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Refugiados do Sudão do Sul estão chegando a Uganda em níveis sem precedentes

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Uganda está tendo enormes dificuldades para acomodar um fluxo diário de mais de 2.900 refugiados do Sudão do Sul.

O país abriga mais de meio milhão de pessoas que fogem da luta sangrenta do vizinho ao norte.

O recente êxodo em massa do Sudão do Sul é causado pela volta dos conflitos violentos no país, que existe há cinco anos.

A guerra civil tomou o país no final de 2013, e o colapso de um acordo de paz em julho deste ano causou uma enorme fuga para Uganda – mais de 300 mil refugiados nos últimos quatro meses, segundo dados da agência da ONU para refugiados, o UNHCR. Em setembro, o total de refugiados do Sudão do Sul ultrapassou 1 milhão de pessoas.

“Os combates acabaram com as esperanças de uma resolução e geraram novas ondas de sofrimento e deslocamentos”, disse o porta-voz do UNCHR Leo Dobbs. A imensa maioria dos refugiados é de mulheres e crianças, acrescentou ele, e o conflito já obrigou mais de 1,6 milhão de pessoas a abandonar suas casas.

A agência humanitária relata que muitas refugiadas foram atacadas sexualmente ao chegar a Uganda. Grupos armados bloqueiam estradas, forçando os refugiados a andar por áreas de floresta durante dias sem acesso a água ou comida.

Uganda ainda passa por um processo de reconstrução depois de uma guerra civil e uma insurgência que durou dez anos e deixou milhões de refugiados. O Exército Divino da Resistência, espécie de culto armado liderado por Joseph Kony, cometeu abusos dos direitos humanos em larga escala no norte do país, incluindo assassinatos em massa, abduções e escravidão.

Em agosto, o país abriu o campo de refugiados Bidi Bidi, numa tentativa de acomodar centenas de milhares de pessoas vindas do Sudão do Sul. Já é um dos maiores campos de refugiados do mundo, com mais de 221 mil pessoas.

Organizações como o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (UNHCR, na sigla em inglês) e a ONG Medical Teams International (MTI) trabalham para apoiar a crescente população de refugiados e a consequente escassez de recursos em Uganda, onde há necessidade urgente de dinheiro e ajuda.

A fotojornalista Natalia Jidovanu coordenou com o MTI um trabalho de documentação da crise. Ela conversou com vários refugiados, que descreveram a terrível jornada através da fronteira e os terrores de que fugiam em seu país natal.

“As pessoas falam de ataques e matanças indiscriminadas de homens, violência sexual contra as mulheres e as adolescentes”, disse Jidovanu ao The WorldPost.

Ela se disse surpresa com a disposição dos refugiados em contar suas histórias. “Acho que as pessoas têm a necessidade de falar sobre o que está acontecendo no Sudão do Sul, sobre a violência e especialmente sobre o medo.”

Veja as fotos de Jidovanu e seus comentários sobre o período que ela passou em Uganda.

  • Natalia Jidovanu
    Michael T., 42, e seus três filhos esperam para ser realocados do centro de recepção de refugiados Ocea para o campo Bidi Bidi. “Estava em Juba com minha família em 7 de julho. Por volta de 10h, ouvimos tiros. As pessoas ficaram confusas. Todo mundo começou a correr e procurar abrigo. Minha mulher e meu filho mais velho foram atingidos. Eles morreram. Minha mulher e meu filho.”
    Centro de Recepção Ocea, 4 de novembro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    “Fugimos. Mas não estamos em paz. Pensamos nas vidas de quem ficou para trás. Pensamos nos familiares e amigos que não podem sair de seus vilarejos.” Joy M. tem 28 anos.
    Ela veio com sua filha. O marido ainda está preso em Yei. “Em julho, tive de trazer minha filha para minha irmã, que é casada e mora em Uganda, para que minha filha estivesse num lugar seguro. Em agosto, também tive de fugir.”
    Joy diz que foi parada por soldados Dinka ao longo da estrada, quando viajava num carro com outros refugiados.
    “Os Dinka pararam o carro e nos mandaram descer. Eles não queriam nos deixar sair do país. Tivemos de abandonar o carro e correr para o mato.” Joy terminou a viagem a pé.
    “Meu marido ainda está em Yei. Ele não tem como sair de lá. Não sei quando vou vê-lo de novo. Estamos cansados dessa guerra. Penso na minha filha. Que futuro era terá em nosso país?”
    Centro de Recepção Ocea, 4 de novembro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    Segundo o UNCHR, mais de 90% dos refugiados que chegam a Uganda são mulheres e crianças. A maioria é de Equatoria Oriental, com menores números de Juba.
    Campo de refugiados Nyumazi, 28 de outubro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    Mulheres e crianças recém-chegadas entram em ônibus do UNCHR perto da fronteira em Nimule – um dos principais pontos de entrada para o Sudão do Sul.
    Dos postos de fronteira, os refugiados são transportados para centros de trânsito, de onde serão levados para os campos de refugiados.
    Ponto de coleta Elegu, 27 de outubro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    Grupo de mulheres espera na chuva para se registrar e receber status de refugiadas no ponto de coleta Kuluba. Ponto de coleta Kuluba, 1º de novembro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    Muitos daqueles que conseguem fazer a viagem a Uganda chegam em estado de saúde preocupante depois de caminhar durante dias ou semanas, muitas vezes sem acesso a água potável ou comida.
    Os refugiados precisam de cuidados médicos imediatos.
    Centro de saúde Yogo, campo de refugiados Bidi Bidi, 2 de novembro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    Uganda adota uma abordagem pioneira para o gerenciamento e a proteção dos refugiados, integrando os recém-chegados à população local. Os refugiados recebem terras para construir novas casas e plantar, numa tentativa de diminuir a dependência de ajuda humanitária.
    Eles também têm o direito de trabalhar.
    Campo de refugiados Pagirinya, 29 de outubro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    “Tivemos o caso de um menino de 9 anos que estava viajando com seu irmão de 2 e teve de enterrá-lo porque ele morreu na viagem”, disse um integrante da ONG Medical Teams International no ponto de coleta Elegu.
    Campo de refugiados Pagirinya, 29 de outubro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    Equipes do Medical Teams International oferecem cuidados básicos de saúde, garantindo que as crianças estejam imunizadas e procurando sinais de desnutrição.
    Todo o trabalho é realizado em centros de recepção e campos de refugiados.
    Campo de refugiados Pagirinya, 29 de outubro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    Mãe e filho chegam ao ponto de coleta Kuluba, perto da fronteira com o Sudão do Sul.
    “Andamos pela mata durante quatro dias. Meu pai ficou no vilarejo. Ele está velho demais para caminhar”, disse Sarah A.
    Ponto de coleta Kuluba, 1º de novembro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    No ponto de coleta Elegu, uma família de refugiados carrega seus pertences antes da transferência para o campo Bidi Bidi.
    Ponto de coleta Elegu, 27 de outubro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    Nos campos, o UNHCR, o escritório do primeiro-ministro e o Programa Mundial de Alimentação trabalham juntos para oferecer abrigo, itens emergenciais e comida.
    Centro de Recepção Ocea, 4 de novembro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    Criança do Sudão do Sul recebe vacina no ponto de coleta Kuluba, antes de ser levada para o campo de refugiados Bidi Bidi.
    Um dos principais parceiros do UNHCR, a ONG Medical Teams International enviou profissionais para cada ponto de entrada de refugiados e é capaz de oferecer assistência médica para eles no momento da chegada a Uganda.
    Ponto de coleta Kuluba, 1º de novembro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    “Não sei se meus pais estão vivos. É triste ver os jovens do Sudão do Sul abandonando seus sonhos e fugindo.
    Os soldados chegavam às noite, matando os homens e estuprando as mulheres. Por que matar inocentes?”, pergunta Daniel N., 19.
    Centro de Recepção Ocea, 4 de novembro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    Mary F., 60, vive no campo de refugiados Pagirinya com o filho, duas filhas e dois netos.
    “Os soldados estavam chegando, cercando nossas casas, atirando e espancando as pessoas. Estávamos com medo porque não sabíamos o que estava acontecendo.
    ” Mary lembra dos dias antes da decisão de fugir para Uganda. “Andamos durante dois dias. Cheguei a Nimule muito fraca.”
    Campo de refugiados Pagirinya, 29 de outubro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    “É a terceira vez que fujo para Uganda. Minha mulher está traumatizada. Trabalhamos duro nossas vidas inteiras. Tínhamos uma casa. Perdemos tudo em 1990.
    Perdemos tudo de novo em outubro. Toda vez que fugimos, temos de recomeçar do zero.” Originalmente de Yei, dois dos filhos de John nasceram em Uganda, como refugiados.
    “Não consigo me comunicar com meus filhos há duas semanas. Eles ainda estão em Juba. Não há paz ali. Mas as pessoas estão com medo de falar.”
    John fala de seu sonho de paz entre todas as tribos do Sudão do Sul: “A única maneira de acabar com esse ciclo de violência e morte é colocar o poder nas mãos de um homem que tema a Deus.
    Nosso país não terá paz enquanto não tivermos um presidente que coloque as pessoas em primeiro lugar. Estamos cansados de fugir e de ser refugiados.”
    Centro de Recepção Ocea, 4 de novembro de 2016.
  • Natalia Jidovanu
    “A vida era boa no nosso país antes da guerra”, diz Simon O., 75, no campo de refugiados Pagirinya com sua nora e seis netos. “Tínhamos terras e plantávamos.
    Tudo mudou em julho. Não sabíamos que o conflito estava se aproximando. Viemos para Uganda de mãos vazias.”
    O filho de Simon foi assassinado na onda de violência que irrompeu em julho. Simon viajou para a fronteira de carona numa moto, enquanto sua nora e os netos foram a pé. Simon perdeu a perna direita ao pisar numa mina, em 2005.
    Campo de refugiados Pagirinya, 29 de outubro de 2016.
Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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