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Presidente Donald Trump e os descontentes com a globalização

Publicado: Atualizado:
DONALD TRUMP HILLARY CLINTON
ASSOCIATED PRESS
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Donald Trump, contra todas as previsões, acaba de se tornar o 45º presidente dos EUA.

Sua vitória é mais um fato a sinalizar dois fenômenos importantes de alcance internacional: (i) o mal-estar provocado pela globalização, e; (ii) a fadiga com a política tradicional.

Do ponto de vista estritamente econômico, a globalização é o processo de incremento da circulação de mercadorias, capitais (financeiro e produtivo) e trabalhadores, entre as fronteiras dos estados nacionais.

Não se trata de um fenômeno novo, tampouco de desenvolvimento linear.

Entre o fim das Guerras Napoleônicas em 1815 e o início da I Guerra em 1914, a Inglaterra progressivamente liderou uma ordem econômica internacional de caráter liberal.

A I Guerra e, em especial, a crise de 1929, colocaram em xeque o liberalismo laissez-faire e a globalização.

Não por acaso, duas alternativas ao liberalismo emergiram nesse período: o socialismo soviético em 1917 e o fascismo italiano em 1922. Entre os liberais emergiu uma autocrítica sob a forma do keynesianismo.

Com o fim da II Guerra, uma nova ordem liberal é estabelecida, agora sob o comando dos Estados Unidos.

Entre as décadas de 1940 e 1960 a globalização se encontrava ainda em um patamar inferior ao observado às vésperas da I Guerra.

A partir dos anos 1970, porém, o liberalismo vai ganhando força.

Gráfico 1 - Abertura Econômica, Integração Financeira e Migração Internacional (1880-2000)
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Fonte: Esteban Ortiz-Ospina and Max Roser (2016)

No campo da teoria econômica, sai o Keynesianismo e entra o Monetarismo de Milton Friedman e Robert Lucas.

Na política, saem os governos socialdemocratas e emergem Margaret Thatcher (1979-1990) e Ronald Reagan (1981-1989).

Com a queda do muro de Berlim, o liberalismo ganha ainda mais momentum. É nessa época que surgem as teses do Fim da História e o Consenso de Washington.

Era a nova cheia do (neo)liberalismo.

Mas já nos anos 1990, começou a ficar claro - graças a crise da Ásia, por exemplo - que a plena liberdade de movimentação para o capital financeiro poderia não ser uma ideia assim tão boa.

Quando uma crise financeira de grandes proporções atinge os EUA em 2008, tornara-se claro que o laissez-faire poderia ter um lado sombrio também para os países centrais.

Esse é o fato contemporâneo fundamental: a crítica à globalização que era uma bandeira de reformistas e revolucionários, tornou-se também uma bandeira de setores conservadores.

Na Grã-Bretanha, a redução do papel do Estado nacional, diante de um governo comum, alimentou ressentimentos nacionalistas, desembocando no Brexit.

Em países da Europa continental a xenofobia e islamofobia avançam, pari passu com a chegada de refugiados e os episódios de terrorismo.

Nos EUA a crítica à globalização surge agora como um sentimento de decadência econômica.
O discurso de Trump em Detroit - cidade símbolo da decadência industrial americana -, contra a política de comércio internacional de seu país, é uma descarada apologia ao nacionalismo econômico.

Seu mote é cirúrgico: "America first"

Trump culpa o comércio com a China e México pela perda dos empregos no seu país. Sua proposta fundamental é restringir as trocas e rever os acordos comerciais, como forma de assegurar a manutenção dos empregos industriais nos EUA.

Os EUA têm tido déficits comerciais constantes e crescentes com esses países.

Enquanto o liberalismo econômico vê as trocas como mutuamente vantajosas, o nacionalismo vê o comércio como uma arena de disputa. Ao ter déficits comerciais, os EUA estariam perdendo parte de seu poder, de sua riqueza e soberania.

Essa é a essência do pensamento de Trump.

A saída é se livrar e rever acordos como o NAFTA e TPP.

Esse discurso nasce e se desenvolve em um solo fértil.

Enquanto entre 1945 e 1975 os salários americanos cresciam junto com o crescimento da produtividade do trabalho, a partir de então os salários permaneceram estagnados, mesmo com a produtividade ainda crescente.

Gráfico 2 - Evolução da Produtividade e dos Salários nos EUA (1948-2014)
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Fonte: The Wall Street Journal

Ou seja, não só muitos trabalhadores americanos perderam seus empregos, como os que permanecem empregados estão relativamente mais pobres que seus pares dos anos 1970.

Não por acaso, Trump obteve vitórias importantes no chamado "Rust Belt", obtendo a maioria em Michigan - onde fica Detroit -, estado que não dava vitória aos Republicanos desde os anos 1980.

A sensação do americano médio é que os EUA exportam fábricas para o México e para China e importa mercadorias. Os dois processos seriam os responsáveis pela perda de emprego e achatamento dos salários dos indivíduos, e da perda de riqueza, prestígio e poder por parte do Estado.

A circulação de trabalhadores também causa desconforto.

Em épocas de crise econômica, a xenofobia encabulada se torna desavergonhada.

Os imigrantes não só tomam nossos empregos, mas como querem destruir nossa cultura e nos impor a deles. Pensam.

A solução proposta por Trump? Construir um muro na fronteira com o México e deportar todos os ilegais.

Simples e insano.

Há ainda o temor em relação aos muçulmanos, que também colocariam em risco os "valores americanos".

A proposta de Trump é a de congelar sua entrada nos EUA, inclusive de refugiados sírios (que não são necessariamente muçulmanos, mas isso pouco importa).

O mote "make America great again" traz implícita a ideia de fazer os EUA voltarem a ser branco, protestante e a oficina do mundo.

É o reacionarismo em sua mais perfeita manifestação: o desejo de fazer a roda da história girar para trás.

Por fim, a eleição de Trump sinaliza um certo cansaço contra o establishment político.

Provavelmente nenhum candidato foi tão - justa e injustamente - atacado pela grande imprensa americana (exclusive pela FOX News) quanto Donald Trump.

Todos os analistas ridicularizavam Trump, seus apoiadores e suas ideias.

Toda a intelectualidade e todas as celebridades se alinharam com Hillary.

O próprio núcleo do Partido Republicano não o levou a sério.

Hillary, aliás, materializou o sentimento de todos esses grupos ao afirmar que os apoiadores de Trump formavam um "balaio de deploráveis" (em uma tradução à pernambucana de "a basket of deplorables").

Mas Trump ganhou.

Se Trump colocar suas ideias em prática, o que veremos é um movimento de viés protecionista/nacionalista na principal economia do mundo, algo que legitimará e incentivará que outros países tomem atitude semelhante.

Em uma analogia com o período do entre-guerras, estamos vivendo talvez a ressaca do neoliberalismo, com a emergência do nacionalismo econômico no país que deveria ser o fiador da ordem internacional liberal.

O perigo maior é que o cansaço com o liberalismo historicamente vem acompanhado do desprezo em relação à democracia e ao estado de Direito.

Nos EUA a democracia tem raízes profundas, mas países de tradição autoritária, como o Brasil, precisam abrir os olhos. "Bolsomito-2018" pode ser muito mais que uma idiotice de alguns deploráveis.

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