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A luta global pela nutrição para todos

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ALBERT GONZALEZ FARRAN via Getty Images
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Os atletas que se apresentam nos Jogos Olímpicos Rio 2016 estão no auge de sua habilidade física. Como observador do último treinamento dos esportistas olímpicos britânicos há duas semanas, pude atestar que não há qualquer sinal de gordura neles. Fiquei tão inseguro que pensei em retomar minhas corridas.

O ápice olímpico é uma realidade distante para mais de 840 milhões de pessoas que não têm comida suficiente para se alimentar, para 159 milhões de crianças com estatura muito baixa para sua idade ou cronicamente malnutridas, e para 50 milhões de crianças com peso muito baixo para sua altura e que sofrem risco de morte. Ainda hoje, após grandes avanços na redução da pobreza, essa é a realidade global.

Ao mesmo tempo, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), um terço de toda a comida produzida no mundo - cerca de 1,3 bilhão de toneladas, é perdido ou desperdiçado nos sistemas de produção e consumo de alimentos. Milhões passam fome enquanto bilhões de toneladas de comida vão para o lixo. É mais um exemplo das acentuadas contradições do século 21.

O desperdício de alimentos é um desperdício financeiro, de recursos naturais e humanos. Há duas principais razões pelas quais desperdiçamos boa comida: nós compramos, cozinhamos e muitas vezes preparamos em excesso, e nem sempre utilizamos os alimentos a tempo; algo impensável para a minha avó, ao alimentar adolescentes em busca de comida em uma escola de Londres durante os bombardeios da Segunda Guerra.

Os recursos globais são escassos, mas perdemos a noção de escassez.

Foi assim que, durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Londres em 2012, o então primeiro-ministro britânico, David Cameron, convocou líderes de vários países, incluindo do Brasil, representado pelo agora presidente interino Michel Temer, para discutir o desafio da nutrição.

Essa reunião culminou em uma cúpula de alto nível em Londres, em 2013, que priorizou a subnutrição e obteve a garantia de US$ 2,9 bilhões adicionais para enfrentar a subnutrição, e o compromisso de reduzir em 20 milhões o número de crianças com baixo peso em todo o mundo até 2020.

O Brasil agora assumiu a tocha. Em 4 de agosto, às vésperas dos Jogos Olímpicos, o governo brasileiro sediou a segunda edição da cúpula Nutrição para o Crescimento (N4G), em colaboração com os governos do Reino Unido e Japão, que por sua vez irá sediar um terceiro evento durante as Olimpíadas de Tóquio em 2020.

O N4G Rio abordou tanto os problemas da subnutrição quanto da obesidade, reunindo governos, sociedade civil, fundações, empresas, atletas e chefs para discutir o progresso alcançado e as soluções que funcionam para resolver os muitos paradoxos da alimentação, incluindo a fome e o desperdício de alimentos .

Para encerrar o evento, David Hertz, o inspirador chef brasileiro e fundador da Gastromotiva, uma iniciativa social gastronômica brasileira, preparou refeições a partir de alimentos descartados da Vila Olímpica. A mensagem da Gastromotiva é poderosa: é possível preparar pratos saborosos, nutritivos e seguros com alimentos que teriam o lixo como destino.

Os números acima são alarmantes, mas há uma crescente consciência sobre o problema do desperdício de alimentos - por meio do lançamento de campanhas como a "Save Food Brasil" ou "Pensar. Comer. Conservar" no Reino Unido e mediante o trabalho de chefs como David Hertz no Brasil e Jamie Oliver no Reino Unido, bem como pela "gastronomia social", um movimento de chefs que visa a promover a saúde, o bem-estar e a responsabilidade social.

Há ações que podemos realizar em casa para usar o alimento de forma mais eficiente; e medidas que podemos incentivar os grandes compradores de alimentos a adotar, por exemplo, seguindo o modelo de alguns supermercados que buscam transferir a comida excedente àqueles que dela carecem.

Vivemos em um mundo em que convivem abundância, escassez e desperdício de alimentos. Essa é uma contradição do século 21 que temos o poder de mudar. A atenção no Rio está, com razão, voltada aos dotes esportivos de milhares de atletas olímpicos em sua melhor forma física. Não vamos esquecer os milhões que vivem em outra realidade.

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