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Lobo bom ou lobo mau? Qual deles habita o seu interior?

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BOOK KIDS
Popmarleo via Getty Images
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"Dentro de mim existem dois lobos. O lobo do ódio e o lobo do amor. Ambos disputam o poder sobre mim. Qual vence? Aquele que eu alimento!" (velho indio)

Fascínio e pavor. É isso o que tenho visto nos olhos brilhantes das crianças sempre que eu narro uma história de lobo. E lá se vão mais de 15 anos.

A verdade é que eu não gosto muito de histórias que colocam o lobo bonzinho no final, dividindo o lanche com a chapeuzinho e a vovó. Gosto quando ele ocupa o lugar da sombra, temida e desejada. As crianças se decepcionam um pouco quando o lobo é ou fica bonzinho.

Mas o lobo guardião, protetor é diferente do lobo bonzinho. Várias histórias antigas nos trazem este lobo que cuida, que provê: Romulo e Remo, O Livro da Selva (Mogli) de Rudyard Kipling. Outro livro que também nos traz esta possibilidade é Lobo Negro, de Antoine Guillopé (Melhoramentos). Ele encanta qualquer um, seja criança ou adulto. O livro propõe uma narrativa tensa, só com imagens: um menino caminhando sozinho numa floresta, na neve, com um lobo sempre à espreita. No final uma surpresa provoca suspensão e depois alívio.

Porém, o arquétipo mais conhecido é o do lobo devorador que podemos encontrar em histórias como Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, O Lobo e os Sete Cabritinhos. Este lobo que engole pode simbolizar, no ponto de vista junguiano, a mãe que "devora" o filho, cerceando-o e impedindo-o de crescer. Pode ser também um mestre que ensina as "maldades" e malandragens da vida para que possamos amadurecer, ficar mais espertos, capazes de reconhecer o que nos faz mal e aprender lidar com isso.

Foi pensando nessa riqueza de informações sobre o Lobo que nasceu meu projeto "Quem Tem Medo do Lobo Mau?", realizado através PROAC Edital do Governo do Estado de São Paulo de criação literária para crianças. O fato é que eu não queria apenas usar minhas referências, então me propus a me reunir algumas vezes com três grupos distintos de crianças, adolescentes e jovens para me inspirar.

Contei histórias de lobo, conversamos sobre as histórias que eles já conheciam, pesquisei e levei informações sobre o animal, tanto sobre seu tamanho, comportamento, como a mítica em torno dele. Os lobos são inteligentes e têm uma hierarquia dentro dos seus grupos. Protegem-se, cuidam uns dos outros.

Uma foto ficou famosa na rede e parecia nos dar uma lição:
2016-06-24-1466768458-4310517-filadelobos.jpg

http://br.blastingnews.com/ambiente/2016/01/por-que-todos-estao-falando-da-foto-de-uma-alcateia-de-lobos-caminhando-sobre-a-neve-00732345.html

Com estas provocações, cada grupo criou sua história coletiva. Durante o processo me vieram algumas imagens para criação da minha história que joguei na roda para ver onde poderiam chegar: uma menina que acorda e vê que sua sombra agora é de lobo. O mais interessante é que nos três grupos apareceu o desejo de uma interação entre luz e sombra. Uma parceria entre o lado devorador e destruidor e o lado protetor e criador. Eles criaram histórias malucas e divertidas.

Levei também para os encontros um livro que tem um aspecto destrutivo, o qual causou enorme furor com a criançada: Os Lobos Dentro das Paredes, de Neil Gaiman (Editora Rocco). Uma situação no mundo urbano e atual que promove uma reflexão interessante sobre este medo escondido e tão próximo, pronto para sair e atacar.

Foram momentos muito divertidos, instigantes e produtivos. Finalizei meu projeto criando a história que você pode ouvir clicando no link abaixo.

Ouça a história Eu, Lobo
Depoimento sobre o projeto

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