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Venezuela: A crônica de mais um fracasso do socialismo

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LUIS ROBAYO via Getty Images
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Karl Marx foi um dos grandes gênios que a humanidade já produziu. Ponto. Assim como ainda hoje a humanidade lê e estuda Aristóteles, daqui mil anos ainda se lerá e se discutirão as ideias de Marx.

Na economia, amplamente dominada pela ideologia liberal, o marxismo é bastante marginalizado. E isso não é uma boa notícia. O Capital (1867) é uma obra-prima do pensamento social. Marx era um erudito no sentido profundo do termo. Dominava tudo de economia, sociologia, política, história, filosofia, etc.

O marxismo é um instrumento poderoso - ainda que imperfeito, como qualquer ideologia das Ciências Humanas - para compreender o mundo.

Mas aqui é preciso notar um detalhe. O marxismo é genial quando analisa o mundo como ele é. Mas, em geral, quando tenta tratar de como o mundo deveria ser, sua relevância converge rapidamente para zero.

Marx nunca escreveu um manual sobre como seria a sociedade socialista. Esse exercício de futurologia para ele, aliás, era coisa dos utópicos.

Sem uma teoria muito bem definida sobre como construir o socialismo, os comunistas que chegaram ao poder tiveram que usar muito de sua imaginação.

E a história mostrou que o socialismo econômico - isto é, a substituição do regime de propriedade privada e livre iniciativa pela estatização e o planejamento absoluto das decisões econômicas - é um fracasso absoluto no longo prazo.

Para os que duvidam, eu sugiro que busquem uma comparação dos dados econômicos das duas Alemanhas em 1989, quando da queda do muro. A diferença fala por si só.

Os liberais já previam o fracasso desse tipo de experimento.

O Estado possui o monopólio da força e por isso é uma entidade a ser vigiada constantemente pela sociedade civil.

Se além do monopólio da força, o Estado também possui o monopólio da produção de riqueza, não há força capaz de controlar seus instintos dominadores.

O estalinismo não é um desvio do socialismo, ele é o resultado necessário de um regime em que o Estado possui todo o poder. Não é por acaso que todos os regimes socialistas desembocaram em ditaduras, inclusive em dinastias, como na Coreia do Norte e em Cuba.

Mas a humanidade é inclinada à fé.

Em 1999, quando Hugo Chávez chegou ao poder através de um processo democrático, ele afirmava estar construindo o "socialismo do século XXI". Não foram os poucos os que se entusiasmaram com aquele experimento social.

Na Venezuela, ao contrário dos países soviéticos, o Estado não acabou com a propriedade privada. Isso não foi necessário. Metade do PIB da Venezuela está atrelado à exportação de petróleo. Mais de 95% das receitas de exportação. Ao controlar a estatal do setor - a PDVSA - Chávez dominava virtualmente toda a economia do país.

E ao controlar quase toda a economia, ele acumulou poderes políticos em igual escala. O Estado venezuelano era Hugo Chávez, Hugo Chávez era o Estado venezuelano.

Em 1999, quando assume o poder, o preço do barril do petróleo estava em 11 dólares. Iniciou-se então uma trajetória de alta que só foi interrompida em 2008, com a eclosão da crise americana. Àquela época o preço estava em 121 dólares.

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A Venezuela, nesse processo, havia enriquecido (em aparência) brutalmente.

Com os dólares obtidos com o petróleo, Chávez reequipou o Exército, fez grandes programas sociais, subsidiou alimentos e tarifas pela Venezuela.

Por isso era o pai dos pobres. Por isso vencia todas as eleições possíveis e imagináveis (e, quando não vencia, mudava as regras para vencê-las, como de praxe nas ditaduras que se disfarçam de democracia).

Entre 2008 e 2009, por conta da recessão global, o preço do petróleo despencou para 40 dólares. Foram momentos difíceis para Chávez, mas já em 2011 o preço voltava a ficar acima dos 100 dólares.

A partir do segundo semestre de 2014, já com Nícolas Maduro no poder, o preço do petróleo volta a desabar. Saindo do patamar de 106 dólares no segundo trimestre daquele ano, para 48 dólares no final do ano passado.

A queda no preço do petróleo significa o colapso da economia venezuelana, o esgotamento das suas reservas de dólares e a inviabilidade dos programas populistas.

Com a queda nas receitas, o governo passou a ter déficits orçamentários crescentes. Para cobrir esses déficits, decidiu imprimir moeda, provocando uma inflação que está por volta de 700% neste ano.

Maduro não pode mais subsidiar a compra de alimentos e se vê obrigado a cortar uma série de benefícios à população.

A pobreza tem aumentado brutalmente, assim como as cenas de saques aos supermercados, a fome e a revolta da população. Muitos devem sentir saudades de Chávez, já que naqueles tempos a vida era melhor. Mas a verdade é que a culpa não é de um indivíduo, é de um sistema político e econômico que sempre fracassa e sempre fracassará.

O socialismo do século XXI não tem nada de novo, é apenas um leninismo amolecido pelo populismo latino-americano de um líder carismático. Uma mistura que não corre o menor risco de dar certo.

Devíamos escutar a História. O século XX já nos ensinou: o liberalismo laissez-faire (falecido em 1929) e o socialismo (falecido em 1989) são caminhos fracassados.

É hora de enterrar os cadáveres e seguir em frente.

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