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Não tenha medo de recomeçar a trama da sua vida

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ZenShui/Michele Constantini via Getty Images
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Quem conta um conto aumenta um ponto... Os termos ligados ao universo da tecelagem sempre estiveram relacionados com as histórias. Muitos contos de fadas foram urdidos e propagados por aquelas que fiavam, teciam e bordavam. Seus sonhos, medos e anseios estavam ali retratados e eram tramados, enquanto trabalhavam. Bordavam possibilidades e a cada repetição outros pontos eram acrescentados ou modificados. E para não perder o fio da meada, hoje vou falar sobre linhas, agulhas, histórias e vínculos.

Minha avó me contava que sua mãe, minha bisavó, dizia sempre "se está sem fazer nada, vá pegar uma meia para cerzir". Mãos ocupadas, mãos produtivas, mãos mágicas que fazem brotar casacos, cachecóis, toalhas, vestidos...

A intimidade com linhas e agulhas começou cedo na minha vida, graças às minhas avós. Quando operei as amígdalas e tive de ficar em casa me recuperando, minha avó materna me deu um jogo de guardanapos e toalhas para bordar com temas natalinos e me ensinou os primeiros pontos. Depois me ensinou tricô, tapeçaria, um pouco de costura. A outra avó me ensinou crochê. Ainda tive uma tia-avó, irmã de meu avô paterno, que era artesã e me ensinou a manusear alguns tipos de teares.

Assim, desde cedo, minha vida esteve repleta de lãs, linhas coloridas e muita paciência. Paciência das avós que seguraram em minhas mãos me ensinando como pegar na agulha e comandando junto comigo os primeiros pontos. Paciência minha, que tive de me contentar com os primeiros trabalhos todos irregulares e meio grosseiros de acabamento. Que tive muitas vezes de desmanchar carreiras para refazer um ponto errado.

Essa sabedoria que nos é oferecida pelas linhas e agulhas, às vezes não é incorporada na vida: saber que podemos refazer, que o erro pode ser corrigido. A velocidade das possibilidades tecnológicas (maravilhosas, por sinal!) talvez tenham tirado um pouco esta boa vontade com o trabalho de refazer algo. No tempo da máquina de escrever, quando não podíamos apagar, e sim datilografar tudo de novo (a página inteira!), tínhamos, talvez, mais concentração. Quando na faculdade tínhamos de usar a lapiseira, esquadros e curvas francesas para fazer o desenho de precisão, dedicávamos horas a cada desenho. E o exigente professor cobrava um traço absolutamente homogêneo do início ao fim da linha, com a mesma espessura, a mesma intensidade do grafite...

Os tempos agora são outros e as ferramentas nos ajudam e muito. Mas perde-se algo. Perde-se esse gosto pelo que foi feito pelas próprias mãos, com a habilidade manual. Minha letra, minha assinatura. O que é feito à mão é irregular e é aí que reside sua beleza. Isso é o que distingue algo feito à mão de algo feito pela máquina.

Mas, além desse aprendizado da paciência e obstinação, acima de tudo o que fica desses momentos é o vínculo entre aquele que ensina e aquele que aprende. As agulhas fazem uma costura que está além das linhas... Conversas são tecidas, os pontos nos aproximam e alinhavam as histórias de família que surgem entre os dedos.

Muitas histórias nos trazem esse tema e ajudam em reflexões profundas sobre a vida. Afinal, o que é viver senão tramar o grande tapete da existência, escolhendo as cores, paisagens, caminhos? E desmanchando, de vez em quando, um pedaço que não saiu muito bom ou quando tecemos uma imagem idealizada e nos surpreendemos quando descobrimos o que está por trás do nosso olhar enganador. É assim no conto "A Moça Tecelã", de Marina Colasanti. Ouça aqui a narração dessa história

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Na mitologia grega há, pelo menos, dois exemplos: Aracne e sua mestra Palas Atena nos fazem pensar sobre gratidão àquele que nos ensina e que nos faz descobrir um dom. E na Odisseia de Homero, Penélope (imagem acima) surge com sua eterna tapeçaria tramada de dia e desmanchada de noite, enquanto espera seu marido, Ulisses, que ela tem certeza que voltará. Assim ela tece seu destino, sem deixar que os outros o tomem de suas mãos.

Desmanchar, às vezes, é melhor do que continuar tecendo com pontos errados. Termino essa reflexão com um conto judaico simples que adoro.

O Vestido que não Serviu
Histórias do Rabi - Martin Buber (Ed. Perspectiva)
O rabi Mosché gostava muito de contar essa história:

Um alfaiate confeccionou um luxuoso vestido para a esposa de um alto oficial. Como o vestido não servisse, o alfaiate foi expulso da casa. Procurou então o Rabi de Kobrin e pediu-lhe que o aconselhasse como proceder a fim de não perder toda a clientela nobre.
- Volta lá - disse o tzadik. - E te oferece para reformar o vestido. Depois desmancha-o e arma novamente as partes tais como se apresentam.
O homem assim procedeu. Tímida e humildemente, refez o trabalho que havia estragado antes, com sua orgulhosa segurança, e desta vez deu certo.

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