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Uma tragédia chamada Dilma e uma incógnita chamada Temer: Uma análise econômica.

Publicado: Atualizado:
DILMA ROUSSEFF MICHEL TEMER
ASSOCIATED PRESS
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O governo Dilma (2011-2016), do ponto de vista do desempenho econômico, foi um fracasso colossal. Não deixará saudades alguma e ficará na história apenas por seus erros e mediocridade.

Mas não basta ser incompetente, é preciso ser arrogante. Até o último dia de seu julgamento a presidente afastada insistia em não admitir qualquer culpa. Ela fez tudo certo, o mundo é que esteve errado.

E falava isso com uma convicção que sugere que ou ela é ignorante ou mal-intencionada.

Em sua defesa no Senado a ex-presidente voltou a colocar a culpa da crise econômica brasileira causada por uma crise internacional de grande escala e imprevisível (que teria ocorrido entre o fechamento das urnas no segundo turno de 2014 e a manhã do dia seguinte).

Isso é simplesmente uma mentira.

Houvesse uma crise internacional, observaríamos resultado análogo ao do Brasil em outros países do mundo.

A tabela abaixo mostra o desempenho do PIB per capita entre 2011 e 2015, a partir de dados do Banco Mundial.

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Notem que essa amostra não leva em conta 2016, ano em que termos forte queda do PIB, o que piorará ainda mais o resultado do Brasil.

Dessa amostra de países, apenas a Venezuela - país em decomposição institucional - teve desempenho pior que o nosso.

Até mesmo a Rússia - país sob severas sanções econômicas impostas por EUA e União Europeia - teve um desempenho melhor que o Brasil no período.

Os países ricos - como EUA e Alemanha - apresentaram um crescimento médio positivo, de 1,26% e 1,63%, respectivamente.

Nossos colegas de BRICS - China e Índia - tiveram um desempenho extraordinário, crescendo em média 5,41% e 7,29%, respectivamente.

Os países Latino Americanos - México, Argentina, Chile, Equador, Peru e Colômbia - também tiveram um desempenho muito superior ao do Brasil.

Mantendo uma taxa média de crescimento de 3,57%, a Colômbia será capaz de dobrar seu PIB per capita em um intervalo de aproximadamente 20 anos. O Brasil, com uma taxa média de 0,1% demoraria 700 anos para atingir o mesmo resultado.

(Dobrar nosso PIB per capita significaria sairmos do nível de desenvolvimento atual e chegarmos a um inferior ao da Espanha de hoje)

Esse é o tamanho do fracasso econômico de Dilma.

E que crise internacional é essa que só aflige o Brasil?

Dilma afirmava que a crise se manifestava na queda dos preços das commodities.

Essa é uma meia verdade.

O gráfico abaixo mostra o comportamento dos termos de troca - isto é, da relação entre os índices de preço de nossas exportações e importações - entre janeiro de 2003 e junho de 2016.

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O que se nota é que nos anos Lula - de ótimo desempenho econômico do Brasil - os termos de troca médios ao longo de seus dois mandatos foram de 95,68 e 106,15. Essa elevação do valor médio entre o primeiro e o segundo mandato é parte do fenômeno de "boom das commodities", que permitiu que o Brasil acelerasse seu crescimento e acumulasse reservas internacionais durante aqueles anos.

No primeiro governo Dilma, os termos de troca pularam para 121. É inegável que há um processo de queda quase constante dos termos a partir do segundo semestre de 2011. Mas, ainda assim, o valor médio entre 2015 e 2016 foi superior ao encontrado pelo ex-presidente Lula em seu primeiro mandato.

Esse resultado ridículo de "crescimento" do PIB per capita foi obtido não em um cenário de forte ajuste recessivo, de queda nas despesas, de uma política econômica de inspiração neoliberal, ou qualquer coisa do gênero.

O governo Dilma conseguiu esse resultado concomitantemente com a piora das contas públicas.

Entre 2010 e 2015 a dívida pública bruta como proporção do PIB saltou quase 15%, passando de 51,77% para 66,23%. Essa trajetória explosiva de nossa dívida - que além de elevada é extremamente cara, dado que os juros do Brasil são os dos maiores do mundo - é que levou o Brasil a perder o grau de investimento.

É essa trajetória da dívida que faz com que os juros sejam e permaneçam elevados, drenando recursos públicos que poderiam ter um fim social mais justo, para o pagamento de juros.

Essa política desastrosa foi a responsável por levar a taxa de desemprego - segundo dados da PNAD - de 6,8% no último semestre de 2015 para 11,6% no segundo trimestre desse ano.

Pagaremos por muitos anos ainda pelos erros do trio parada dura: Dilma-Mantega-Tombini.

O que será dos dois anos que Temer terá pela frente (será?) é uma incógnita.

Os primeiros sinais foram positivos: Meirelles na Fazenda e Goldfajn no BACEN. Camaradas da mais alta capacidade técnica para recolocar o Brasil nos eixos.

Mas até agora só tivemos isso. De prático, material e concreto o governo Temer tem empurrado os problemas com a barriga. Muito discurso, poucas medidas.

As medidas que precisariam ser adotadas para recolocar o país nos eixos não são exatamente agradáveis para o público.

Poderá um governo sem popularidade aprovar e sustentar uma política econômica dura?

Eu acredito cada vez menos nessa possibilidade.

A chance é que o governo Temer seja não só uma tragédia política, mas também econômica.

Tomara que eu esteja errado.

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