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O adeus a Domingos Montagner e a vida que ficou

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"Saudade é o amor que fica". Com essa ternura, um homem falava sobre morte em um documentário do coletivo Vamos Falar Sobre o Luto.

De morte temos falado bastante desde a última quinta-feira (15), quando depois de muita apreensão e torcida por boas notícias, localizaram o corpo do ator Domingos Montagner, até então desaparecido no rio São Francisco.

A morte de Montagner, santificado na ficção e eternizado na realidade, é falada, contada, esmiuçada, sentida. Dessa morte falamos repetidamente como tentativa de compreensão. Ou, simplesmente, de vivência do sem sentido e do imprevisível.

É que falar de morte é como suspender nossas certezas e mergulhar, intencionalmente, em um mar de angústia, de impotências e de sentimentos que sequer conseguimos nomear. É pensar na vida atravessada abruptamente por aquilo que ela mais tem de inevitável: O seu fim.

Em um mundo que exige nossa prontidão e preparo para responder com superação e vitória a quaisquer obstáculos, não importam quais, reconhecer a morte como certeza da vida é admitir uma vulnerabilidade e uma limitação que confrontam diretamente com ideia de potência e de controle que disseminam por aí.

Se há a dolorosa certeza da morte, podemos lidar com ela a partir da vida que existiu - e de tudo aquilo que se construiu no rico "intervalo" entre começo e fim. Este "intervalo", passageiro e delimitado, é senão a vida e os feitos de cada um de nós. É destes intervalos que nascem as mais belas e particulares saudades.

No intervalo vivido por cada um de nós, estabelecemos nossa permanência no mundo, pulverizada em preciosidades da convivência: A memória de uma gargalhada, a lembrança de um bilhete, a foto de um dia muito bom.

No "intervalo" de Montagner, ele brincou a infância no Tatuapé, bairro de São Paulo (SP), elegeu a educação física como rumo profissional e deu uma cambalhota nos próprios planos ao descobrir a vocação para o circo. Fez rir, riu junto, aprendeu a chorar cenograficamente e se multiplicou em personagens ao saltar do circo para a televisão e para o cinema.

Viveu o palco principal com a intimidade de quem sabe a delícia que é ser plateia das coisas boas da vida. Cresceu profissionalmente, saiu do anonimato e passou a ser disputado pelas melhores tramas. Viveu o amor ao lado da mulher, a produtora Luciana Lima, e dos três filhos: Leo, Antônio e Dante. Fez amigos por onde passou. Conquistou a admiração pelo talento e pela humildade.

Era presença assídua em milhares de lares brasileiros a partir das 21h, na novela Velho Chico. Vivia Santo, personagem forjado na tragédia da rivalidade entre famílias, condenado a ver como impossível o amor dele por Tereza (Camila Pitanga). Mas Santo não era homem de cumprir história riscada, então tratou de escrever a própria e, junto a Tereza, pacificar o que só existia como conflito.

As águas do rio São Francisco onde Santo submerge e renasce, salvo pelo amor de Tereza e pelos cuidados dos índios, foram as mesmas onde Montagner se afogou. Ficção e realidade tiveram, ali, uma diferença fundamental. Quiséramos ter na vida a mesma autonomia do autor de novelas para alterar completamente o rumo de alguém com quem nos importamos.

Camila Pitanga, que estava com o ator na hora do incidente, contou em depoimento os momentos de angústia e sofrimento ao tentar ajudar Montagner a sair das águas. Como sabemos, a correnteza venceu os esforços dos dois, e coube a Camila lidar com a tristeza imensurável de testemunhar uma partida que parece, ao tempo da saudade, precoce.

Poucos no mundo vão saber o desamparo de Camila nestes dias que se seguem. Poucos vão entender a dor do recomeço da família e dos amigos de Montagner. Mas todos nós podemos fazer da empatia nosso ombro amigo para todas as vezes em que a morte parecer insuportável, indizível. Enquanto o sem sentido nos tirar palavras, podemos nos comunicar por lágrimas, soluços, abraços, lembranças.

Depois da partida vem o luto, e ele pede tempo, cuidado, paciência, compreensão e despedida. No luto particular de cada um, a ausência da pessoa querida é transformada em presença permanente. É como se a morte abrisse caminho para a vida que precisa seguir.

No intervalo entre começo e fim de cada um de nós, há um baú de histórias e emoções tornadas infinitas porque foram compartilhadas. Enquanto houver vida, que esse baú se torne destino de nossos sonhos e fracassos, grandezas e pequenices.

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