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O Golpe e a Esquerda Frappuccino

Publicado: Atualizado:
FORA TEMER STARBUCKS
Reprodução/Facebook
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O atual marasmo das ruas diante do provável afastamento definitivo de Dilma Rousseff serve como prova irrefutável da farsa em torno de mitologias caras a ambos os lados do espectro político.

Primeiro Mito: Mostra que a suposta conspiração bolivariana que estava prestes a dominar cada centímetro do território físico, moral e institucional do país é uma miragem (ou um espantalho racionalmente construído).

A conspiração gramcista do Foro de São Paulo é uma invenção de Olavo de Carvalho para vender livros para a classe média semialfabetizada.

Em 1964 foi o mesmo papo. Em 1937, idem.

E em todas essas ocasiões o que se viu foi que a "ameaça comunista" eram um gigantesco tigre de papel, o qual as elites selam e cavalgam rumo a seus projetos anti ou impopulares. (Ou, na mente deles, "os projetos corretos para o futuro do Brasil, mas que o 'povão' é burro demais para entender e escolher através do voto direto")

Além disso, ficou claro e evidente que aquele pessoal diferenciado com camisa da CBF tem a mesma preocupação com a corrupção que o Estado Islâmico tem com os direitos humanos.

Na verdade, eles aceitam qualquer ladrão no governo. Desde que o ladrão não seja petista, entenda de concordância verbal e nominal e que seja temente ao Deus (o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, por supuesto....)

O combate à corrupção foi uma das bandeiras dos golpistas de 1964. Uma evidência anedótica: a ditadura terminou apontando Paulo Maluf como seu candidato para as eleições indiretas para presidente da República em 1985. Esse mesmo Paulo Maluf procurado pela Interpol...

Segundo Mito: A inércia das esquerdas mostra que o palavreado em torno de "golpe"; "golpistas não passarão"; "não reconheço governo golpista", é tudo farsa de esquerdinha. Conversa-mole de internautas recém saídos da adolescência (física e/ou psicológica) para fazer textão no Facebook.

A atual inércia patética da esquerda - cujo mais novo símbolo é a revolta dos Frappuccinos do Starbucks, aparentemente iniciada pelos leite-com-pera-chapa-branca - só pode significar duas coisas: (i) a esquerda brasileira não tem a força que imaginava ter e, por isso, é incapaz de iniciar uma "campanha pela legalidade" através de manifestações constantes, ou; (ii) as esquerdas não estão dispostas a gastar sola de sapato para garantir o mandato de Dilma.

Valendo a hipótese (ii), isso significa que: (a) também os petistas concordam que Dilma é uma inepta, ou; (b) ainda que admirem Dilma, os petistas perceberam que a continuidade do seu governo apenas prejudicaria ainda mais suas chances de retorno ao poder em 2018.

Confesso que não sei a resposta, mas estou inclinado a aceitar que ela seja dada por (ii) e (b).

Onde está o exército de Lula, Boulos e Stédile? Onde estão as passeatas e piquetes da CUT, UNE, MST, MTST, PQP?

Aliás, onde estão Lula e Dilma? Onde está a "caravana da cidadania" versão 2.0 que iria percorrer o Brasil para denunciar o golpe e mobilizar as massas?

Eu era um desses otários que tinham certeza que no caso de um afastamento de Dilma o Brasil viraria um barril de pólvora. Haveria greves generalizadas, protestos, manifestações, coquetéis molotov e balas de borracha cruzando os ares (sob a narração perpétua de Datena).

Qual o quê!

Se em 1964 - reza a lenda - o golpe foi tão tranquilo que os tanques do exército paravam no sinal vermelho; esse suposto golpe de 2016 nem precisou encher os tanques dos tanques. Bastou estourar um rojão que a esquerda toda correu para debaixo da cama. Uma vergonha absoluta.

Pior que a derrota e a cobardia. Pior que a cobardia é a inércia. Pior que a inércia é o ridículo.

Em suma, não me venha com esse papo golpe pra cima de moi, se você não está fazendo nada além de pedir Frappuccino sob a alcunha de "Fora Temer".

Faça-me o favor.

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