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'Eles não explicaram por que o voto deles era mais importante que o meu'

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ANDRESSA ANHOLETE via Getty Images
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Filhos,

Eu não vivi o primeiro impeachment do Brasil. Eu não vivi a ditadura militar. Eu não vivi a redemocratização. Eu não acompanhei a chegada do Partido dos Trabalhadores na presidência, mas quando eu votei pela primeira vez, eu elegi a primeira mulher a presidir o nosso País. E eu vi ela cair.

Tudo o que eu sei sobre o passado político do nosso País é por meio da memória de terceiros. Perdoem a minha ignorância. Mas este 31 de agosto foi importante porque eu me dei conta de que eu criaria a minha própria memória.

Mas eu preciso confessar a vocês: eu simplesmente não estou sabendo lidar com tudo isso. Eu estou confusa.

Em junho de 2013, eu fui para as ruas pela primeira vez. Eu morava próximo ao Largo da Batata e da Avenida Paulista, mas eu não saí de casa no primeiro momento. Eu não sabia direito o que era aquilo.

Começou na internet e a discussão era pelo aumento de 20 centavos na passagem de ônibus, mas foi além: uma legião de pessoas ocuparam ruas e avenidas do Brasil inteiro. A minha lembrança são os gritos. "O gigante acordou" e "Vem pra rua, vem", eram os lemas. Ali, filhos, eu entendi a força de uma democracia.

No ano seguinte tivemos eleições, a primeira que eu me lembro vivamente. Após o resultado disputado, um outro ritmo começou a fazer parte da trilha sonora do Brasil: os panelaços. Toda vez que a presidente eleita aparecia na televisão, os indispostos com o seu governo ocupavam as janelas e varandas para bater panelas em repúdio aos pronunciamentos - e aqui não sou capaz de escrever os absurdos aos quais se dirigiam à ela.

Eu entendo que a situação do País não estava nada fácil - a crise econômica levou a gente ao fundo do poço - mas era feio demais. Ali, filhos, eu entendi o que era o machismo e o quão longe ele poderia chegar.

Eles voltaram às ruas nos meses seguintes, mas desta vez, filhos, eu não fui. Observei de longe. Eu não ouvi gritos que me representavam.

De um lado, havia famílias inteiras em verde e amarelo que bradavam violentamente pelo fim da corrupção e, para eles, ela havia praticado um crime imperdoável. A solução era afastá-la de imediato. De outro lado, uma parcela menor, porém ainda significativa, ia as ruas de vermelho para denunciar um golpe em curso. Eles não julgavam que a presidente havia cometido erros. Na verdade, eles a colocaram como vítima de uma manobra política e da misoginia.

Filhos, eles construíram um muro em Brasília e nos disseram que éramos incapazes de conviver. Ali, filhos, eu entendi o perigo do ódio e a importância do diálogo.

Mas eu sabia que aquele governo também não estava tão certo. Eu lia os jornais, eu via as ruas. Não sei explicar muito bem, mas o modelo falhou e nós precisávamos de algo diferente. Mas aqui filhos, eu tenho que deixar uma coisa bem clara: certo ou não, aquele era o governo que 54 milhões de pessoas escolheram. E, filhos, nós temos que respeitar isso.

Eu estive aberta para ouvir. Eu queria entender o porque de ela e somente ela ser colocada como a causa de todos os nosso problemas. E eles me disseram, filhos, mas eu não me convenci. Eles votaram e explicaram os seus motivos. Mas eles não lembraram de mim durante a argumentação. Eles não lembraram dos negros, dos pobres, da periferia. Eles não lembraram das mulheres, dos gays, dos índios. Foi pelo Deus deles. Pela família deles. Eles não me explicaram o crime que julgavam.

Eles não explicaram por que o voto deles era mais importante do que o meu. Eles, que estão ali supostamente para me representar, fecharam os olhos, os ouvidos e gritaram: mas gritaram por eles. Ali, filhos, eu entendi que a democracia é construída e que não podemos simplesmente nos contentar em terceirizar essa tarefa.

Eles tiraram ela. Em 31 de agosto de 2016, Dilma Rousseff, a primeira mulher a ocupar o cargo da presidência do Brasil perdeu o mandato por 61 votos a 20 no Senado.

Enquanto escrevo, quem toma posse é um político que está inelegível por oito anos por ser ficha suja. Ele é o novo presidente do Brasil e não me perguntem como deixamos isso acontecer.

Dói, filhos, ver ela sair. Não porque eu admire tudo o que ela fez - longe disso. Sei dos seus muitos erros, mas também dos seus acertos. Dói porque depois de um período de 13 anos em que vigorou um projeto minimamente progressista, com preocupações de inclusões sociais, tão necessários em nosso País, não fomos capazes de produzir um legado forte o suficiente, ideológico e material, para reproduzi-lo, mante-lo, fortalece-lo.

No vagão do trem as pessoas estavam de cabeça baixa em seus celulares, olhos distantes e na mesma correria de um dia normal. Tinha fila na padaria. Trânsito nas ruas. As pessoas foram trabalhar. Foi um dia muito parecido como os outros.

Hoje, filhos, eu não ouvi nada. E é o silêncio o que mais me assusta. Eles não nos disseram o que deve acontecer, como vão solucionar nossas crises e o que farão com a corrupção. Eles negociaram entre eles, e só. Vai vir chuva forte por aqui, filhos, mas prometemos a nós mesmos que juntos conseguiremos seguir de cabeça erguida. Sem temer.

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