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O dia em que minha consciência negra despertou

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Hoje eu me declaro negro. A ficha caiu tarde, mas caiu.

Nunca fui vítima de ataque ou tratamento racista que tenha me causado um grande trauma, talvez por conta dessa ficha caída tardiamente. Mas quando olho para trás, posso pontuar alguns episódios curiosos. O primeiro, quando fui seguido por um segurança em um shopping center, acho que na época do Ensino Fundamental. E os outros foram todas as vezes que, pequenininho, fui apresentado pelo meu pai, que é branco, aos amigos dele como o "caçula" ou "raspa do tacho", sempre com a ressalva sobre o tom da minha pele: "puxou a família da mãe", que é majoritariamente negra de pele escura.

Refletir sobre esses episódios só me faz ter a certeza de que o racismo não é um pensamento banal, piada ou uma doença, como muitos justificam. É algo complexo, estrutural, entrelaçado na nossa cultura - o que faz com que seja reproduzido até por pessoas que juram de pés juntos que não são racistas. A partir dessa consciência da minha negritude, passei a buscar informações para torná-la mais forte.

Esse é um movimento crescente que tem a ver, sim, com o acesso à informação, cotas raciais e demais ações afirmativas realizadas no país nos últimos 15 anos.

Nessa busca, descobri que existe o colorismo, um conceito que - em resumo - aponta: por ser um negro de pele mais clara, eu gozo de privilégios que negros de pele mais escura são privados. Ou seja, eu sofro menos racismo no meu dia a dia que um negro de fenótipo mais delineado. Por ser esse negro de pele mais clara, por vezes me senti deslocado dentro de algum ativismo que procuro fazer e até achando que roubava o lugar de fala de outras pessoas.

Aí chego onde eu queria.

No final de agosto, Eliane Brum fez uma de seis horas com o ativista e intelectual cubano. Após a leitura do resultado dessa conversa, me vi chacoalhado, aceso, inspirado. Arrisco definir essa entrevista como uma aula ampla, contextualizada e provocativa sobre a questão racial no Brasil. As palavras de Moore são potentes porque trazem uma visão macro e com perspectiva histórica daquilo que às vezes não entendemos ou desconhecemos por estarmos centrados no nosso próprio cotidiano.

Lendo suas declarações, percebi que esse reconhecimento da minha identidade negra, assim como de amigas que, por exemplo, têm assumido os cabelos crespos nos últimos anos, não são casos isolados. Muito pelo contrário, esse é um movimento crescente que tem a ver, sim, com o acesso à informação, cotas raciais e demais ações afirmativas realizadas no país nos últimos 15 anos. Essa contextualização acendeu aqui uma luzinha que me fez ver que não devo me sentir deslocado dentro do ativismo negro. A análise de Moore dá conta de que eu, ele e essas minhas amigas com suas tranças e black powers, todos temos lugar nesse movimento.

Aliás, ter em mente que o branco é minoria neste País já é algo que quebra paradigmas.

Estamos caminhando juntos, e cada vez em maior número, para uma luta inadiável pelo respeito à diferença no Brasil - que inclui o que ele chama de "negociação racial" do poder político e econômico com a minoria branca. Um cenário muito desafiador e totalmente inédito. Aliás, ter em mente que o branco é minoria neste País já é algo que quebra paradigmas. Na entrevista tem mais uma centena de outras reflexões. Se você não conseguir parar para ler agora, faça como fiz e separe o link para quando tiver um tempo tranquilo. Depois, vamos trocar uma ideia. Porque sigo aqui buscando mais informações, chacoalhado, aceso, inspirado e desejando que novas consciências negras despertem.

*Este texto faz parte de uma série de blogs que serão publicados na semana do dia 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra.

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