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Única prefeita em capitais diz que PMDB precisa ser menos machista

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TERESA SURITA
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Eleita para o quinto mandato com 79,39% dos votos para prefeitura de Boa Vista (RR), Teresa Surita (PMDB) acredita que para reduzir o machismo na político, é necessária uma mudança nos partidos, a fim de incentivar as candidaturas femininas.

Única mulher à frente de uma capital, a peemedebista é contra cotas para mulheres no Legislativo por achar a medida ineficaz, mas acha que os partidos devem incentivar a participação feminina na política. "O PMDB é um partido machista. É só você olhar para o partido e ver que ele tem esse posicionamento", afirma.

Com o município afetado pela crise financeira e grande número de refugiados venezuelanos, a prefeita aposta em um diálogo com o governo de Michel Temer para conseguir mais recursos e diz que não tem mais onde cortar gastos na cidade. "Aí eu vou diminuir os programas sociais, não vou mais conseguir construir creches para aumentar as vagas… só se for esse tipo de corte", diz.

Confira os principais trechos da entrevista com o HuffPost Brasil.

HuffPost: A senhora vai para o quinto mandato como prefeita de Boa Vista. Qual a prioridade da cidade neste momento?

Teresa Surita: Nós queremos trabalhar na questão da primeira infância, que hoje é um assunto bastante discutido como modelo de você ter uma geração muito melhor, baseado em estudos e pesquisas.

A questão do lixo, que a gente quer resolver a questão do aterro sanitário aqui, trabalhar com o lixo se possível gerando energia. Nós estamos estudando esse processo. Estou inaugurando uma comunidade indígena dia 18 de novembro com energia solar. A gente está penando em investir realmente na energia limpa, em função de a gente estar na Amazônia.

Estados e municípios têm sofrido com a falta de recursos nos últimos anos. Qual a perspectiva de diálogo com o governo de Michel Temer para conseguir recursos da União? Há alguma reunião marcada?

Existe uma expectativa grande dos estados e municípios em aumentar o repasse tanto do FPE (Fundo de Participação dos Estados) quanto do FPM (Fundo de Participação dos Municípios). Inclusive quando ele (Temer) tomou posse isso foi dito, de que ele ia rever essa distribuição.

Existe uma necessidade disso porque hoje os municípios são responsáveis por muitos problemas e a gente não recebe o que deveria para um serviço de qualidade. Por exemplo, com o SUS, você tem que injetar recursos próprios para ter qualidade. Fundeb é a mesma coisa. Essa é a expectativa de todos prefeitos e estados, mas não tem nenhuma sinalização de que isso vá acontecer.

Durante as negociações das dívidas dos estados, ministros do governo Temer, como o Henrique Meirelles, da Fazenda, propuseram que as unidades da Federação adotassem um teto de gastos semelhante ao da União. A senhora concorda com essa medida?

Pela minha experiência aqui, eu não tenho mais o que cortar. Nessa crise, nós já cortamos por três vezes o que era possível. Tentar hoje cortar alguma coisa é deixar de atender as pessoas porque a gente já chegou num limite. Aí eu vou diminuir os programas sociais, não vou mais conseguir construir creches para aumentar as vagas… só se for esse tipo de corte. (…) Agora tem outras prefeituras que às vezes não tem um planejamento e tem uma arrecadação muito grande. Boa Vista nós não temos arrecadação grande e dependemos 70% do FPM.

Boa Vista tem recebido um número expressivo de imigrantes, especialmente da Venezuela. Que medidas estão sendo adotadas de habitação, emprego, assistência jurídica e social?

Essa situação está grave. Eu procurei o governo federal. Houve uma reunião com o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil), Alexandre de Moraes (Justiça), Raul Jungmann (Defesa), Defesa Federal, por causa da divisa que nós temos com Venezuela. Veio para cá uma comissão para avaliar essa realidade e ficou em seguida de marcar uma outro encontro para ver como o governo federal pode ajudar (…) Isso é uma situação que está preocupando. Os números que nos chegam não batem. Já se fala em 50 mil venezuelanos ou mais de 30 mil porque é uma fronteira seca, então você não tem a condição de controlar com muito cuidado, como deveria. É uma fronteira que as pessoas podem entrar sem estar sendo legalizadas.

Na reforma política em discussão no Congresso, alguns deputados têm falado em tentar emplacar uma cota de mulheres para vagas no Legislativo e não só de candidaturas. A senhora apoia essa medida?

Não adianta ter a cota se você preenche apenas por preencher e porque está na Lei. Acho que é o que acontece hoje. Você exige x% de mulheres e essas mulheres vão ter suas candidaturas registradas, mas não vão fazer a campanha. Tanto que nesse ano 15 mil vereadoras não tiveram votos. A questão política com relação à mulher é ainda muito difícil de você trabalhar na questão de igualdade.

(...)

Acho que hoje a política não é atrativa para a mulher. Ela é um espaço machista. A mulher entra e é cobrada a ficar masculina, a ter gestos como hoje é visto na grande maioria dos homens. Você fala gritando, você se coloca de uma forma bruta. E eu acho que isso não tem feito com que as mulheres entrem na política, além da dificuldade de financiamento de campanha.

No Congresso é a mesma coisa. Os projetos que nos dão para relatar sempre tem o lado feminino. A economia, as grandes discussões sempre estão fechadas entre os homens. Existe um olhar que não é igual.

Uma das primeiras imagens que o governo de Michel Temer passou foi ser composto por homens com experiência na política, sem mulheres em destaque. Isso simboliza que ainda há muitos avanços a serem feitos nessa área?

Isso chamou atenção porque a presidente Dilma tinha um número grande de mulheres. Mas isso é o que acontece naturalmente. Chamou atenção por causa da mudança que ocorreu e aí você acaba discutindo o que enxerga. Mas hoje se você pegar o Congresso Nacional tem 10% de representação (feminina). Para prefeita de capital só eu ganhei eleição, mas em 2012 também, então não mudou a realidade.

E não é fácil fazer política nos dias de hoje. Acho que estamos passando por uma transformação na política e a gente ainda não terminou essa etapa. Muitos políticos hoje evitam dizer que são políticos.

Foi um discurso que teve sucesso nas eleições agora, com o João Doria (PSDB), em São Paulo, com o Alexandre Kalil (PHS), em Belo Horizonte...

E a gente não sabe né… é um tiro no escuro. Mas uma coisa que achei muito interessante é que em São Paulo e no Rio de Janeiro quem ganhou a eleição foram os votos nulos e brancos, então você não teve de fato uma escolha de um candidato em função de confiança.

Sobre as diferenças que a senhora citou de um homem e de uma mulher em fazer política, a senhora acredita que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff teve algum fator relacionado de machismo?

Acho que o impeachment não. Foi mais uma questão política porque ela conseguiu nos primeiros anos levar o mandato e teve momentos de aprovação onde chegou até a superar o Lula. Depois ela não deu conta de fazer o trabalho que tinha de fazer principalmente junto ao Congresso e mais a questão das pedaladas. Se ela tivesse levado o mandato com controle e diálogo não vejo por que ela não chegaria até o fim.

Para 2018, se o PMDB lançar um candidato a Presidência, o ideal seria uma chapa com uma mulher?

Não sou radical nesse sentido (...) Agora eu acho que o PMDB tem que passar por uma remodelação sim porque o PMDB é um partido machista. É só você olhar para o partido e ver que ele tem esse posicionamento. Eu acho que seria muito bacana o PMDB começar a levantar essa bandeira até de você ter uma igualdade de gêneros de uma forma mais aberta. Isso em todas as condições porque também tem a questão financeira.

Os partidos fazem uma espécie de sabotagem financeira às candidatas femininas?

É. Acaba que as mulheres vêm mesmo mais para cumprir a cota. Você tem que ter muito voto, muito poder para você falar alguma coisa e aquilo ser mantido. É uma questão ainda que quando uma mulher ocupa um espaço sempre antes de qualquer coisa está que ela é uma mulher. Isso não só na política. O mundo é machista.

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