Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Aina Cruz Headshot

Quando a falta de atenção transforma a vida em poesia

Publicado: Atualizado:
LIBERTY
Brand New Images via Getty Images
Imprimir

Assim começa a história de um almoço que nunca ficou pronto, posto que a cozinheira serviria batatas rústicas com maminha assada, mas a carne estava podre e as batatas... bem, os tubérculos, como já anunciamos, haviam desaparecido da geladeira, da fruteira, da dispensa, de todas as possíveis prateleiras. Não estavam em lugar algum. Possivelmente, as raízes nunca tivessem chegado àquela casa.

A moça, tímida, enfornou a carne mal cheirosa, picou cebolas roxas e substituiu a batata por arroz. Só que tinha pouco arroz. Uma quantidade que alimentaria suficientemente duas pessoas, porém nunca daria conta das quatro bocas que aguardavam na sala.

Calculou que o assado estaria pronto em meia hora, então, esse era o tempo que ela tinha para lidar com ela: com a sua eterna dificuldade em organizar o que quer que fosse.

A moça era eu. Agora sentada na sala, dividindo meu ouvido entre a conversa dos convidados e as minhas reminiscências de pequenos fracassos cotidianos.

Como que eu não consegui organizar a batata do almoço? Eu sou mestre em Tradução e Literatura Francesa pela Universidade de São Paulo - murmurei mentalmente como que me consolando.

Entretanto, o fato é que eu podia ter todos os títulos do mundo que, ainda assim, eu continuaria sendo essa pessoa que anuncia que as batatas sumiram, ou que deixa as roupas penduradas no varal secando por um mês, ou que esquece alguém esperando embaixo do prédio porque começou um filme que adora rever, ou vai para o aeroporto embarcar sem o passaporte, ou que passa a noite dormindo no capacho da entrada de casa por ter perdido a chave, ... ou... ou... ou. A lista das minhas trapalhadas não caberiam nem em um pergaminho.

Claro que pode parecer muito melodrama ficar se lamuriando por ser uma pessoa desligada, afinal de contas essas pessoas são divertidas, todo mundo morre de rir com esse tipo de história e nada disso tem grande impacto ou consequências na vida de ninguém. Certo? Errado.

Quem é desligado no nível que eu sou, sabe que a vida fica, às vezes, muito difícil, pois, para além das questões práticas com as quais você tem que lidar e da sensação de fracasso que advém após cada "mancada", ainda há algo muito mais duro: você machuca as pessoas.

Afinal, a maior parte delas não é assim e não consegue entender que você seja. O mundo vê esse tipo de atitude como desmazelo ou até mesmo egoísmo, quando, na verdade, sinceramente, não se trata disso.

Tenho 32 anos e cinco ex-namorados. Todos os cinco quase enlouqueceram comigo e eu posso jurar que eu super me importava com todos eles. Eu sempre esquecia o celular, ou esquecia de carregar o celular, ou esquecia a chave, ou esquecia o que havia sido combinado, de modo que eu estragava viagens, férias, dias, tardes e noites.

Não era por mal. Nunca foi. Mas estragava do mesmo jeito. A questão é que, independentemente do meu amor por quem quer que seja, eu talvez ame mais ainda as possibilidades, aquilo que ainda não foi concretizado e que paira, como folha em branco, na bruma do meu tempo não-cronológico.

Quando vou ao mercado para comprar frios e preparar uma lasanha, eu lembro que adoro ratatouille e, entre as cenouras e berinjelas, eu esqueço do presunto. Quando eu estou empolgada com a viagem que farei ao lado de quem amo, eu não consigo pensar no passaporte, só vejo a gente rindo pelas ruas. Quando vou buscar minha cachorra no aeroporto, tomada pela felicidade do reencontro, esqueço que ela é um bicho e que, portanto, não será tão simples pegar um taxi.

Não é por não ver o outro, ao contrário, é por vê-lo em demasia, com as minhas janelas da alma. Por sentir pulsar nossas possibilidades.

Por estar certa de que temos tanto a viver, sentir e provar juntos, que acabo seguindo inebriada desses sonhos, caminhando de olhos fechados, fotografando na memória aquela sensação de plenitude indescritível de estar aqui parada, viajando de mãos dadas, vendo a vida passar.

Porque no final das contas as batatas, o celular e o passaporte são só coisas que adquirem determinada importância à medida que podem propiciar esse elevado encontro. Mas são só coisas e, por serem coisas, eu não me importo com elas, pois estou sempre dando braçadas enérgicas nesse oceano do sentir.

Como eu disse, o almoço nunca ficou pronto e eu quis gritar ao meu convidado especial: "danem-se os tubérculos! Devoremos nossas possibilidades! Que essa fome que nos embrulha o estômago agora, seja o alimento do nosso por vir!".

Mas notei que seria a artimanha da retórica e preferi meu discurso-pensamento que poderia reverberar pelas ondas energéticas da minha sala, sendo, quem sabe, captado por seu cérebro subliminarmente:

"Não sejamos esses casais tributáveis e funcionários públicos que superlotam as linhas dos amores atuais. Sejamos sem ontem e nem amanhã, uma aventura a cada dobrar da esquina. Mandemos para longe de nós o esquema, o aceitável, o razoável. Livra-nos dos manuais de boa conduta e do status quo. Vem olhar comigo essa vida cheia de improviso, que irrita por vezes, sim, é verdade, mas que surpreende e diverte. Me deixa bagunçar teus dias e pedir desculpas, errar, acertar, errar de novo e tentar ser melhor e falhar de novo. Só porque sou humana. Só porque sou assim como sou há tanto tempo. Só pra não nos frustramos com as infinitas tentativas de sermos normais, posto que ninguém é. Afinal, quem sabe, pensando menos, a gente sente mais. Ama-me baixinho e sem prescrições. Toma aqui, acolhe minha loucura e me dá o que de pior você tiver também, que eu, por ser assim desatenta, sou capaz de transforma seus piores defeitos e suas piores tristezas em belezas".

LEIA MAIS:

- Uma carta aberta àquilo que apressadamente chamamos de 'amor'

- Alter ego bêbado: todo mundo tem o seu

Também no HuffPost Brasil:
Close
Lições de amor dos avós
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual