Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Alexandre Andrada Headshot

O governo de Michel Temer começa mal (e ainda pode piorar)

Publicado: Atualizado:
MICHEL TEMER
EVARISTO SA via Getty Images
Imprimir

O governo Temer, em seus poucos dias de vida, já provou falsas algumas teses políticas e sociais que circulavam por aí.

A primeira: que se lutava pelo fim da corrupção.

A classe média que vestia camisa da seleção brasileira em passeatas domingueiras não batia panelas contra a corrupção. Batia contra o PT. E apenas contra o PT.

O pensamento desse pessoal é o seguinte: "aceito ser roubado, desde que o ladrão não seja petista".

Justo. Somos livres inclusive para escolher quem nos rouba. Mas aquele papo de que "nós não temos bandidos de estimação" era conversa mole para jornalista conservador dormir.

Fossem contra a corrupção em si, não aceitariam os "cidadãos de bem" um ministério com 7 citados/investigados pela Lava-Jato.

Será de salvação nacional, será um governo que irá passar o País a limpo, um que seja liderado por Temer, Padilha, Jucá, Kassab, e companhia limitada?

A segunda é a tese do ministério de notáveis, que Temer prometera antes da queda de Dilma. Notáveis só se for notáveis passadores de rasteiras em cobra cascavel.

Vejamos alguns exemplos.

O Ministro do Planejamento é o sr. Romero Jucá. O homem-símbolo do PMDB. Foi líder do governo FHC, do governo Lula, do governo Dilma. Essa flexibilidade ideológica é extremamente notável.

Se Satanás precisar de um gerente no inferno, Jucá - tenho certeza - organizará com particular competência a dinâmica de grupo do processo seletivo.

O Ministro da Casa Civil é o sr. Eliseu Padilha. A quem o finado ACM chamava maldosamente de Eliseu Quadrilha . Foi acusado de uma série de desvios, crimes e outras coisas do carteado. Sempre se provou inocente.

Ser sempre acusado e sempre se provar inocente é notável.

Padilha foi Ministros dos Transportes no governo FHC e foi Ministro da Aviação Civil no governo Dilma.

Um camarada que chuta com as duas pernas, bate escanteio e cabeceia pro gol.

O Ministro da Justiça, o sr. Alexandre de Moraes, deu uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo, na qual qualquer péssimo entendedor capturou a mensagem.

O sr. Ministro da Justiça defendeu, por exemplo, que o governo não mais aceite o acordo tácito entre ele (governo) e o Ministério Público, de nomear como Procurador-Geral da República o candidato mais votado nas eleições internas daquele órgão.

O Ministro deseja que o Governo escolha quem quiser.

Não precisa ser gênio para saber que o iluminado que for escolhido sem votos e sem o aval dos seus pares, será apenas um office-boy das vontades do presidente. Será, literalmente, um Engavetador-Geral da República.

Alexandre de Moraes é notável e notadamente inescrupuloso (ver sentido 2 de 'escrúpulo' do dicionário Houaiss) ao aventar tal possibilidade. O que ele deseja é enfraquecer as instituições, piorar a capacidade de controle da sociedade sobre seus governantes, é a ideologia do laissez-faire, laissez-"roubê"

Além disso, afirmou que nenhum direito é absoluto.

Não sou jurista, mas a valer essa tese, pode-se justificar a volta da escravidão, o apedrejamento de adúlteras, o sacrifício de virgens... Afinal, nenhum direito é absoluto, não é mesmo?

O Ministro da Ciência e Tecnologia é o indefectível sr. Gilberto Kassab. Kassab foi malufista, alckminista, lulista, dilmista e agora temerário (ou seria temerista?). É outro notável animal dessa fauna política brasileira.

De Genghis Khan a Gandhi, passando por Celso Pitta, Kassab é capaz de colaborar com sua sapiência administrativa com qualquer governo passado, presente ou futuro.

Sua abnegação em colaborar com qualquer governo é também notável.

O Ministro da Saúde é o sr. Ricardo Barros, que vem a ser o vice-presidente do Partido Progressista. Provavelmente o partido com a maior densidade populacional de picaretas no Brasil.

PP que já foi PDS, que já foi ARENA, que já foi...

Barros afirmou que é preciso rever o tamanho do SUS, o que significa que é preciso reduzir o SUS. Tese controversa e polêmica. Ainda mais vinda de um camarada cuja campanha foi financiada por um dono de plano de saúde.

Todos esses e outros tantos homens de biografia questionável estavam também no governo Dilma, Lula, FHC, Itamar, Collor, Sarney, Figueiredo, Deodoro...

O mundo dá voltas e voltas e estamos sempre sob o comando da mesma camarilha.

Devo admitir, porém, que estou satisfeito com a equipe econômica do novo governo. Henrique Meirelles, além de competente e respeitado, cercou-se de figuras que estão entre os melhores economistas disponíveis no País.

Mas será que um governo que nem se sabe se durará mais do que 180 dias, que não tem legitimidade popular, que não tem apoio incondicional de nenhum movimento social, e cuja sustentação baseia-se apenas no antipetismo e no antidilmismo terá força para fazer cortes de gastos, aumentos de impostos, aumento de juros, privatizações, etc?

Derrubar Dilma foi fácil. Difícil vai ser manter essa coalizão em um cenário de colapso econômico e de interesses difusos.

Será que Paulinho "da Força" apoiará mudanças na política de reajuste de salário mínimo, a reforma da previdência, a flexibilização de direitos trabalhistas?

Será que a FIESP aceitará resignada o aumento de juros, a redução do crédito e o fim dos subsídios do BNDES?

Será que a classe média aceitará - em nome do antipetismo - o aumento de impostos e a não correção da tabela do imposto de renda?

A história mostra que cada setor da sociedade está disposto a sacrifícios, desde que o sacrificado seja o outro.

Se passarmos da análise classista para a análise partidária, a coisa continua complicada.

Será que todos os partidos se manterão fiéis ao projeto Temer, caso as pesquisas mostrem uma desaprovação ao governo de 90%, tal como ocorria no governo Dilma?

E se a desaprovação permanecer alta e durante um longo período de tempo, estarão dispostos o PSDB, por exemplo, disposto a ferir suas chances de vitória nas próximas eleições presidenciais em nome de um "governo de salvação nacional"?

O governo Temer começa mal.

Mas ainda pode piorar.

E muito.

LEIA MAIS:

- Por que me envergonho do meu País

- As causas da queda de Dilma

Também no HuffPost Brasil:

Close
Os ministros de Temer
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual