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Giselle Itié: 'Fui estuprada pelo último homem que eu poderia imaginar'

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GISELLE ITI
Divulgação/Rede Globo
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"Quando tinha 17 anos, fui estuprada pelo último homem que eu poderia imaginar. Quando tinha 17 anos, o castelo caiu e fiquei soterrada."

A frase acima foi escrita pela atriz Giselle Itié.

Em um relato corajoso divulgado recentemente pelo site da revista Glamour, a atriz revela que foi estuprada aos 17 anos e que, assim como muitas outras mulheres, passou um longo período de tempo tentando apagar as marcas invisíveis da violência e do machismo.

"Era uma vez uma menina nascida em uma família amorosa, unida e machista: eu. Quando pequena, meus ídolos eram a Mafalda, a menina inconformada que levantou a bandeira da justiça, da paz e da igualdade, e o Hulk, o monstro humanoide que na sua essência queria paz e harmonia, ainda que de uma forma agressiva. Quanto mais bravo, mais forte ele ficava. Mas o tempo foi passando e, de Mafalda e Hulk, passei a gostar das princesas encantadas de Walt Disney, lindas com seus vestidos à espera do príncipe para o 'felizes para sempre'. Na minha época, não existia Frozen. Pena."

No texto ela traz lembranças de sua infância e sobre como buscava inspiração em personagens questionadores e fortes como Mafalda e Hulk na adolescência. Mas, ao mesmo tempo, revela que cresceu em um universo em que o machismo tomava conta.

"A educação machista foi me moldando: 'Menina de família não dança desse jeito!'; 'Feche as pernas, endireite as costas! Isso não é jeito de menina sentar'. Seguia essa educação, mas a questionava. Pedia para fazer teatro, mas ser atriz não era para uma mocinha de família como eu. Cheguei a morar no México com meus tios para estudar teatro sem que meus pais soubessem. Eu era uma princesa rebelde, mas minhas primas mexicanas me ensinavam a ser uma menina para casar: beijar o namorado só depois de sete meses juntos (oi?!). Imaginava como seria minha primeira vez: de branco, no colo do marido, o quarto cheio de flores e à luz de velas..."

Ela conta que, aos 17 anos deixou de lado o sonho de ser atriz e escolheu estudar jornalismo. Neste período, ela namorava um homem 15 anos mais velho.

"Meu príncipe era um cara extrovertido, romântico, galã de comerciais. [...] Até que um dia me chamou para viajar com a família dele. Disse que não aguentava mais ter um relacionamento com 'uma criança de 17 anos' e me pressionou 'amavelmente' para viajar com ele. Meus pais, infelizmente, me deixaram ir. Antes de viajar, minha mãe me orientou: 'Não coloque nenhuma gota de álcool na boca!'."

Segundo o relato da atriz, o estupro ocorreu após uma noite em que ela, o namorado e os amigos foram conhecer uma boate local. Giselle escreve que lembrou da fala de sua mãe citada acima e que escolheu pedir um suco de laranja a uma bebida. No dia seguinte, ela acordou nua, com marcas e dores no corpo e sem se lembrar do que tinha acontecido.

"Quando tinha 17 anos, fui estuprada pelo último homem que eu poderia imaginar. Quando tinha 17 anos, o castelo caiu e fiquei soterrada. X me desejou boa-noite e me chamou de Cinderela. [...] Sem saber o que fazer, me tranquei no banheiro. Senti nojo de mim, vergonha, medo. O que aconteceu? Notei meu corpo machucado, roxo, mordido. Não conseguia pensar nem chorar. Só queria o abraço da minha mãe."

Giselle finaliza o texto dizendo que hoje, aos 34 anos, tem consciência de que ser mulher é estar vulnerável a estas violências e pede que as mulheres se unam:

"Hoje, tenho consciência de todas as situações violentas pelas quais passei simplesmente por ser mulher. [...] Foi duro escrever este texto, mas isso me fortaleceu ainda mais. Meninas, precisamos nos unir! Nosso futuro agradece."

Você pode ler a carta completa clicando aqui.

Na luta por direitos

Infelizmente, o caso relatado pela atriz não é único e só engrossa uma estatística assustadora. A cada 11 minutos uma mulher é violentada no Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em 2015.

Em maio de 2016, uma menina de 16 anos foi estuprada coletivamente em uma comunidade do Rio de Janeiro. Em setembro, uma mulher de 34 anos foi estuprada por 10 homens também no Rio. Em novembro, na Argentina, o feminicídio de Lucía Pérez, de 16 anos, chocou o país. Episódios como estes fizeram com que Itié se engajasse na luta pelos direitos das mulheres.

"Em 2 meses, já estava no Comitê de Combate à Violência Contra a Mulher do GMdB (Grupo Mulheres do Brasil), cocriei o coletivo Hermanas, escrevi e dirigi vídeos para chamar as mulheres para o ato do dia 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher, no ano passado", relata à Glamour.

No dia 25 de novembro, o Dia Internacional pelo Combate da Não-Violência Contra a Mulher, a atriz compartilhou em sua conta no Instagram um depoimento emocionado. O vídeo integra a campanha "Nem Uma a Menos", que foi inspirada no movimento argentino #NiUnaMenos:


Outras mulheres também gravaram seus relatos para a campanha:


Machismo e violência contra a mulher no Brasil

Mais de cinco pessoas são estupradas por hora no Brasil, mostra o 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgado em 2016.

O País registrou, em 2015, 45.460 casos de estupro, sendo 24% deles nas capitais e no Distrito Federal. Apesar de o número representar uma retração de 4.978 casos em relação ao ano anterior, com queda de 9,9%, o FBSP mostrou que não é possível afirmar que realmente houve redução do número de estupros no Brasil, já que a subnotificação desse tipo de crime é extremamente alta.

O levantamento estima que devem ter ocorrido entre 129,9 mil e 454,6 mil estupros no Brasil em 2015. O número mínimo se baseia em estudos internacionais, como o National Crime Victimization Survey (NCVS), que apontam que apenas 35% das vítimas de estupro costumam prestar queixas.

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