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O dia em que contei ao meu filho gay que 49 pessoas morreram apenas por serem como ele

Publicado: Atualizado:
ME E FILHO
HINTERHAUS PRODUCTIONS VIA GETTY IMAGES
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O mundo estava ardendo e eu participava de um leilão. No dia 11 de junho, decidi me desligar cedo pois meu amigo Sam e eu iríamos a um leilão de manhã. Nenhum dos dois precisava de nada -- é só mais uma daquelas coisas que fazemos juntos.

Acordei uns 10 minutos antes de sair e no carro ouvimos o Acoustic Sunrise durante todo o trajeto. O dia estava quente. O verão tinha chegado ao meio-oeste dos Estados Unidos, maldito calendário. Uns quase 35 graus. Sem contar a sensação térmica.

Nós observávamos cristais de jarro e velhas garrafas de leite e sacudíamos a cabeça ao ver a quantidade de dinheiro que algumas pessoas pagava por uma peça dessas. Daí eu vi a minha grande descoberta do dia. Uma foice. Juro por tudo que é sagrado, uma foice bem-feita, com feixes e tudo mais. E eu a comprei por $1.

Fiquei tão empolgada. Tirei uma foto e peguei meu celular para entrar no Twitter pela primeira vez naquele dia. Como um soco que era calor desse dia, escrevi o seguinte "ALL THE DEATH COSPLAY" ("TODA A MORTE DISFARÇADA", em tradução literal) porque sou fascinada nos textos de Terry Pratchett e publiquei a foto de meu mais novo tesouro. E daí eu fui olhar o resto do meu feed de notícias. Acho que nunca antes deletei um tuíte com tamanha rapidez.

Devastador. 49 vidas perdidas de forma tão trágica, desnecessária e permanente. Tantas outras feridas.

E porque sou egoísta, meu primeiro pensamento foi "Como vou explicar isso ao meu filho?"

Quando cheguei em casa comecei realmente a ler nas redes sociais e todos os sites de notícias artigos sobre o massacre.

Não foi até que meu caçula, que acabou de terminar o prézinho disse, "Mãe, por que você está tão triste?", que percebi que tinha lágrimas rolando no meu rosto.

Eu enxuguei as lágrimas e disse, "Muitas pessoas morreram, meu anjo. E eles não tinham que ter morrido. É muito triste". Lendo os relatos, meus pensamentos se centravam em todas aquelas mães. Aquelas que nunca mais poderiam olhar nos olhos que antes brilhavam. Eu não consigo imaginar a dor.

Nem quero imaginar. Daí respirei fundo e disse, "Você poderia ir buscar seu irmão para mim?"

Meu bebezinho saiu correndo e gritando pelo seu irmão mais velho. E ele é bem grandinho, com apenas 11 anos, é quase da mesma altura que eu - e olha que eu não sou baixinha.

Eu conseguia ouvir seus grandes passos descendo as escadas enquanto eu me preparava.

"E aí, mãe". Eu já não sou mais a "mamãe" ou "mãezinha". Ele vai começar a sexta série ano que vem. Está velho demais para esses nomes.

"Ei, carinho. Você poderia vir aqui e sentar no meu colo?" Ele fez aquela cara. Acha que já está velho demais para isso também.

"Eu vou ficar de pé mesmo", disse e ficou parado atrás do sofá onde estava sentada e apoiou seu queixo em minha cabeça. Eu peguei suas mãos, segurando-as e olhando para ele. A posição era estranha e esquisita, mas eu precisava segurar suas mãos e olhar seu rosto.

"Você e o papai falaram sobre o que aconteceu em Orlando?"

Ele não me olhava. "É. Ele disse que muita gente morreu".

"Pois é, 49 pessoas morreram".

"É muita gente".

"Ele te explicou o motivo?"

"Não." Eu sabia que meu marido deixaria essa parte da conversa para mim. Não porque ele não consegue, mas porque meu filho mais velho e eu temos mais prática em conversas difíceis.

Meu filho, embora tenha apenas 11 anos, se identifica como gay. Ele teve desde a primeira série uma 'queda' pelo ator de TV que o fez "anunciar "sou gay". Sua vida tem muitos gays então ele não vê isso como grande coisa e é claramente uma criança gay.

Esse é apenas mais um fato sobre ele, como é ele ser destro e alto demais. Faz parte de quem ele é. Mas também causou algumas conversas difíceis. "Por que o Mitt Romney não gosta de mim?" "Por que não podemos deixar dinheiro para o Exército de Salvação?"

"Por que os outros pais ficam chateados que os seus filhos sejam gays?" Nós lidamos com todas elas e muitas outras. O mundo pode ser bem um lugar bem duro e terrível e é de certa forma terrivelmente especial ser uma mãe que precisa explicar tudo isso para seu filho.

Mas eu não posso ser o tipo de mãe que eu quero ser e não falar com ele sobre essas coisas. É sua vida e ele precisa saber disso. Então, nós falamos e observamos a mente de nosso filho tentando descobrir coisas que desconcertam os adultos.

E detesto cada minuto disso.

"O atirador foi a um lugar que estava cheio de gays e os atacou por serem gays".

Seus olhos cruzaram com os meus e ele fez a pergunta que eu sabia viria. A pergunta que eu sabia não ter uma boa resposta.

"Por que?"

"Às vezes as pessoas fazem coisas malucas, querido, coisas horríveis e malucas. Você sabia que algumas pessoas não gostam dos gays?"

Ele encolheu os ombros. Já passamos por isso antes. "Sei".

"Algumas pessoas não gostam dos gays porque a religião diz isso para eles. Outras não gostam porque as suas famílias dizem que são pessoas ruins".

Eu apertei suas mãos que ainda estavam entrelaçadas nas minhas, inclinando minha cabeça para trás do sofá e empurrando sua testa na minha direção. "Essas pessoas estão tão... tão erradas. Você sabe que eu acho que você todo é perfeito".

"Sei". E se afastou de mim. "Vou subir agora". E assim ele foi.

Foi difícil saber o que fazer. Será que deveria ir atrás dele e forçá-lo a ter uma conversa mais profunda comigo? Será que deveria deixar ele sozinho? Q

uanto deveria martelar na cabecinha de meu filho de 11 anos que "existem pessoas no mundo que querem ver você morto"?

Meu marido respondeu à pergunta para mim. "Eu vou lá sentar perto dele" disse ele, "em caso que ele queira conversar".

Um pouco mais tarde eu recebi uma mensagem de texto de meu amigo Sam. "Vigília. Te pego às 17h?"
Eu escrevi um "sim" rapidamente e subi chamando meu filho.

"Fala, mãe?"

"Vai ter uma vigília para as pessoas de Orlando. É quando as pessoas se juntam e acendem velas e se solidarizam com quem morreu. Quer ir comigo e o Sam?"

"Com outros gays?"

"Isso, e com pessoas que amam os gays também".

"Ok."

O caminho até o evento foi silencioso. Com carros por todos os lados, nós tivemos que andar alguns quarteirões até chegar ao local do encontro. Ele segurou minha mão enquanto andávamos e eventualmente conseguimos as velas e nos juntamos a vigília que se movimentava.

Havia centenas de pessoas e o sol rapidamente estava se pondo, mas não havia muitas crianças-- nós só vimos uma. Meu filho fica nervoso em multidões e foi algo que jamais fizemos antes. Com uma mão segurando a vela e movendo a aliança de um lado para outro com a ponta dos seus dedos.

"Há muita gente aqui". Esse foi seu único comentário.

A multidão era tão grande que nós não conseguíamos ouvir os alto-falantes. Nós pudemos cantar o hino nacional e participar na chamada e resposta, mas as nuances acabaram se perdendo.

Meu filho se concentrou em manter sua vela acesa e prestar atenção em quando ele deveria levantá-la sobre sua cabeça e o resto da multidão.

Quando ela queimou toda, ele pegou meu celular, virou o aplicativo de lanterna e o segurou no lugar da vela.
Quando as coisas ficaram mais tranquilas, eu me virei em sua direção e coloquei meus braços em seus ombros.

É tão estranho poder olhar para ele diretamente nos olhos. Tenho certeza que quando me acostumar, terei que olhar para cima. Daí eu perguntei o que pergunto a todos os meus filhos desde que são bebês, "Quem é o meu menino favorito?"

"Sou eu." Ele fez aquela cara. Está tão cansado desse jogo.

"E por quanto tempo você será meu favorito?"

"Para sempre".

"Isso aí. Mesmo quando você tiver 1,94 m, como seu pai, você sempre será meu menino favorito". Fiquei olhando para ele, buscando seus olhos se encontrarem com os meus.

"Você é perfeito, exatamente do jeito que você é. E todo mundo aqui também acha isso".

Espero muitas coisas de meus filhos. Até hoje, eu me vejo esperando que meu filho cresça e seja um homem que têm amigos que façam coisas como essa de levá-lo para boates.

Espero que ele faça coisas loucas lá e que sinta vergonha que eu descubra. Espero que ele se divirta.

Espero que ele tenha histórias. Espero que ele sobreviva.

Essa última é nova.

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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