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Rafaela Silva nos ensina como resistir e como vencer o ódio

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RAFAELA SILVA
David Ramos via Getty Images
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"A carne mais barata do mercado é a carne negra" - Elza Soares

Essa mesma carne, antes chutada e escorraçada, é quem ganha a primeira medalha de ouro de nacionalidade brasileira nas Olimpíadas do Rio 2016.

Uma medalha que o Brasil não merece. E que vem de uma luta muito anterior à partida de judô desta segunda-feira (8).

Não foi uma vitória como outra qualquer.

Rafaela Silva é uma mulher negra nascida na Cidade de Deus, periferia do Rio de Janeiro. Ela faz parte da camada mais marginalizada da população brasileira e por isso serve de inspiração para todas aquelas meninas e meninos que sempre tiveram o "não" como regra e a falta de oportunidade como lei absoluta e inviolável.

Com uma história triste, cheia de obstáculos, injustiças e opressão, a atleta judoca conseguiu dar uma reviravolta incrível em sua vida nestes Jogos Olímpicos.

Nascida em 1992, Rafaela cresceu na favela, e o primeiro esporte pelo qual se interessou foi o futebol. Nesse momento o sexismo já a barrou de continuar treinando, porque não havia escolas de futebol para meninas na comunidade.

Preocupados com o futuro da filha, seus pais aproveitaram o interesse de Rafaela em esportes para inscrevê-la, junto com a irmã, nas aulas de judô do Instituto Reação - criado na Cidade de Deus pelo ex-atleta Flávio Canto.

Foi ali que a atleta descobriu seu dom para a luta. Para conseguir se especializar no esporte, Rafaela teve que recorrer a programas do governo federal de incentivo a atletas, como o Bolsa Pódio. Por isso, ela se tornou militar e hoje é terceira sargento na Marinha do Brasil.

Aos 16 anos, em 2008, ela ganhou uma das etapas da Copa do Mundo de Judô e tornou-se campeã mundial sub-20. Três anos depois ela levou prata nos Jogos Pan-americanos do México.

Mas o divisor de águas da vida de Rafaela foi 2012. Ela foi desclassificada na segunda rodada dos Jogos Olímpicos de Londres, por um golpe ilegal.

Não bastasse a própria frustração da atleta, ela sofreu inúmeros ataques racistas e misóginos de brasileiros na época, que afetaram seu lado psicológico.

Depois desse episódio, Rafaela sofreu depressão e quis abrir mão do esporte. Ela passou meses sem querer levantar da cama. Esse foi o resultado da violência que sofreu e sentiu.

A atleta conseguiu dar a volta por cima, com muito incentivo e apoio de sua família e de seu técnico, Geraldo Bernardes. Ela superou o trauma e continuou lutando, ainda melhor do que antes. Tanto que em abril de 2013 ganhou ouro no Pan Americano de Judô e em agosto se tornou a primeira brasileira a ser campeã mundial do esporte.

Agora, na Rio 2016 ela chegou com tudo, ao lado das demais atletas brasileiras, para mostrar de uma vez por todas a força, garra e competência das mulheres esportistas.

Chega daquela história de que esporte não é coisa de mulher. Chega daquela história de que pobre não pode ser campeão olímpico. Chega daquela história de que este ou aquele esporte não é para pessoas negras.

Rafaela muda a história com uma vitória extremamente simbólica em cima da judoca mongolesa, Sumiya Dorjsuren, então líder do ranking mundial.

E quem lhe assistia na arena olímpica? Não, não era a população da Cidade de Deus.

As pessoas que estavam ali são as poucas que têm o privilégio de pagar pequenas fortunas para ver os Jogos Olímpicos pessoalmente. Fazem parte da elite e classe média majoritariamente branca do País.

Para ter parte de sua família ocupando aquele espaço e perto de si, Rafaela teve que pagar os ingressos. E eles tiveram que pegar um ônibus que os levou da margem para o centro.

As arquibancadas, portanto, eram brancas. Mas a força e o brilhantismo na arena era negro.
Negro, periférico e de uma mulher lésbica. Três condições tão subjugadas e oprimidas nesta sociedade brasileira demasiadamente desigual.

Rafaela Silva nos faz lembrar que os jovens das periferias precisam, sim, de políticas públicas que olhem para eles. Precisam de cuidado, incentivo e portas abertas.

Nos faz lembrar que a favela existe -- e resiste -- com pessoas tão incríveis como quaisquer outras.

Ela teve o prazer de levar ouro dentro de casa. Uma casa que certa vez a humilhou e a chamou de macaca - no mais escancarado grau de racismo.

Desculpas não serão suficientes, mas hoje esta casa se curva diante de sua força e habilidade sem igual.

Uma força que com certeza se enquadra muitíssimo bem na tal representatividade, e dá um gole de vida, fôlego e esperança para aqueles que se enxergam em Rafaela.

Ela nos mostra como é vencer o ódio. Como é seguir seu caminho mesmo que o mundo diga que aquele não é o seu lugar.

Com toda sua luta, Rafaela nos diz: "Continuem resistindo".

LEIA MAIS:

- Rafaela Silva: Do racismo e depressão ao OURO olímpico na Rio 2016

- Atletas militares ou bolsistas? Como o Brasil formou uma rede de incentivo para conseguir medalhas na Rio 2016

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