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Eu sou stripper. E faço isso por todas as mulheres que odeiam seus corpos

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Não pareço Gisele Bündchen. Nem Heidi Klum. E Deus sabe que não tenho nada a ver com Salma Hayek.

Na verdade, sou o completo oposto dessas mulheres. Sou negra, sou uma mulher grande, voluptuosa, cheia de curvas e qualquer outra palavra ou expressão que signifique o oposto de magra.

Tenho cabelo natural (ou seja, não alisado) e um vão entre os dentes da frente. E é justamente por isso que faço strip. Bem, para ser exata faço burlescos, mas no fim das contas tiro a roupa, então dá na mesma.

Esta sou eu, gloriosamente interpretando meu papel de The BIG Bang McGillycuddy.

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Image Credits: Dalahawk & B.B. Rebel Photography

Não tenho nada do que você deveria considerar convencionalmente belo, sexy ou até mesmo socialmente aceitável. Não tenho aquele vãozinho entre as coxas. Na verdade, minhas coxas batem palmas quando estou dançando. Adoro. Meu corpo já vem com sua própria claque.

Tenho cicatrizes em forma de âncora que denunciam a cirurgia de redução de seios que fiz 11 anos atrás. Eu sei. A stripper que diminuiu os peitos. O que eu estava pensando? Minha bunda tem estrias. MUITAS estrias. Tenho furinho nas nádegas e gordura sobrando nas coxas. E mesmo assim sou stripper.

As pessoas me perguntam o tempo todo.

"Por que você faz isso? Você tem uma filha. Por que se colocar nessa posição?"

Faço strip porque sou mãe. Sou mãe de uma linda alma pequena que tem necessidades especiais. Uma perna é mais comprida que a outra. Um dos braços é subdesenvolvido e, portanto, mais fraco. Ela "fala" graças a um aparelho de comunicação baseado em toques, mas se Deus quiser logo ele será substituído por um sistema controlado pelo olhar.

De acordo com os padrões da sociedade, ela "não é normal". Seu corpo e seu meio de comunicação não são convencionais e, apesar de (por sorte) não vivermos mais numa época em que as pessoas me pediriam para colocá-la numa instituição para crianças deficientes porque ela seria considerada uma mancha na sociedade, há uns idiotas por aí que vão provocá-la em algum momento, só porque ela é diferente.

O mundo pode dizer que ela não deveria amar seu corpo, que ela não é linda como ela é, que ela não tem nada a dizer, que ela não deveria celebrar seu corpo ou que ela não pode ter as mesmas conquistas das "pessoas normais", só porque ela é diferente.

Como mãe dela, minha responsabilidade é repudiar tudo o que o mundo disser que está errado com minha filha. É ser um exemplo de tudo o que está certo comigo - incluindo MEU CORPO.

Superei o ódio ao meu corpo. Não tenho medo de mostrá-lo e de compartilhá-lo com o mundo, porque ele é lindo e merece adoração e celebração do jeito que ele é.

"Faço strip pelas mulheres que odeiam seus corpos. Faço strip pelas mulheres que acham que suas coxas e barrigas são grandes demais, que suas bundas são pequenas demais."

Se ela puder olhar para mim e enxergar um corpo que eu ainda amo, apesar do que o mundo diz, bem, talvez ela cresça achando que o corpo dela também é lindo e merecedor de celebração.

Talvez ela cresça adorando seu corpo. E talvez, talvez, ela não passe três décadas e meia se odiando. Talvez ela também encontre uma maneira de comunicar seu autoamor radical.

Eu também faço strip pelas mulheres. Sim. É isso mesmo. Faço strip pelas mulheres que odeiam seus corpos. Faço strip pelas mulheres que acham que suas coxas e barrigas são grandes demais, que suas bundas são pequenas demais.

Mulheres cujos seios são tão caídos que mais parecem meias, e mulheres cujos seios são tão grandes que elas poderiam amamentar todos os bebês que passam fome no mundo. Faço strip pelas mulheres cujos corpos foram arruinados por doenças, corpos marcados por cicatrizes. Pelas mulheres que contemplaram o bisturi inúmeras vezes em busca do "corpo perfeito".

Faço strip pelas mulheres que foram abusadas por amantes, maridos e esposas. Que ouviram que jamais encontrariam outro amor, que não eram nada sem o parceiro. Pelas mulheres que tiveram sua força roubada, que se sentem fracas e pequenas e vulneráveis.

Faço strip por todas elas com a esperança de que, se me virem no palco, sensualizando e me pavoneando, encontrem alguma inspiração, alguma pontada no coração, algum chacoalhão para buscar suas forças novamente.

Faço strip com a esperança de que elas olhem para mim e digam: "Essa daí tem uma bunda enooooooooooooorme - mas veja como ela é destemida!". Talvez uma voz na cabeça delas diga: "Quisera eu ser tão destemida".

E talvez depois disso essa voz fale cada vez mais alto até que o encanto se quebre, e elas encontrem a força para exibir sua beleza plena de novo, ou pela primeira vez.

Sei que todo mundo às vezes gosta de julgar. Sei que pelo menos UMA mulher lendo esse artigo vai dizer: "Tudo ótimo, senhora Adiba, mas você poderia passar essa mensagem para sua filha e para as mulheres do mundo sem tirar a roupa".

E para você, que preferiria que eu não tirasse a roupa, eu digo que a senhora está certa! Absolutamente, 100% certa. Poderia transmitir tudo isso - confiança, força, autoamor, empoderamento, aceitação do corpo - sem tirar a roupa. Como Jes Baker. Como Virgie Tovar. Louise Green, Amanda Trusty, Whitney Way Thore, Amy Pence-Brown, Sonya Renee Taylor - todas essas mulheres que o fazem diariamente.

E amo todas elas. Porque elas mudaram minha vida e me ajudaram a chegar aonde estou hoje. Mas não tenho tanto conhecimento quanto Jes (ainda) e não tenho anos de estudos sobre a cultura do regime, como Virgie.

Não sou atleta como Louise. Não passei na prova de sapateado, como Amanda. Posso dançar há anos, mas nunca dei aulas, então risco Whitney da lista.

Não tenho coragem para ficar vendada e de biquíni em público enquanto as pessoas vêm escrever coisas no meu corpo, porque TEM MUITA GENTE LOUCA, então Amy está fora. E Sonya, bem, tenho certeza que essa mulher já saiu forte e feroz do útero da mãe, e eu sou o que sou, tenho o que tenho.

E o que tenho é confiança e um nível de conforto com meu corpo que nunca tinha sentido antes. Tenho um amor que ninguém pode tirar de mim, a menos que eu o entregue - e sou muito pão-dura.

Tenho anos de auto-ódio e vício em comida e transtornos alimentares. Troquei tudo isso por um amor tão forte e tão feroz e tão pleno e tão rico que me dá vontade de chorar.

E é esse amor que estou passando à minha filha. E é esse amor que estou dando na boca de público, quando mostro minha bunda grande de fio dental.

É o amor que tenho e é a razão pela qual faço strip.

Artigo publicado originalmente no Ravishly.com.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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