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A censura na escola que oculta a reprodução ideológica

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Toda prática educativa implica na existência de sujeitos que, apesar de suas diferenças - ou melhor, justamente por causa de suas diferenças, ensinam e aprendem coisas diferentes um com o outro.

A prática educativa implica também na existência de objetos, ou seja, os conteúdos a serem ensinados e aprendidos; e envolve também o uso de um conjunto de métodos, técnicas e materiais necessários ao ensino.

Mas um grande ponto, frequentemente negligenciado, é que a educação implica também em um objetivo: você aprende isso para quê? Para fazer o que com o que aprendeu?

É justamente neste ponto dessas quatro dimensões da relação educativa, que inclui sujeitos, objetos, métodos e objetivos, que a podemos identificar a função diretiva da educação. É aí que estão os ideais, os fins, os sentidos e mesmo os sonhos presentes na ação de educar.

Daí o equívoco daqueles que imaginam que a forma de lidar com ideologia na escola se concentra na restrição à liberdade de expressão do professor. A suposição é que, controlando os conteúdos da grade curricular, o ensino está neutro.

Contudo, ao desconsiderar as outras dimensões, a relação entre os sujeitos pode se tornar ideologicamente autoritária; o método pode manter-se ideologicamente conservador, retrógrado, antiquado, desconectado da história; e o objetivo fica oculto, não-dito.

Não é que não há objetivo. Ele só não é claro, manifesto.

E como sabemos, o estímulo à reprodução de ideologias é muito mais poderoso quando se oculta nas práticas, em vez de se revelar.

Às vezes os alunos percebem intuitivamente que os objetivos são mesquinhos. É quando eles fazem a pergunta: professor, para quê eu estou estudando isso? Qual o sentido de estudar isso?

Nem sempre a escola tem uma resposta convincente para explicar os objetivos de seu projeto político-pedagógico. Às vezes porque não parou para pensar sobre isso e, frequentemente, porque sequer discutiu o projeto com professores e alunos. Estuda porque está no currículo. Estuda para passar de ano. Estuda porque tem que estudar. Estuda porque está no livro.

É por isso que Paulo Freire observa que a educação nunca é neutra, justamente por esse caráter diretivo; porque permeando o conteúdo daquilo que se ensina, permeando o método, permeando a natureza da relação entre os sujeitos - é uma relação autoritária, liberal, conservadora, progressista? - permeando todas as dimensões da educação, sempre há um objetivo.

E quanto menos manifesto, quanto menos os alunos conhecerem os princípios da escola e do corpo docente - ou, em outras palavras, quanto mais censura à liberdade de expressão na escola, mais a reprodução ideológica se mantém oculta.

Veja mais no vídeo:

Conheça a série de vídeos Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire

LEIA MAIS:

- Luta em defesa dos educadores é pedagógica

- Ensinar exige bom senso

- Não é papel da educação submeter-se à realidade

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