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Um livro sem palavra estimula a leitura? Sim!

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BOOKS KIDS
Wavebreakmedia via Getty Images
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Estava eu, entre uma apresentação e outra de narração de histórias, numa biblioteca de um CEU aqui em São Paulo. Fico fuçando as prateleiras e vendo o que acho de interessante por ali. Aproveito para descobrir novos autores e ilustradores e velhas publicações esquecidas pelos cantos.

Escolhi um livro de contos africanos e sentei-me numa das mesinhas baixas que havia. Era intervalo entre um turno e outro e fiquei feliz de ver as crianças que esperavam pelos pais ou aquelas que chegavam mais cedo lerem e se divertirem no espaço da biblioteca.

Logo vieram duas garotinhas animadas sentar-se na mesa comigo. Cada uma trouxe um livro. Elas deviam ter uns 9 anos e estavam no terceiro ano. Uma delas começou a ler em voz alta o livro Bruxa, Bruxa, Venha à minha Festa, de Arden Druce, um clássico nas bibliotecas e no gosto da criançada.

Lia bem, com uma certa desenvoltura. A colega também resolveu se exibir e logo começou a ler também em voz alta. Confesso que não me lembro qual era o livro dela, tão instigada fiquei pela sua leitura. Era um livro com mais volume de texto do que o escolhido pela amiga. Ela lia com uma dificuldade tremenda.

"A me me me n n n ni ni ni n n n na nana e e e es es t t t ta ta ta v v v va va va..." e a coisa ia por aí. Claro que quando acabava o período que tinha "lido" ela não havia entendido nada. Mas a menina era guerreira e não se abalava. Seguia na sua "leitura" sem perder o rebolado. Fiquei tentando pensar em algo para ajudá-la naqueles breves minutos em que estaríamos juntas.

Lembrei-me que trazia comigo o meu livro Pedalando, Pedalendo, Pedalindo que é um livro de imagens, ilustrado por Ivo Minkovicus e editado pela Rolimã, que fala justamente da dificuldade em se aprender algo novo e do quanto precisamos de curiosidade, desejo, ajuda e treino para alcançar uma nova aprendizagem.

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Neste livro faço uma comparação com a dificuldade de ler e andar de bicicleta. (tive uma dificuldade enorme em andar de bicicleta e a história foi inspirada nessa experiência). Apresentei o livro e disse:

- Acho que este você vai ler superbem!
A amiga olhou e logo retrucou: - Mas não tem nada pra ler...
Ao que eu respondi prontamente: - Claro que tem! A gente também pode ler figura. Você não sabia?

A menina que tinha dificuldade de leitura se iluminou! Pegou o livro e começou a folhear as páginas. Eu disse que ela deveria ler como uma contadora de histórias. Não só descrevendo o que tinha na imagem, mas dando sabor. E ela desenvolveu um texto incrível, cheio de riqueza e poesia. Só que ela ia "lendo" as imagens assim: - E ra u-ma vez u-ma me-ni-na que es-ta-va an-dan-do de bi-ci-cle-cle-ta..."

Pensei em dizer que ela poderia deixar a palavra fluir, não precisava falar aos soquinhos, mas achei que poderia inibi-la e resolvi deixa-la na sua leitura fragmentada, mas criativa. A outra se animou e quis ler também. Cada uma lia uma página. O texto da que sabia ler melhor era mais pobre, mais linear. O da outra era mais rico e poético.

Aprender a ler pode parecer um passo atrás. A linguagem está dominada quando se dá o processo de alfabetização. A criança está com um rico vocabulário, desenvolta na sua comunicação e se vê lendo frases curtas, palavras repetitivas e, às vezes, sílabas soltas sem nenhum significado.

Fiquei imaginando que, se eu tivesse tempo, gravaria a garota contando a história e depois pediria para ela ouvir e escrever o que tinha criado. Tenho certeza de que ela iria se surpreender com sua história e com o prazer de escrever suas próprias palavras.

Quem sabe essa brincadeira não a ajudaria a encontrar o fluxo da leitura?

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