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Artista plástica saudita luta para que seu país trate as mulheres como adultas

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ARTE
A lei saudita da guarda masculina impede as mulheres de viajar, casar-se ou sair da prisão sem a autorização de um homem. | MS SAFFAA
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As mulheres na Arábia Saudita estão intensificando uma campanha online contra as leis de guarda de seu país – um sistema repressor que impede mulheres de viajar ao exterior, casar-se ou sair da prisão sem permissão de um guardião homem.

As sauditas enfrentam dificuldades para realizar várias tarefas sem a autorização de seus guardiões, entre elas alugar apartamentos, estudar fora do país ou preencher documentos legais.

Um relatório em tom de denúncia da organização Human Rights Watch, divulgado em julho, descreveu o sistema de guarda como “o maior empecilho aos direitos das mulheres no país”. Normalmente o guardião da mulher é seu pai ou marido, mas o papel também pode ser exercido por um irmão ou filho.

Quase 15 mil pessoas já assinaram uma petição online iniciada em setembro, pedindo o fim das leis de guarda. Ativistas dos direitos das mulheres sauditas lançaram a hashtag #IAmMyOwnGuardian (#EuSouMinhaPrópriaGuardiã), que as pessoas estão usando para discutir e condenar as leis.

A Arábia Saudita tinha concordado em pôr fim ao sistema de guardiões homens em 2013, depois de a questão passar pelo crivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Mas, embora tenha implementado várias reformas recentemente, incluindo a concessão do direito de voto às mulheres, a autorização de mulheres se candidatarem a cargos municipais e facilidades para que ingressem no mercado de trabalho, o governo saudita ainda não cumpriu a promessa de abolir o próprio sistema de guarda.

Uma imagem que acabou por simbolizar a campanha traz uma mulher usando o shemag – o lenço de cabeça usado tradicionalmente pelos homens sauditas --, com uma faixa dizendo “eu sou minha própria guardiã” cobrindo a parte inferior de seu rosto.


A criadora da imagem é Ms Saffaa, artista plástica, pesquisadora e ativista cultural saudita (para proteger sua identidade, ela opta por não usar seu nome completo).

Seus trabalhos anteriores, expostos principalmente na Austrália, trataram da política de gênero e celebraram o ativismo feminino na Arábia Saudita. Suas obras mostrando mulheres usando o shemag, como o trabalho que hoje faz parte da campanha #IAmMyOwnGuardian, foram vistas originalmente em 2012 na Faculdade de Artes de Sydney.

Ms Saffaa falou ao WorldPost sobre seu trabalho, a campanha e suas esperanças para a Arábia Saudita.

A imagem que você criou para a campanha é surpreendente. Pode nos falar um pouco mais sobre a composição e o design?

Usei o shemagh, o lenço de cabeça masculino, como ícone cultural e símbolo de empoderamento. Quando eu era adolescente, usava thawb [o traje do tipo “vestido” usado pelos homens] e shemagh em casa, de brincadeira.

Usar roupas do sexo oposto pode ser uma brincadeira inocente – não há nada de subversivo nisso quando você o faz quando é criança ou adolescente.

Mas, quando você começa a crescer, e a diferença entre o que é feminino e o que é masculino fica muito clara e a sociedade lhe diz o que você deve ou não vestir, contestar tudo isso vira um gesto subversivo.

arte saudita

Muitas pessoas andam reagindo às minhas imagens, me dizendo que acham o shemag problemático. Porque elas acham que, se o shemag é símbolo de poder e pertence ao homem, isso não significa que o meu poder pertence a um homem? E eu digo: neste país, ele realmente pertence a um homem, sim. Então o que eu estou fazendo é pegando esse poder de volta e colocando-o na minha própria cabeça.

Estou feliz por meu trabalho ter gerado muita discussão sobre questões de gênero e a fluidez de gênero.

As pessoas não me entendem quando digo que o gênero é algo muito fluido: não é o que você veste, é o que você é.

Você disse recentemente a uma entrevistadora: “Minha arte é minha maneira de mostrar que eu existo”. Poderia explicar melhor?

Minha vida inteira vem sendo uma grande declaração política. Pelo simples fato de deixar a Arábia Saudita e conseguir uma bolsa para estudar arte – uma bolsa pela qual tive que lutar. E, quando eu estava vivendo na Austrália sem guardião e as autoridades sauditas me pediram repetidas vezes para comprovar que tinha um guardião presente, essa foi uma declaração de posição política, por si só.

Minha arte é uma maneira de afirmar que existo em um mundo que só quer me silenciar ou que, basicamente, quer apagar minha identidade.

Tenho que lutar para existir, tenho que lutar para erguer minha voz, tenho que lutar simplesmente para viver. Não posso existir sem lutar. Minha vida inteira vem sendo uma só grande luta.

As leis de guarda masculina são o símbolo fundamental da opressão.

Você sente que seu trabalho e os trabalhos que estão sendo feitos por outras artistas sauditas estão retomando a posse da representação das mulheres sauditas?

É exatamente por isso que faço a arte que faço. Se eu não me representar, se eu não afirmar que estou aqui, as pessoas sempre vão se achar no direito de me representar. Se eu não fizer arte sobre quem eu sou, pessoas farão arte sobre mim.

Chamo de oportunistas culturais as pessoas que fazem arte sobre sociedades às quais não pertencem e com as quais não têm vínculos. E as mulheres sauditas sempre foram o assunto do momento, desde o 11 de setembro, na realidade.

Alguns artistas sauditas, especialmente artistas mulheres, como Sarah Abu Abdallah ou Manal Al Dowayen, andam criando obras sobre temas como mulheres dirigindo carros ou mulheres e autorizações de viagem.

Você acha que os artistas exercem um papel em tentar ampliar os direitos das mulheres sauditas?

Para falar francamente, já vi muitos trabalhos vindos da Arábia Saudita que são feministas, de certo modo, mas acho que muitas artistas mulheres, com a exceção de duas, meio que pisam em ovo quando tratam dos temas. Elas não encaram essas questões de frente.

Acho que a arte delas é um pouco tímida. Ela trata de algumas questões feministas, como autorizações de viagem e o direito de dirigir carros, mas essas não são a questão principal.

O problema principal são as leis de guarda. Mesmo que os parlamentares nos autorizassem amanhã a dirigir, muitas mulheres não iriam dirigir porque têm guardiões homens irredutíveis. Então é preciso combater o problema maior, que são as leis de guarda masculina.

Acho que isso é parte da razão porque este movimento vem tendo tanto êxito, talvez mais que a campanha para que as mulheres possam dirigir. Porque as leis de guarda masculina são o símbolo fundamental da opressão. Esse é o problema real. É claro que a liberdade de dirigir e viajar é essencial para a liberdade da mulher, mas é um segundo passo.

No momento você está trabalhando sobre um mural em Melbourne ligado à campanha. Pode nos dizer mais sobre ele?

É um muro de 9 por 4,5 metros. Eu não sabia muito bem o que fazer com o muro; então o movimento aconteceu, todo o mundo começou a compartilhar meu trabalho e minhas coisas, e comecei a ter a visão.

Estou colaborando com outros artistas, mas também com algumas mulheres do movimento. Pedi a algumas mulheres que escrevam declarações em árabe, em sua própria letra, para que as possa imprimir e colar no muro.

Estou pegando muito do feedback e muitas das críticas ao meu uso do lenço de cabeça masculino e tentando digeri-las no trabalho. Vou usar poesia árabe também. Haverá muitas imagens, muitos retratos.

É interessante que você está usando meios diferentes para exprimir ideias semelhantes para esta campanha.

Sinto que é uma responsabilidade ética que me cabe. Não quero compartilhar apenas minha própria voz ou minha própria visão sobre o problema –isso seria muito egoísta. Nós, artistas, podemos ser muito egocêntricos, mas eu quero realmente incluir outras vozes dessas mulheres corajosas que tuitam a partir da Arábia Saudita. Sinceramente, não sei se eu teria feito tudo isso se estivesse vivendo na Arábia Saudita.

mural
Um mural de Ms Saffaa no Sydney College of the Arts.

Eu quis dar algo de volta a essas mulheres que instigaram o movimento. Quis festejar a coragem delas, iluminar um pouco o quão perigoso é o que elas estão fazendo e até que ponto é incrível e inspirador. É fácil para mim ficar sentada aqui, a milhares de quilômetros de distância da Arábia Saudita, e criticar o sistema. É o trabalho dessas mulheres que precisa ser destacado.

Quais são suas esperanças para a campanha?

Quero muito mesmo que sejam abolidas as leis de guarda masculina. Como leis e como práticas culturais, eu queria que os homens e as mulheres sauditas entendessem que não são leis islâmicas – são leis criadas pelo homem. A ativista dos direitos das mulheres sauditas Manal Al Sharif falou algo realmente interessante no Forum 2000 em Praga:

“Fomos ensinadas que deus nos deu um guardião. É preciso coragem para questionar isso.”

Esta entrevista foi editada para maior clareza.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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