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Vem pra D.R, vem?

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Getty Images/iStockphoto
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Os primeiros instantes de qualquer romance são tão diferentes dos filmes hollywoodianos. Nunca há tanta entrega e nem tanta certeza.

A vida caminha mais como num filme francês: em geral acontece pouca coisa, insinua-se muito, explica-se pouco, há cenas bastante sensuais, fuma-se muito, bebe-se também e, normalmente, tudo isso vai ocorrendo em cenas com pouca iluminação. Há algo de penumbra, e tudo parece uma noite linda e louca e sem fim.

A história vai seguindo o seu curso, mas com tanta opacidade e mudez; torna-se difícil muitas vezes ler o que está sendo dito em cada silêncio, em cada atitude zen-budista de agir pela não ação, em cada frase genérica do tipo "você que sabe".

Desculpem-me senhores, eu também acho que explicação demais mata a arte, mas há momentos em que o claro não fica caro.

Em tempos de gente frouxa, sentimentos líquidos e relações rarefeitas, falar é algo essencial, já que nossas atitudes sempre levam o outro a entender que nada há ---- aliás, o mundo e a sociedade das gerações X, Y, Z fazem questão de deixar explícita a sua descartabilidade.

Contudo, mais uma vez, pondero: somos todos descartáveis assim mesmo ou só nos acostumamos a achar isso uns dos outros? Teríamos nós tornado-nos completamente avessos a nos relacionarmos ou tudo isso não passaria de novas convenções sociais as quais tentamos alucinadamente cumprir?

Acredito que, com tudo aquilo que a internet nos oferece de possibilidades e visão de mundo, tornou-se ainda mais perceptível, aos nossos sentidos, o fato de que a vida nos atende escassamente. Aprendemos essa lição nos deparando com o real todos os dias.

O cotidiano nos traz a rotina e a mesmice, com as quais temos que conviver da melhor forma possível, mas que se afasta eloquentemente daquilo que sonhamos enquanto não éramos adultos.

Talvez essa vida besta e comum passasse despercebida pelas gerações anteriores, pois o mundo deles tinha outra velocidade, menos possibilidade e, assim, todo mundo vivia mais o aqui e o agora.

Contudo, com essa profusão de caminhos, ninguém mais quer se aprofundar, vincular-se e enraizar-se. E o que parece-me realmente engraçado é que de tanto querermos ser moderninhos, quebrando tabus antigos e sendo completamente livres, mais temos nos amarrado visceralmente a outras convicções que também nos sequestraram as verdades e que andam nos aprisionando. Na realidade, diria que vivemos a ditadura do desapego.

A paixão anda cabisbaixa, rota e envergonhada pelas ruas. Porque todo ser humano de nossa geração (e das anteriores também, porque eles começaram a gostar dessa nova mania) que a cruza por aí faz que não a viu.

O cabra pode estar andando de mãos dadas com ela, pode estar dormindo com a paixão de conchinha toda noite, que a nega. Desmente-a e antes mesmo da meia noite nega-a ainda mais três vezes. Pois bem, hei-la aí: difamada, traída e crucificada, qual Jesus Cristo.

Agora, nós, pessoas complexas, seres açucarados e moles qual brigadeirão, seres alheios às regras e aos bons costumes, seres extremamente corporais e não corporativistas, saímos às ruas para nossa legítima manifestação.

A nossa causa não é "abaixo a ditadura do desapego", embora também levantemos essa bandeira.

Contudo, dessa vez, decidimos focar em objetivos mais tangíveis e palpáveis, pois aprendemos com o MPL como fazer bonito na hora de protestar. Ficamos fãs e aprendemos direitinho. Para reivindicar e sermos ouvidos, passemos das questões macro para as micro. Portanto, estamos hoje aqui reunidos pelo direito de fazer D.R.

Uma boa D.R é o caminho do céu. Uma D.R profícua é a trilha para paraíso. Ora, se não se pode mais sentir, que possamos ao menos falar.

O amor se constrói dessa argamassa abstrata e falha. A paixão chega pelos olhos, mas transforma-se pela boca. Boca que beija, que toca, que diz, que silencia, que elogia, que briga, que resmunga.

Acho mesmo que é pela boca que se chega ao coração do outro.

E, por favor, não me venha com a frase feita de que "uma atitude vale mais do que mil palavras".

Ok, tudo bem, geração JPEG, posso até concordar.

Mas vivemos tempos de gente frouxa, rapá, e atitude a gente não vê por aqui.

Conformemo-nos, portanto, com o acalanto das palavras porque elas têm capacidade pra muitas coisas. Palavras constroem mundos, palácios, pessoas, ideologias e, sim senhor, sentimentos.

Querido, não fique tímido, não desconverse, não saia andando, afinal, "eu preciso dar uma palavrinha com você".

A D.R é a tentativa atrapalhada de jogar suas vísceras na cara do outro e deixar o sangue que corre dentro das veias mais aparente. Todavia, D.R que é D.R sai do prumo, não vai para o rumo anteriormente premeditado. Inverte a circulação e parece que faz o coração trocar de lugar com o cérebro.

Normalmente, saímos de uma D.R mais confusos do que entramos.

Sim, caro leitor, sei que está pensando "claro que vira uma confusão, afinal não tem como prever o que o outro vai dizer". Concordo plenamente, mas se fosse apenas isso, tudo seria bem simples.

A questão toda da confusão da D.R é que nem ao menos nós, seres complexos e reflexivos, que queríamos muito pontuar três coisinhas para o outro, conseguimos fazê-lo. Porque já sabemos, entra-se numa D.R para comunicar ao outro que ele fez algo bastante pontual que te desagradou e termina-se exigindo explicações sobre as atitudes de sua mãe.

Com tantos poréns, você pode até me perguntar: mas, então, por que mesmo estamos defendendo essa caceta?!

Digo-lhes: pois a D.R humaniza a relação. Uma discussão de relacionamento incute dúvidas, "ponderamentos" e certezas em todos os envolvidos.

Cada um vê, claramente, as próprias limitações e tem um esboço melhor das representações do affair na vida de um e de outro.

É como se aquele mundo sonhado e inatingível, um pouco platônico, nos tocasse ainda fugidio, mas deixando grandes expectativas. A D.R funciona como um propulsor do amor. Qual as brigas, entretanto, a D.R não provoca raiva; pelo contrário, a D.R é a fortaleza da humildade. Ela indica o caminho e desenha as perspectivas.

Cada pessoa encara a D.R e seus efeitos sob uma ótica muito particular, porém acho que a maioria concorda que é melhor falar que calar. Sartre mesmo já dizia que calar dá doença no estômago.

A D.R, meus amigos, é a carta na manga com a qual os jogadores mais experientes e ousados costumam lançar-se ao all in! E, digo ainda que, no jogo da vida, eu só entro se for pra quebrar a banca!

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