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Que tal proteger as mulheres de estupradores de verdade?

Publicado: Atualizado:
ESPERANDO
ANDRE CEZAR VIA GETTY IMAGES
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Continuo esperando, mas ainda não aconteceu.

Algumas semanas atrás, vários homens estavam preocupados com a segurança das americanas, querendo proibir transgêneros de usar banheiros femininos.

Nos disseram como as mulheres são preciosas, como elas precisam ser protegidas de "homens de vestido".

Quando o governo atual enviou mensagens para as escolas públicas dando novas diretrizes para o tratamento de alunos transgênero, 11 Estados foram à Justiça para garantir que nossas meninas estejam protegidas contra as meninas transgênero.

Ah, ouvi-los dizendo que não eram na verdade as trans que os preocupavam. É claro que haveria várias oportunidades para chamá-las de pervertidas. Várias chances de nos lembrar que há apenas algumas poucas delas, então por que nos curvar aos seus desejos?

Muita linguagem descartando a importância do conforto e da saúde mental dos homens e mulheres trans.

Mas, não, não teríamos de nos proteger dos trans (especialmente das mulheres trans).

É com os pedófilos e os voyeurs que se aproveitariam da nova lei que temos de tomar cuidado. Os homens que se fantasiariam de mulheres para atacá-las no banheiro. Essas eram as verdadeiras ameaças.

Esses eram os homens com quem precisaríamos lidar. Homens violentos - é com estes que temos de estar alertas, com eles que devemos nos preocupar. Garantir que as mulheres estejam seguras contra ataques de homens violentos.

Então, quando o estuprador da Universidade Stanford Brock Turner foi condenado a meros seis meses de prisão, comecei a esperar.

Esperar que todos esses homens comecem a postar sua indignação com um sistema que deixa tanto a desejar no que diz respeito às mulheres.

Esperar pelas petições com milhões de assinaturas exigindo penas mais duras para estupradores. Esperando vídeos virais de pastores do lado de fora dos tribunais, falando animadamente sobre as graves injustiças cometidas dentro daqueles prédios.

Esperar que os homens compartilhem as palavras fortes da vítima como lembrete de que o estupro deixa consequências para a vida toda das vítimas.

Esperar que os homens lembrem os outros homens que a responsabilidade de não estuprar é deles, não das mulheres estupradas.

Esperar que estes homens provem que sua preocupação com suas mulheres e filhas não era somente um disfarce para suas transfobias, que eles não querem ver expostas.

Em vez disso, li a carta de um pai dizendo que seu filho está recebendo uma punição dura demais por uma "ação de 20 minutos", na qual em vez de autor de um crime violento ele é a vítima do consumo de álcool em uma festa.

Li muitas vezes sobre quantos drinques a vítima tomou antes de ser estuprada. Li sobre a necessidade de controlarmos o problema do excesso de bebidas alcoólicas nos campus universitários.

Li montes de coisas, mas absolutamente nada das pessoas que poucas semanas atrás estavam prontas a invadir cabines privadas de banheiros para garantir a segurança de suas mulheres e filhas.

Onde estão vocês? Onde está sua indignação quando uma jovem é penetrada com dedos e deixa um rastro de folhas e galhos de pinheiro atrás da lixeira depois de acordar?

Onde está seu desgosto com um sistema que aplica uma pena leve e diz "Bem, ele provavelmente não fazer AQUILO de novo"?

Onde está sua raiva contra uma cultura que está mais preocupada com o impacto de colocar na cadeia um estuprador que com o impacto do estupro em si?

Semanas atrás, nos disseram que as mulheres precisam ser protegidas.

Mas, aparentemente, não dos estupradores.

Uma versão deste post foi publicada no Knitting Soul.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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