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É 'o brasileiro' um grande babaca?

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"O brasileiro" é uma criatura mitológica e dialética.

Por um lado, é um analista minucioso e um divulgador incansável de suas próprias mazelas.

- Isso só acontece no Brasil!

- Só podia ser brasileiro!

- É por isso que o Brasil não vai para frente!

Diz "o brasileiro" em alto volume, esperando a aprovação dos que estão ao seu redor.

Por outro lado, contraditoriamente, ele é também um patriota incansável.

Pobre do gringo que - sem a explícita anuência do nativo - começar a falar mal de nosso país.

É aí que "o brasileiro" sobe nas havaianas (as únicas que não deformam, não têm cheiro e não soltam as tiras) e começa o apavoro.

torcedor

Reuters/Bruno Kelly

Antes das Olimpíadas eu estava no estágio (1) da bipolaridade nacional.

"País arrebentado, sem esgoto, com gente morrendo nas filas dos hospitais, com uma criminalidade digna de um país de guerra, e o governo vai e gasta dinheiro para fazer um diabo de uma Olimpíada! Só no Brasil acontece isso; por isso que o Brasil não vai pra frente!"

Pensava eu, ao assistir à enfadonha contagem regressiva para os jogos feita pelo Jornal Nacional.

Mas eis que começaram os jogos, as notícias e análises sobre nosso país por parte de sites estrangeiros (e pior, os comentários imbecis dos imbecis comentaristas que tanto gostam de se manifestar na rede mundial de computadores, como diz William Bonner).

E, infelizmente, a maior parte dessas reportagens (e comentários) não versa sobre as virtudes do "florão da América".

Atingi, então, a negação da negação do brasileiro: o patriotismo bateu forte na caixa dos meus peitos. Pinches gringos hijos de ...

Mas meu lado sociólogo-de-boteco me fez respirar fundo e elaborar a questão a ser cientificamente investigada: é "o brasileiro" realmente um babaca?

Há evidências que jogam contra nós outros.

Há muitos que se orgulham de ser um Hue BR, cujo mote é the zoeira never ends.

O termo surgiu no ambiente dos jogos online, no qual os brasileiros eram identificados pela risada "huehuehue" e pelo comportamento altamente desagradável com os demais. Segundo reportagem da época:

"Mesquinho, egoísta, preguiçoso, bully e, principalmente, ignorante: estas são características essenciais para alguém se enquadrar no perfil do jogador 'HUE HUE BR'"

Essa lista de características torna qualquer ser humano um babaca.

Em 2007, durante a abertura dos Jogos Pan-americanos, Mario Vázquez Raña, então dirigente do COI, fazia um discurso em espanhol. Cada vez que o cidadão falava a palavra hoy ("hoje" em sua língua materna), o Maracanã em uníssono respondia: "oooooi!"

Pode ter sido engraçado para alguns; para outros, apenas babaquice. "Quantos anos essas pessoas têm?", alguém deve ter dito.

Outra crítica constante ao "brasileiro" é o hábito deste de vaiar os atletas concorrentes.

Mal sabem os gringos que o buraco é ainda mais embaixo: o "brasileiro" vaia qualquer coisa. Característica esta observada pelo maior analista de nosso povo em todo o século 20, o Prof. Dr. Nelson Rodrigues, o qual teria notado que "no Maracanã se vaia até minuto de silêncio".

Lula foi vaiado na abertura do Pan em 2007.

Na abertura da Copa das Confederações de 2013, quando Joseph Blatter anunciou "Sua Excelência a presidente Dilma Rousseff" o som das vaias foi ensurdecedor. O suíço - de reputação duvidosa - tomou a palavra e perguntou: "amigos do futebol, onde está o respeito e o fair-play?".

Na Copa do Mundo de 2014, também ficou famoso o coro "Ei, Dilma, vai tomar...".

Quem se aproveita do anonimato da multidão para mandar uma senhora sexagenária tomar naquele lugar é decididamente um babaca.

Michel Temer - o interino - também foi vaiado nas aberturas dos Jogos Olímpicos.

Vaiar um presidente da República pode ser divertido para uns, pode ser um ato de rebeldia para outros, mas para alguns - especialmente os que estão longe desses conflitos políticos comezinhos - pode ser uma grande falta de educação e civilidade.

Na competição de salto com vara, o público brasileiro foi além de aplaudir e incentivar o atleta local; decidiu vaiar o francês que o desafiava na disputa pela medalha de ouro. O atleta estrangeiro chegou mesmo a fazer um sinal de negativo antes de dar seu último salto, reprovando a atitude do público brasileiro.

Depois o rapaz foi vaiado também no pódio, indo às lágrimas. Uma cena desagradabilíssima.

E os gringos não perdoaram.

O jornal alemão Die Welt publicou uma reportagem intitulada A ignorância dos brasileiros é insuportável.

O jornal francês Le Monde publicou outro texto intitulado: Os 'insultos' e a 'maldade' do público brasileiro.

O americano New York Times nos presentou com um texto intitulado: Fãs brasileiros rudes reescrevem as regras da etiqueta olímpica.

Valei-me minha Nossa Senhora do Complexo de Vira-Latas!

Lambendo minhas feridas, pensei: talvez não sejamos exatamente babacas... Mas nosso desapego às formalidades, rituais e regras; nosso excesso de barulho; nosso orgulho de sermos os "mais zueiros" dos "zueiros", entre outras bossas, talvez sejam idiossincrasias - ou mesmo qualidades - que rapidamente debandam para o defeito.

Como aquele camarada tirador de sarro que sempre alegra o ambiente, mas depois de algumas horas começa a enfadar a todos.

A sensação é que os países desenvolvidos são trintões em uma festa recheada de adolescentes. E os adolescentes somos nós, "os brasileiros".

A questão é saber se eles é que são uma gentinha sorumbática, ou se nós é quem somos mesmo uns sem-noção. Ou os dois.

LEIA MAIS:

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