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‘Animais Fantásticos e Onde Habitam': Filme que aborda perseguição estreia no momento perfeito

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FANTASTIC BEASTS
Divulgação/Warner
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Este post contém SPOILERS de Animais Fantásticos e Onde Habitam.

No filme Animais Fantásticos e Onde Habitam (em cartaz no Brasil desde o último dia 17), você vai encontrar muitas criaturas incríveis.

Esses monstros fora-da-lei correm para cima e para baixo, roubando coisas reluzentes, causando confusão em Nova York e ao mesmo tempo nos seduzindo com seu charme.

Como o resto da série Harry Potter, que sempre lidou com a morte e o desafio do heroísmo acidental, o subtexto do novo filme vai muito além de seu carisma fácil.

Animais Fantásticos não é um filme exatamente sobre "animais fantásticos", afinal de contas. É uma metáfora sobre perseguição.

Depois da eleição de Donald Trump, um xenófobo comprovado que fez uma campanha baseada em retórica de discriminação, não há tema mais apropriado para estes dias.

O filme se passa em 1926 e começa com Newt Scamander (Eddie Redmayne), um magizoólogo britânico, desembarcando em Nova York com uma mala cheia de bichos.

Diferentemente de seus pares britânicos, que ignoram poções e feitiços, os muggles americanos – chamados de no-majs – estão em guerra contra seus vizinhos e suas varinhas de condão.

Multidões se reúnem para protestar contra os magos, gerando inquietude e paranoia na duas comunidades. Se você não é como a gente, está contra a gente, dizem esses ativistas.

Não é à toa que os personagens de Harry Potter se esforçavam tanto para esconder seus poderes – a história ensinou o que aconteceria se eles fossem descobertos.

colin farrell ezra miller

Essa perseguição evangélica se manifesta com mais força em Mary Lou Barebone (Samantha Morton), uma fanática que rouba as crianças das famílias mágicas que desmascara e as cria como fantoches. Credence (Ezra Miller) é o integrante mais problemático do clã de Barebone.

Dividido entre um ódio que o incita a esconder sua verdadeira natureza e um desejo avassalador de entender o que significa ter poderes mágicos, Credence encontra um mentor em Percival Graves (Colin Farrell), um Auror imperial que manipula Credence.

O subtexto gay é gritante. Como muitos adolescentes (e adultos) confusos, Credence procura alguém com quem conversar sobre esses sentimentos. Será que seus impulsos são indecentes? Há esperança de redenção?

Para traçar uma comparação com os Estados Unidos que acabam de eleger um vice-presidente de histórico deplorável no que diz respeito aos direitos LGBT, será que ele consegue se livrar da mágica só com reza?

Credence se agarra a Percival, literalmente – o mago mais velho o encontra em becos escuros, onde agarra o rosto de Credence com carinho, mas também com força suficiente para incutir medo.

“Vivemos nas sombras por muito tempo”, diz Percival. Há uma repressão por trás de Percival, ou talvez perseguição. O que for, ele enxerga Credence como um brinquedo.

Para tornar a perseguição mais pronunciada, Animais Fantásticos apresenta Obscurus, uma nuvem negra que se forma na alma de quem reprime seus poderes mágicos.

Credence tem uma Obscurus bem forte. Mas a repressão leva à irracionalidade. Sem um senso pleno de identidade, é difícil policiar suas respostas. Você mal sabe o que é certo e o que é errado.

Mais tarde, Credence percebe que estava sendo manipulado por Percival para transformar em realidade uma suposta profecia. Quando Credence não apresenta resultados, Percival o deixa de lado – o que faz o jovem se sentir ainda mais inútil.

Credence perde o controle de sua Obscurus, causando enorme confusão à sua volta. Ele é um adolescente com um senso imperfeito do mundo, afinal de contas, e essa é a única maneira de chamar a atenção das pessoas – pelo menos até Newt, nosso heroi, ajudá-lo a controlar seus nervos.

A mãe de Credence se torna uma das grandes vilãs do filme – e isso não é pouca coisa, considerando que o mago supremo do mal Gellert Grindenwald está à solta.

O pânico de Mary Lou em relação à sociedade dos magos vira uma sede insaciável de vingança. Os paralelos trumpianos com o medo dos Outros são quase óbvios (veja também racismo e islamofobia), especialmente considerando que J.K. Rowling concebeu a história muito antes do começo da campanha presidencial americana.

Mas não é exagero fazer esse tipo de comparação: em entrevista coletiva em Nova York, Rowling disse que Animais é parcialmente inspirado “na ascendência do populismo ao redor do mundo” – sem dúvidas o mesmo populismo que elegeu Trump e seu vice, Mike Pence.

Espera-se que essa seja apenas a primeira sugestão de um subtexto gay nos cinco filmes da série Animais Fantásticos.

A possibilidade de que ele venha a ser o texto principal parece provável. Rowling não confirma se veremos Dumbledore abertamente gay, mas já afirmou que o segundo filme da nova série vai mostrar seus anos de formação.

O cinema não precisa ser ativista, mas imagine o impacto de examinarmos a sexualidade de um heroi tão amado.

Blockbusters não separam espaço para personagens candidamente gays, mas, se o fizessem, talvez um dia não precisemos de narrativas sobre repressão que gera violência. (Até bem recentemente os filmes puniam os gays ou o mostravam como desajustados. Progresso!)

Essa perseguição é facilmente compreendida, assim como as respostas dos adultos que cercam Credence, incluindo a presidente (Carmen Ejogo) do Congresso Mágico dos Estados Unidos da América, que vê a Obscurus como uma ameaça.

Espectadores jovens e perspicazes podem reparar nisso ao assistir Animais Fantásticos, como jovens leitores processaram a gravidade dos livros de Harry Potter.

Com o risco de politizar demais um filme para crianças, nunca houve momento mais vital que agora para assistir a uma história sobre opressão social, quando o presidente eleito Trump e seus apoiadores intimidam a estabilidade daqueles que são diferentes.

Magos do mal podem representar perigo para trouxas e no-majs, mas a maioria destes últimos nem sequer se preocupam em entender os feiticeiros que maltratam.

O filme até mesmo faz a defesa da inclusão com Jacob Kowalski (Dan Fogler), o operário não-maj que se vê envolvido em eventos mágicos e descobre que não quer que sua memória seja apagada quando tudo terminar.

A vida é melhor quando você conhece melhor os outros. “Ah, eu quero ser um bruxo”, diz ele. Não deveria ser assim com todos nós?

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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