente decepcionante, já que este mesmo relatório convocou os criadores de conteúdo audiovisual a fazerem mais pelas mulheres lésbicas e bissexuais após mortes supérfluas nos seriados Chicago Fire e Supernatural no ano passado. Isso dá continuidade a uma tendência que perdura há décadas, a de matar personagens LGBTQ – muitas vezes apenas para promover a trama de personagens héteros e cisgênero – o que envia uma mensagem perigosa para o público”, afirma o documento da GLAAD.

A organização faz ainda um apelo aos produtores e criadores pelo fim dessa narrativa prejudicial que explora uma comunidade já marginalizada. “É importante que essas personagens existam em papéis significativos que são capazes de causar um impacto maior do que personagens que só aparecem esporadicamente em episódios especiais. Embora as emissoras tenham melhorado ano a ano e agora contem com três personagens transgêneros, as redes devem ir mais longe introduzindo também personagens masculinos transgêneros, que permanecem em grande parte invisíveis na mídia convencional”, afirma o relatório. Das 16 personagens transgênero que estarão na TV nesta temporada nas três plataformas, estão apenas 4 homens trans.

A diversidade racial geral apresentou melhora – nesta temporada, não-brancos totalizam 36% dos 895 personagens regulares, um aumento de três pontos em relação ao ano passado. Ao todo, 20% dos personagens regulares da programação no horário nobre nesta temporada serão negros, o maior percentual desde que a GLAAD começou a compilar dados raciais abrangentes há 12 anos. No entanto, as mulheres negras permanecem sub-representadas, contabilizando apenas 69 (38%) personagens. Há muito espaço para melhora: uma esmagadora maioria de personagens LGBTQ em programas da TV a cabo e aberta também são brancas (72% e 71%, respectivamente).

O relatório completo pode ser visto aqui.

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