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Eu ainda viverei os meus melhores dias

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Bodhi Hill via Getty Images
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Para ler ouvindo Guilherme Arantes (sei que parece demodê, mas juro que não é!)

Em minhas conversas com pessoas complexas compreendi, quase epifanicamente, que 2015 foi o ano da reviravolta. Um tempo de ruir. Eu desmoronei. Em 2015, muito antes do que eu imaginava, joguei minha maior aposta no abismo dos dias idos para, então, me arranjar um recomeço. Devo dizer: não foi nada fácil. Mas (e talvez essa seja a maior questão a ser equacionada ultimamente), eu sobrevivi.

O ano passado me conferiu tantas escoriações e tantos aprendizados que eu não sei nem por onde começar a enumerá-los. Foi ano de engolir o orgulho e pedir ajuda. Foi o ano de arrancar das vísceras a força necessária para a construção de meu próprio destino. Ano de queimar na fogueira da realidade meus trajes de heroína romântica. Ano de ficar sem emprego e sem grana.

Ano de contar com a caridade dos bons amigos que, compreensivamente, me deram pouso durante os cinco longos meses em que eu não tinha condições financeiras de alugar um canto para mim. Foi o tempo de chorar em silêncio no banho pra ver se conseguia evitar um pouco dar tanto a cara a tapa. Foi ano de decidir não ser mãe. Foi ano de decidir não ser esposa. Foi o ano de decidir que agora quem decidiria tudo "nessa porra" seria eu.

Foram alguns meses para que as coisas se ajeitassem. Para que o coração não me acordasse no meio da noite em sobressalto. Para que eu não precisasse de uns drinks antes de dormir. Para tirar a valeriana do criado mudo. E, com o avançar dos dias, estranhamente, eu comecei a desenvolver a certeza de que quando aquele momento quase fúnebre se fosse, eu começaria a vivenciar os melhores dias da minha vida.

Eu não sei de onde essa certeza veio, mas me lembro de estar esperando o metrô na estação Sumaré e, ao vê-lo aproximando-se, eu me disse: "assim que eu tiver o básico, eu viverei os meus melhores dias".

Eu não estava errada. O emprego veio depois de um tempo, o dinheiro voltou a cair na conta, os amigos, mais importantes e celebrados do que nunca, continuaram ao meu lado, bem como a família. A casa também chegou, onde eu arranjei tudo do meu jeito e me preparei para ser muito feliz. Um contentamento que não envolvia nada além de uma dúzia de pessoas sublimes e cotidianas, minha cachorra companheira, uns livros e um computador. Feliz como estou sendo, embora, a superação de tantos obstáculos tenha incutido em mim algo muito estranho que tenho pensado, talvez, chame maturidade.

Porque os fracassos fazem isso com a gente. Eles nos mostram que somos muito mais capazes do que imaginamos e, depois de superá-los, nos sentimos ainda mais livres que antes. Ficamos com a certeza de que a vida se impõe em qualquer situação e que, no final de tudo, muito mais vale sermos nós mesmos e tirarmos os sapatos para rodopiar no salão desse baile mambembe que atende por "vida".

Todo o drama dos meus 32 anos reverteu-se em aprendizados e certezas sobre o que eu sou e o que eu quero. Como, obviamente, nem tudo são flores, eu senti muita vergonha alheia ao repassar alguns de meus passos pelo mundo, porém, os arrependimentos foram argamassa imprescindível para a construção desse novo jeito de estar no mundo, que pode ser confundido com algo blasé, mas, que na realidade, é uma busca por conexões reais.

Nesse meu novo jeito de existir, eu posso mudar as coisas que vi que antes não funcionaram ou me desagradaram. Eu não me permito mais fazer quase nada do jeito que eu fazia antes, simplesmente porque sinto que é tempo de dar lugar ao novo - a esse inusitado que eu fui tantas vezes buscar em outras pessoas, lugares e mares, mas que nasce fértil e pleno dentro de todos nós.

E desses tantos aprendizados, talvez o maior tenha sido perceber, pela primeira vez na vida, a beleza das raízes. Pois, em nossos tempos líquidos, em que a permanência é vista como estagnação, é raro termos a coragem de querermos permanecer. Esse "estar parado" nos incomoda, pois se assemelha à falta de opção, ausência de emoção, coisa de gente sem graça. Porém, afundar seus pés em terra firme pode ser uma delícia, quando seu coração bombeia conforto dos pés a cabeça. Porque ninguém precisa se por a prova o tempo todo. Quando você encontra seu lugar, seu lar, sua trupe. Ninguém precisa vagar errante por aí para encontrar-se com o inusitado.

Eu, que tanto andei, que tanto mudei de profissão, de turma, de caso, de sonho, de gosto, de estilo, hoje, acho que estou autorizada a ousar dizer que permanecer pode ser uma grande aventura. Nessa existência volátil pós-moderna é preciso ter realmente coragem para arrumar as malas da permanência e aprontar o dia de não mais partir, afinal, construir o seu dia a dia com a solidez que só os novos sonhos desiludidos podem ter, pode ser tão mágico quanto fazer uma volta ao mundo.

Por isso, faço votos que os trinta e três anos que completo daqui a dez dias me permitam apenas fitar a estrada pela janela. Que eu possa alimentar minha cachorra, cuidar das minhas plantas, sorrir para aqueles que tanto e infinitamente amo. Afinal, como bem disse Panglos a Candinho (cito Voltaire de cabeça, talvez não seja exatamente assim): é preciso cultivar nosso jardim. O resto são árvores alheias.

LEIA MAIS:

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