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As causas da queda de Dilma

Publicado: Atualizado:
DILMA ROUSSEFF
Ueslei Marcelino / Reuters
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Quarta-feira, 11 de maio de 2016 foi, provavelmente, o último dia de Dilma Rousseff como Presidente da República.

As razões de sua queda se sustentam em três pilares: um econômico, um policial e outro político.

O fator econômico, me parece, é o que está no cerne da questão.

Pouco importa se você é partidário da tese do "golpe" ou é daqueles que realmente acham que "pedalada" é razão suficiente para o afastamento de um presidente. O colapso econômico é a linha que amarra a narrativa da queda de Dilma.

Dilma não teria sido afastada por conta de "pedaladas" caso o País estivesse caminhando bem.

A preocupação fundamental dos agentes econômicos e dos atores políticos é com o estômago e o bolso.

Ditadores odiosos são louvados enquanto há expansão econômica, democratas virtuosos são achincalhados quando há recessões prolongadas. Essa é a regra (que admite exceções).

Figueiredo saiu do Palácio do Planalto - metaforicamente falando - pelas portas dos fundos, graças a terrível crise que se instalou no país, especialmente a partir de 1982.

Sarney e Collor tiveram destino similar.

Itamar, longe de ter sido uma unanimidade, foi capaz de sair com a cabeça em pé, graças ao Plano Real.

Plano este, aliás, que garantiu a vitória de FHC no primeiro turno das eleições de 1994 e 1998. Evento nunca mais repetido em nossa história.

FHC - hoje tratado como estadista e oráculo pela imprensa - também saiu pelas portas dos fundos em 2002.

A hiperinflação àquela altura era uma vaga lembrança na mente dos brasileiros e evocar o sucesso do Plano Real já não garantia votos suficientes.

O desempenho econômico ridículo de seu segundo governo, o apagão elétrico, as humilhações diante do FMI, etc., tudo isso foi parte essencial do desejo de mudança que conquistou os brasileiros e levou Lula, finalmente, ao Planalto.

Lula - hoje tratado como pária pela imprensa e sob a ameaça concreta de prisão - saiu do poder como um dos mais populares presidentes de nossa história.

A razão fundamental é que enquanto na Era FHC o crescimento médio do PIB foi de 2,3% a.a., na Era Lula essa taxa saltou para 4% a.a.

Com Dilma Rousseff, entre 2011 e 2015, a taxa média de crescimento do PIB despencou para 1,02%. Se o "crescimento" esse ano for como o previsto pelo FMI e pelo Relatório Focus do Banco Central (isto é, algo em torno de -3,8%) essa taxa desaba para 0,22%.

Esse número é ainda pior do que parece.

Se a população brasileira não estivesse crescendo, uma evolução do PIB da ordem de 0,22% significaria que estávamos caminhando em marcha lentíssima. Mas com a população crescendo acima desse valor, o que acontece é que estamos caminhando para trás.

É importante destacar esse ponto: o Brasil entregue por Dilma no dia 12 de maio de 2016 é um país mais pobre que aquele recebido por ela em 1º de janeiro de 2011.

No cerne desse fracasso econômico há uma série de fatores.

Os governistas culparam a desaceleração da economia chinesa e a queda no preço das commodities.

Os não-governistas, por outro lado, destacaram os erros cometidos nos campos da política fiscal (como a contabilidade criativa e o fim do superávit primário), na política monetária (a tenebrosa gestão Tombini no Banco Central que simplesmente abandonou a meta de inflação de 4,5%), da política de crédito (com a medonha política de Luciano Coutinho à frente do BNDES de campeões nacionais) e a política de preços públicos (o congelamento do preço da gasolina para segurar a inflação e a redução insustentável da tarifa elétrica).

O fator policial da queda de Dilma também teve claros impactos econômicos.

Falo aqui da Operação Lava-Jato que deixou a Petrobras e as empreiteiras ajoelhadas no milho.

O setor de petróleo reponde por 13% do nosso PIB. Algumas consultorias chegaram a afirmar que da queda de 3,8% do PIB no ano passado, algo em torno de 2% se deveu aos efeitos da crise no setor.

Esses fatores econômicos e policiais ensejaram os fatores políticos.

De um lado, a crise levou à brutal queda de popularidade de Dilma, cujo apoio ronda atualmente os 10% da população.

Essa queda faz com que muitos dos adesistas de ocasião se afastassem do governo.

A queda na arrecadação e a crise financeira da União dificultaram a compra - legal - de apoio político. Os estados estão em situação calamitosa, vide o caso do Rio de Janeiro, e a União pouco pode oferecer sob a forma de ajuda.

Há outras variáveis residuais que precisam se levar em conta.

A personalidade notadamente difícil de Dilma no trato com subalternos (inclusive seus Ministros) e deputados tem também peso nesse processo. Os que ela ontem pisou, hoje cravam punhais em suas costas com um riso nos lábios.

Sua relativa falta de experiência política e, portanto, de intimidade com as regras não escritas do sistema político do país, também ajuda explicar o derretimento do seu apoio entre Congressistas.

Como podem ex-Ministros votarem sem pudores pelo afastamento da Presidente? Egos feridos, muito provavelmente.

A existência de um vice-presidente conspirador também terá que ser lembrada pela História.

Em todo caso, o fato é que Dilma caiu e que Temer se tornou Presidente.

Se o Ministério de Temer for aquele anunciado no Jornal Nacional -que parecia a escalação do time de futebol da Papuda - teremos um governo que merece nosso alerta constante.

Tempos complexos virão.

LEIA MAIS:

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