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Para Calero, Temer sugeriu 'manobra' para resolver caso do apartamento de Geddel

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marcelo calero

O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero reafirmou ao Fantástico que o presidente Michel Temer sugeriu que ele usasse "um artifício, uma manobra, uma chicana" para que ele resolvesse o veto do Instituto do Patrimônio Histórico (Iphan) a um prédio de 32 andares em Salvador (BA).

“Ficou patente que altas autoridades da República perdiam tempo com um assunto absolutamente paroquial”, disse Calero. Após ser apoiado numa primeira conversa, na segunda fala com Temer o tom foi outro: “Marcelo, eu tenho muito apreço por você, mas essa decisão do Iphan nos causou bastante estranheza”, reconstruiu o ministro em fala ao programa da Globo.

De acordo com Calero, Temer reclamou que a decisão do Iphan teria causado “dificuldades operacionais” ao governo. “Ele não explicou, disse apenas que decorriam do fato de que o ministro Geddel teria ficado muito irritado”, contou o ex-ministro.

Temer teria recomendado, então que o caso fosse encaminhado à Advocacia-Geral da União (AGU) e "consolado" o ministro pelo embate com Geddel: “Marcelo, a política tem dessas coisas”, teria dito o presidente.

Ele disse que o governo federal acabou surpreso por ele não ter aceitado interferir no Iphan. “O servidor tem de ser leal, mas não cúmplice”, disse. “Me choca ver que interesses particulares ainda prevaleçam”, adicionou .

As gravações

O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero confirmou em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, que gravou conversas com o presidente Michel Temer e ministros, mas disse que o conteúdo do diálogo gravado com Temer, no qual pediu demissão do cargo ministerial, foi apenas protocolar, “até por sugestão de alguns amigos na Polícia Federal”.

“Foi a conversa da minha demissão”, disse.

Na sexta-feira (25), o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, informou que a Polícia Federal vai investigar se o presidente foi gravado.

Em depoimento prestado à Polícia Federal, Calero disse que o presidente o “enquadrou” para achar uma saída para o problema de Geddel. O ex-ministro da Secretaria de Governo tem uma promessa de compra de um imóvel de luxo, avaliado em R$ 2,5 milhões, em um empreendimento embargado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Calero é o pivô de uma crise que levou à demissão do ex- ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima na semana passada. O ex-ministro da Cultura acusou Geddel de ter feito pressão sobre ele devido a uma obra de um prédio em Salvador do interesse de Geddel, e depois disse à Polícia Federal que também sofreu pressão de Temer com relação ao caso.

"Eu fiz algumas gravações telefônicas, ou seja, de pessoas que me ligaram. Entre essas gravações, existe uma gravação do presidente da República, mas uma gravação absolutamente burocrática", disse Calero na entrevista, exibida na noite de domingo.

"Inclusive, eu fiz questão de que essa conversa fosse muito protocolar, que é a conversa da minha demissão. Eu tive a preocupação inclusive de não induzir o presidente a entrar em qualquer tema para não criar prova contra si", acrescentou.

Calero não disse quais ministros gravou, segundo ele, para não prejudicar as investigações.

Geddel pediu demissão do cargo na sexta-feira, após conversa com Temer. Em entrevista coletiva no domingo, o presidente admitiu que a demora no pedido de demissão de Geddel foi prejudicial ao governo e aumentou a temperatura da crise.

Na entrevista, Temer ainda insistiu que suas conversas com Calero se resumiram a tentar arbitrar um conflito, e classificou de "indigno" o fato de Calero ter gravado conversa com ele.

A possibilidade de o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero ter gravado conversas nas quais ele se sentiu pressionado a resolver o problema pessoal do ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima irritou o presidente Michel Temer. Segundo a Folha de S.Paulo, em entrevista a jornalistas, o presidente considerou a atitude 'agressiva', 'clandestina' e ‘irrazoável’.

"Eu acho que gravar clandestinamente é irrazoável, é quase indigno. O ministro gravar o presidente é gravíssimo. Se gravou, eu espero que essa gravação venha à luz e eu vou pedir que venha à luz”, afirmou.

"Se ele gravou mesmo eu espero que logo venha à luz. Os senhores vão verificar que eu estava arbitrando conflitos. A coisa que mais fiz na vida foi arbitrar conflitos. É uma tarefa indispensável para um presidente da República", afirmou.

Temer afirmou ainda que pedirá ao Gabinete de Segurança Institucional que grave as audiências. "Assim, aproveitando uma agressiva, clandestina e irrazoável iniciativa, podemos fazer de um limão uma limonada.”

Entenda o caso

O empreendimento de luxo do La Vue Ladeira da Barra, pivô da demissão de Calero, foi embargado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), no último dia 16. Segundo o ex-ministro, assim que assumiu o comando da Cultura passou a ser pressionado por Geddel para elaborar outro parecer.

"Então você me fala, Marcelo, se o assunto está equacionado ou não. Não quero ser surpreendido com uma decisão e ter que pedir a cabeça da presidente do Iphan", afirmou Calero à Folha de S.Paulo.

"Uma situação como essa, de um ministro ligar para outro ministro pedindo interferência em um órgão público para que uma decisão fosse tomada em seu benefício, não é normal e não pode ser vista assim. Não é normal", afirmou ao Estado de S.Paulo.

Com informações Reuters

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