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Nerds e machismo: por que mulheres não são bem vindas nos fóruns e chans

Publicado: Atualizado:
MACHISMO
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Como e por que os chans e fóruns brasileiros se transformaram em centros de treinamento e incentivo à misoginia e ao machismo?

mulher
Card com orientações sobre o que fazer caso encontre uma mulher em um board

Eu sabia desde muito nova que eu era diferente. Não extraordinariamente diferente, mas um pouco off. Tinha a ver com a maneira como eu via o mundo, com meus interesses, com como os livros sobre temas considerados esquisitos ou chatos me interessavam mais do que a qualquer amiguinho. Eu tinha uns 7 ou 8 anos, lia sobre quadrinhos, aliens, RPG, Magic, Combustão Humana Espontânea, fiz um curso de HTML e ~webdesign~ aos 10. Em determinado momento, eu descobri: eu era nerd.

Com 'ser nerd', eu tinha todo o pacote de inadequação social, ansiedade e esquisitice gerais. É por isso que eu não entendi, quando comecei a frequentar espaços para nerds na internet, os chans e fóruns, lá pros 14 ou 15 anos, porque eu era tão odiada.

Veja, eu sabia que os meninos ali gostavam das mesmas coisas que eu e que entendiam como era ver a vida com aquele interesse que não cessa, uma curiosidade inquietante. Eu achava que tinha encontrado ali meus iguais. Mas eles chamavam mulheres de 'depósitos de porra' e diziam 'tits or gtfo' e eu logo me senti desconfortável sem conseguir explicar o porque e parei de tentar fazer parte. Se tiver estômago, leia esse verbete da wikinet, uma Wiki da cultura chan, chamado 'depósitos'. Um spoiler:

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Isso foi na adolescência, período pelo qual eu passei ainda sendo um pouco socialmente esquisita, mas bem mais adaptada. Por sorte, sempre gostei de gente e isso facilitou as coisas. Mas durante um tempo eu não superei o fato de que não era aceita em lugares cheios de gente que, eu pensava, eram tão parecidas comigo. Por ser mulher, eu tinha que provar que era realmente fã desse filme ou daquela série, e não só uma 'wannabe'. Por ser mulher, era só meu corpo que importava (no 'tits ou gtfo'), e não o que eu tinha a dizer. Por ser mulher, eu tinha que ouvir que eu não era 'como as outras' - as outras, minha mãe, minhas amigas, minhas primas. Eu era, sim.

Peitos ou ban
Minha experiência não é isolada. Minhas amigas com gostos parecidos têm, todas, relatos semelhantes. E é notório que a internet nerd é um ambiente bastante hostil para mulheres. Ok, a internet é um ambiente bastante hostil para mulheres, ponto, como é o mundo. Mas não me parece coerente: por que meninos tão jovens, frequentemente mais bem informados e ~cultos~ que a média, às vezes tímidos e socialmente inaptos - nerds, na definição - esquecem que mulheres são pessoas como eles? Porque ambientes com esses caras são tão ou mais hostis que outros ambientes na web?

"Mulheres eram vistas de duas maneiras diferentes nos fóruns: ou como oportunistas, para ganhar itens e regalias por exemplo, o que gerava revolta dos usuários, ou com desconfiança, como se fossem homens se passando por mulher para ter alguma vantagem. Foi quando vi iniciar os famosos 'manda foto com papel escrito o nome do fórum pra confirmar', o que virou 'peitos ou ban' hoje em dia... Não consigo imaginar uma mulher neste meio", contou um amigo que frequenta fóruns de games desde o mIRC e preferiu não se identificar, como várias das fontes nesse texto.

Ele me contou também que, com a chegada de apps de pegação, tipo o Tinder, a misoginia nesses espaços mudou um pouco de cara. Agora, rolam tópicos fixos em que os rapazes, depois de saírem com a garota em um desses apps, fazem uma resenha completa da experiência, com direito a 'badges' de acordo com o quão longe ele chegou e fotos da menina.


exemplo de post sobre meninas do Tinder (clique pra ver - 18+)

"Essa mina tá louca!"
Existe um problema com a presença da mulher em todos os espaços online. E não tem a ver com a personalidade do homem, mas com uma cultura da sociedade de isolar e excluir a mulher dos espaços públicos. A mulher, antes confinada ao ambiente domiciliar, passou a usar o espaço público no começo do século 20. E essa conquista não veio de maneira plena, mas foi meio esquisita: éramos divididas entre dois grupos, o das prostitutas e o das mulheres de família. Ou seja, as mulheres precisavam pensar e repensar mil vezes nos seus gestos, nas suas roupas, na sua maneira de se comportar na rua para não ser entendidas como prostitutas - ou como objetos públicos também.

Essa lógica é a que explica nossa falta de liberdade no espaço público, e a internet também é entendida como espaço público. Por isso, ela é transportada pra lá.

Por causa disso, nesses espaços, quando as mulheres se expressarem e questionarem esse essa lógica, elas serão hostilizadas. Porque estão discutindo privilégios, denunciando preconceitos e injustiças, exigindo direitos. Tudo que balança o status quo incomoda quem sempre viveu a vida sem ser incomodado. E daí vem todas a hostilização, as ameaças de estupros, as acusações de "essa mina tá louca".

A cultura machista dos chans
Conversei com o ex-moderador e co-criador de um famoso chan brasileiro. Para ele, a misoginia (ou seja, o ódio puro e simples) contra mulheres nesses espaços acontece porque esses homens não sabem se relacionar com elas. "Os usuários que fazem parte do 'clubinho secreto' são pessoas que têm uma péssima autoestima. Então não conseguem se relacionar bem com outras pessoas, quem dirá um relacionamento amoroso. Nesses imageboards, eles são anônimos, então se sentem à vontade para serem o que quiserem ser e falam com naturalidade o que ninguém em sã consciência falaria se fosse no Facebook", contou ele.

Gus Lanzetta, moderador do Orkutão dos Leleks, o grupo do site Lektronik no Facebook - e que não tolera machismo, homofobia e memes ruins, segundo ele - diz que a inaptidão social é o que leva esses meninos a odiarem tanto as moças. "Acho que é natural o ser humano ser hostil aquilo que lhe é estranho, né? Também acho que a pesada concentração de meninos nesses clubes do bolinha virtuais acaba criando uma identidade de grupo que muitas vezes não se combina com ter mulheres no meio e aí elas ficam sendo tratadas como forasteiras", acredita ele.

Espera aí. Quer dizer que os caras têm problemas em se relacionar com mulheres e acabam punindo as mulheres por isso?


Imagem retirada do verbete "depósito" da Wikinet

Nerds são mais machistas?
Alguém que já tem uma inaptidão social natural, especialmente com o sexo oposto, tende a a se refugiar em ambientes sociais online, onde essa insegurança e falta de auto-confiança podem ser mascaradas atrás da tela. Esse é o primeiro passo pra gerar comunidades nerds online em que mulheres sejam coisas tão distantes, em um primeiro momento temidas e reverenciadas e, em seguida, mais adiante quando a adolescência avança, odiadas.

"Claro que, hoje em dia, nem todo nerd é o anti-social estereotipado. Mas ainda tem muita gente que recorre a hobbies como válvula de escape pra problemas com bullying no colégio, na família ou com garotas. Os ambientes digitais são onde essas pessoas têm chance de conversar mais abertamente, tanto sobre o hobby como em off-topic. É um refúgio. Muitos caras que frequentam esses fóruns reproduzem no off-topic as impressões das dificuldades da vida real: que garotos populares são burros e as garotas são interesseiras", analisa Miriam Castro, jornalista especialista em games.

Esse texto, do Daily Beast, escrito por um moço nerd-dos-games, fala sobre como nos videogames, filmes ou quadrinhos, o prêmio do herói é sempre a mocinha linda e sem defeitos. A cultura pop sempre coloca a mocinha como o prêmio final do cara que faz tudo certo, que é legal, heróico, bem sucedido. Só que na vida real, mulheres são pessoas com vontades próprias (uau!), sem obrigação nenhuma de gostar de um cara por causa das conquistas dele ou do quão gentil ou prestativo ele é.

Essa noção, reforçada pelas obras de cultura pop, origina o machismo em eventos nerds e aquela baboseira sobre friendzone, a teoria mirabolante que diz que se um cara é legal com você, você é uma vagabunda se não quiser ficar com ele. De onde eu venho, a gente é legal com as pessoas por educação, não por querer que isso seja retribuído em favores sexuais. Você já parou pra pensar nisso?

nerds
"A princesa não te deve porra nenhuma"

A rejeição dos nerds
Não surpreendentemente, esses rapazes não apenas odeiam mulheres, mas também odeiam o feminismo. A justificativa óbvia é que o empoderamento de mulheres os ameaça. Mas acho que é legal mostrar como esses caras, especificamente, se sentem mais ameaçados que a média. Recentemente, um professor do MIT foi muito criticado pelo comentário que deixou em uma discussão sobre machismo e misoginia.

Ele disse que jovens nerds, como ele na adolescência, não se sentiam de maneira nenhuma privilegiados em relação ao sexo feminino, mas sim oprimidos, já que a verdadeira opressão para um jovem como ele era ter que falar com as mulheres e lidar com o desejo que ele tinha por elas. Segundo ele, isso gerava culpa, ansiedade e depressão.

E essa parece ser, de forma geral, uma batalha que muitos desses caras lutam - dá pra notar a mágoa nas entrelinhas desses discursos que chamam as mulheres de tantas palavras horríveis. Mas não dá pra igualar esse tipo de "opressão", esse conflito interno, com o machismo que a mulher sofre - a violência física, os salários mais baixos, a necessidade de se provar duplamente etc etc etc. Porque essa é uma auto-opressão: o nerd sem auto-confiança que não sabe lidar com as moças sofre, sim, mas por causa de algo que ele cria dentro da cabeça dele. E aí, algumas vezes, ele acaba odiando mulheres por isso, sem perceber que foi tudo feito dentro dele mesmo.

Medo imaginário, violência real
Além disso, toda essa ansiedade, a culpa e a auto-cobrança vêm do machismo. O machismo não é o contrário do feminismo. O feminismo em que eu acredito prega a igualdade entre os gêneros. O machismo é uma cultura de opressão que está nas bases culturais da sociedade. A crença subjetiva de que mulheres são seres inferiores não gera só todos os tipos de violência física contra as mulheres, mas também oprime psicologicamente os homens, que são obrigados a seguir uma cartilha bastante restrita pra provar que são masculinos - afinal, ter qualquer característica feminina seria uma vergonha, já que mulheres são inferiores. E é daí que deriva a homofobia, também, e todas aquelas besteiras que dizem que homem de verdade não chora e é um pegador nato, enquanto mulher é fofoqueira e não gosta de futebol.

Esse texto, do mesmo moço nerd-dos-games, fala disso. Ele diz que o medo e a ansiedade gerados pela incapacidade de lidar com o sexo oposto podem resultar em misoginia e ódio ao feminismo, que diz pra caras que nunca tiveram a sensação de ser privilegiado que eles o são. São medos válidos, sim, mas são assimétricos. Tem uma historinha que exemplifica bem. Perguntaram a um grupo de homens e de mulheres: o que você tem medo que o grupo do outro gênero faça? Os homens disseram: temos medo que elas vão rir da gente. As mulheres: temos medo de que eles vão nos matar. O medo que os homens têm é interno, e em alguns casos, inventado pela própria cabeça. Mas suas reações são externas, então o medo que as mulheres têm é externo. A violência é real.

(Edição: Bia Granja)

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