Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Alexandre Andrada Headshot

Um político no front: Um balanço econômico do governo de Barack Obama

Publicado: Atualizado:
BARACK OBAMA
Kevin Lamarque / Reuters
Imprimir

A presidência de Barack Obama (2009-2017) foi marcada por dois grandes desafios e condicionantes.

No front doméstico, havia que se enfrentar as causas e as consequências da crise do subprime de setembro de 2008. No externo, as questões relativas à intervenção americana no Oriente Médio, notadamente as consequências da ilegítima e desastrada invasão do Iraque, iniciada em 2003.

Na linguagem da política brasileira, essas foram as duas heranças malditas legadas por George Bush.

A crise econômica gestada no governo Bush legou um cenário de terra arrasada para Obama. O período crítico foi entre 2007 e 2009.

Alguns números:

A taxa de desemprego aberto naquele país saltou de 5% em 2007 para 10% em 2009. O pior número desde a severa crise do início dos anos 1980, quando a taxa chegou a 10.8%. Entre a população negra a taxa de desemprego chegou a 15%.

Em agosto de 2016 essa taxa já estava abaixo dos 5%, o que foi bastante explorado por Obama e Hillary como prova do acerto de suas medidas.

Há, porém, um detalhe. A taxa de participação na força de trabalho caiu durante o mandato de Obama, passando de 65.7 % em 2009, para 62.9% no início do corrente. Ou seja, houve um crescimento não desprezível da proporção daqueles que simplesmente saíram do mercado de trabalho.

Os setores da economia mais severamente afetados pela crise foram o de manufatura - com uma queda de 10% nas taxas de emprego - e o de construção civil - com queda de quase 14%. Trata-se da maior queda desde o após-guerra.

O nível de utilização da capacidade instalada na manufatura atingiu míseros 63.8% em 2009, contra uma taxa média de 78.5% entre 1972 e 2015. Em novembro de 2016 essa taxa atingiu 74.8%, uma recuperação importante, mas ainda abaixo da média histórica e significativamente inferior aos 85.6% observados no final dos anos 1980.

Ainda que o mundo esteja com o freio de mão puxado - inclusive os EUA - as coisas estão melhores hoje do que estavam em 2009 (o Brasil, como regra, é a exceção).

A partir do início da recuperação da produção - em meados de 2009 - os EUA têm crescido a uma taxa média de 2,1% ao ano.

Ainda que a economia americana esteja operando abaixo de seu nível potencial - segundo diferentes cálculos - ela é hoje 15% maior em termos reais do que o era em 2009.

Um bom resultado? Não exatamente. Trata-se de um desempenho inferior ao observado durante o governo de Bush filho, e significativamente inferior ao observado nos anos Reagan (1981-1989) e Clinton (1993-2001).

Ao final de seu mandato, Clinton entregou uma economia 35% maior, o melhor desempenho desde pelo menos 1977.

Analisando-se o desempenho dos presidentes desde Jimmy Carter (1977-1981), Obama só se saiu melhor que Bush pai (1989-1993) e o próprio Carter. Detalhe, ambos os últimos fracassaram em suas reeleições.

Em termos de aumento médio dos salários, o desempenho de Obama fica também abaixo ao de Reagan e Clinton. Durante o processo de recuperação modesta do emprego, os salários permaneceram virtualmente estagnados.

E, também por conta disso, a desigualdade de renda continuou a se elevar durante o mandato de Obama, seguindo a tendência iniciada nos anos Reagan.

Enquanto a renda anual dos 50% mais pobres da população está estagnada - em termos reais - em US$ 16.000 desde os anos 1980; o famigerado 1%, que ganhava US$ 428.000 em 1980, hoje ganha US$1.3 milhão ao ano.

Enquanto em meado dos anos 1970 o 1% mais rico abocanhava menos de 12% da renda americana, hoje eles ficam com mais de 20%. Já os 50% mais pobres, passaram de 21% para pouco mais de 12%.

A divisão do bolo está cada vez mais desagradável para o famoso "americano médio".

Em consequência, as pessoas nascidas após 1980 têm uma chance de apenas 50% de ganharem mais do que os seus pais ganharam. Em 1950 essa porcentagem era de quase 80%.

Assim, a antiga certeza da melhora no padrão de vida de geração em geração, desmancha-se no ar. O sonho americano vai se tornando, simplesmente, um sonho.

Do lado fiscal, Obama foi o presidente que obteve os piores resultados desde Jimmy Carter. Em 2016 o déficit estimado era da ordem de US$ 600 bilhões, US$ 162 bilhões maior do que o registrado em 2015.

A dívida pública americana passou de US$ 10.6 trilhões para US$ 19.7 trilhões entre 2009 e 2016. Um incremento de surreais 9 trilhões (em outras formas de cálculo, a piora fiscal é mais modesta).

O chamado Recovery Act (American Recovery and Reinvestment Act - ARRA), lançado em fevereiro de 2009, apresentava as linhas da ação econômica de Obama no campo fiscal. O pacote custou mais de US$ 800 bilhões.

Em artigo de 2011, Conley e Dunpor estimaram que o impacto do plano até ali fora negligenciável ou mesmo negativo. Taylor (2011) também é cético em relação às medidas de Obama. Wilson (2011) encontra resultados melhores, mas não espetaculares. O plano teria criado 2 milhões de empregos, mas parte deles teria tido existência breve. O maior impacto teria sido observado no setor de construção, com um aumento de 19% dos postos de trabalho na comparação de um cenário em que não houvesse o recovery act. Outro estudo mostra que no melhor cenário, o pacote teria sido responsável pela queda de 0,5% a 1,5% no valor da taxa de desemprego entre 2009 e 2013.

A política monetária chamada de quantitative easing posta em prática pelo FED a partir de 2007, fez com que o volume da base monetária dos EUA passasse - em valores aproximados - de US$ 1.700 trilhão em 2009 para US$ 3.900 no início de 2016. Um incremento de quase 130%.

Apesar dessa política não ter provocado uma explosão inflacionária - como muitos temiam - seus resultados tampouco parecem ter sido brilhantes; há ainda uma grande controvérsia acadêmica sobre seus efeitos e custos.

Mas, em todo caso, com políticas fiscal e monetária extremamente audaciosas, os resultados obtidos por Obama foram tímidos.

Ainda que não tenha sido um fracasso absoluto, a chamada obamanomics esteve longe de ser um sucesso retumbante.

É certo que o desempenho de uma economia depende de toda uma sorte de fatores, sendo limitada a capacidade de controle por parte do presidente. Como também é ainda cedo para se analisar todos os custos e resultados das medidas tomadas nessa gestão, já que há a questão da defasagem temporal das medidas de política econômica.

Em todo caso, a única certeza é que o legado econômico de Obama será matéria de uma calorosa e duradoura controvérsia.

LEIA MAIS:

- Presidente Donald Trump e os descontentes com a globalização

- O novo populismo de 'Bolsomito' e 'Cirão da Massa'

Também no HuffPost Brasil:

Close
5 livros que Barack Obama escolheu para ler nas férias
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual