Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Alexandre Andrada Headshot

A estranha autocrítica do FMI e a 'agenda neoliberal'

Publicado: Atualizado:
CHRISTINE LAGARDE
GEORG HOCHMUTH via Getty Images
Imprimir

O Fundo Monetário Internacional (FMI) é um organismo criado a partir do acordo de Bretton Woods, de 1944. A ideia é que ele servisse como um prestador de socorro aos países que atravessassem dificuldades de balanço de pagamentos. O que significa, grosso modo, aqueles momentos em que um país qualquer não tem dólares suficientes para honrar seus compromissos externos (seja compra de bens e serviços, seja o pagamento de juros da dívida, seja para a manutenção de uma paridade cambial).

O FMI emprestaria dinheiro a esses países, de modo a aliviar as pressões de curto prazo. Sendo também uma espécie de avalista fundamental para os emprestadores privados.

Mas a relação credor-devedor não é apenas uma questão contábil, refletindo também uma relação de poder.

Os países mais sujeitos a esse tipo de crise de balanço de pagamentos são exatamente os subdesenvolvidos (ou "em desenvolvimento" como se diz hoje em dia). Tem-se então de um lado um país pobre de joelhos e com o pires na mão, de outro, uma entidade chefiada por "liberais imperialistas", sediados em Washington, o coração da besta-fera do capitalismo.

Por isso mesmo o FMI ficou no imaginário político da periferia como a ponta-de-lança do imperialismo americano.

O Fundo emprestava dinheiro, mas exigia uma série de contrapartidas. As quais eram sempre iguais: redução de gastos, aumento da arrecadação, maior abertura da economia, fim/redução de intervenções no livre funcionamento do mercado e outras coisas do gênero.

Essas contrapartidas, a partir dos anos 1990, ficaram associadas ao chamado Consenso de Washington, que na definição de seu criador - John Williamson - era o conjunto de medidas que ao final dos anos 1980 eram bem-vistas por órgãos como FMI, Banco Mundial e o Tesouro Americano, e que deveriam ser postas em prática na América Latina. São algumas delas:

(1) Disciplina fiscal
(2) Direcionamento do gasto público para setores como educação, saúde, educação básica e infraestrutura
(3) Abertura Comercial
(4) Liberalização do fluxo de capitais
(5) Privatização
(6) Garantias ao direito de propriedade
(7) Redução das barreiras de entrada e saída das atividades econômicas (para o capital e o trabalho)

O "Consenso de Washington", desde então, é entendido como o mais perfeito resumo do credo "neoliberal".

O termo "neoliberal", aliás, faz parte do léxico quase que exclusivamente dos não-liberais.

Mas ele não significa nada além do conjunto de autores e de ideias que surgem na grande cheia do pensamento liberal, ocorrida a partir dos anos 1970/1980.

No campo da teoria macroeconômica, por exemplo, esse período marca a decadência do velho keynesianismo que reinara absoluto desde o após-guerra, e a emergência jovens autores que se viam como discípulos de Milton Friedman e Friedrich Hayek, e antípodas de qualquer coisa que cheirasse a keynesianismo. Robert Lucas, um dos líderes dessa geração, apresentou em 1980 um artigo chamado The death of Keynesian economics.

No campo da prática política, esse período marca a emergência dos governos de Ronald Reagan nos EUA (1981-1989) e Margareth Thatcher no Reino Unido (1979-1990).

Na América Latina as políticas neoliberais ganharam forças a partir do início dos anos 1990.

Àquela época esse "credo" se apresentava como o mais científico e robustos dos resultados, obtidos nos melhores centros de estudo da Economia. Para outros, aquilo tudo era apenas lixo ideológico disfarçado de Ciência. Talvez a verdade esteja no meio desse caminho.

Para os defensores da proposta de liberalização financeira, os países pobres deveriam capturar poupança externa, de modo a financiar seu desenvolvimento. Para os críticos, a entrada de capitais especulativos seria fonte apenas de perturbação e crises.

Os anos 1990 e 2000 ensinaram na prática, por exemplo, que a liberalização da conta de capital - isto é, da entrada e saída de aplicações financeiras no país - poderia ter resultados catastróficos.

E isso foi percebido, estudado e analisado por economistas do mainstream.

Em 2002 o prêmio Nobel de Economia J. Stiglitz lançou um livro intitulado Globalization and its discontents, com duras críticas à atuação do Fundo, especialmente durante a crise asiática de 1997.

"Austeridade fiscal exagerada, sob as circunstâncias erradas, pode induzir recessões; e altas taxas de juros podem impedir atividades empresariais. O FMI buscou de maneira vigorosa a privatização e a liberalização, a um ritmo e de um modo que frequentemente impôs custos muito reais aos países mal equipados para serem expostos a ele". (Tradução própria)

O FMI também aplaudia as políticas argentinas que desembocaram na catástrofe da crise de 2001. Outro erro grosseiro.

Em 2008 a economia americana também mostrou que a desregulação do sistema financeiro pode provocar um apocalipse também nos países centrais.

Todos esses fatos - e tantas outras crises - levaram as críticas à agenda "neoliberal" a adentrar o primeiro escalão do FMI.

Em 2013, Olivier Blanchard, então economista-chefe do Fundo, ao comentar uma Conferência organizada por aquele organismo, afirmava:

Eu fiquei impressionado com a apresentação de Helene Rey, na qual ela mostra o quão surpreendentemente escassa é a evidência econométrica sobre os benefícios dos fluxos de capitais (portifolio flows). Eu também fiquei impressionado com a questão retórica de Stanley Fischer: qual a utilidade dos influxos de capitais de curto prazo? (Tradução própria)

Em fevereiro deste ano, Christine Lagarde, a figura de frente do FMI, afirmou que "há um crescente reconhecimento de que a natureza de 'curto-prazista' e inerentemente volátil dos fluxos globais de capital são algo problemático".

O texto Neoliberalism: Oversold? de Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani e Davide Furceri é apenas mais um tijolo na catedral da mea culpa dos economistas no que diz respeito à defesa cega da austeridade fiscal e da abertura financeira.

O texto está tendo uma grande repercussão na imprensa pelo mundo. Em sua essência, o texto diz apenas que ajustes fiscais abruptos e uma liberalização completa da conta capital podem ser contraproducentes. Isso, como vimos, não chega a ser grande novidade. Inclusive já tendo saído de outros economistas do Fundo.

A expectativa agora é saber como o FMI irá se portar e o que irá sugerir para os países em dificuldades, especialmente os subdesenvolvidos. Será que essa crítica se materializará em políticas que exijam menores sacrifícios dos países em dificuldades? A ver.

LEIA MAIS:

- Venezuela: A crônica de mais um fracasso do socialismo

- O governo de Michel Temer começa mal (e ainda pode piorar)

Também no HuffPost Brasil:

Close
10 séries de TV para quem gosta de política
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual