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Visibilidade, revistas feministas e empoderamento

Publicado: Atualizado:
VOGUE MAGAZINE
Christian Vierig via Getty Images
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Duas revistas, dois posicionamentos diferentes quanto ao tratamento dado as mulheres que aparecem em suas edições. De um lado, uma revista de sucesso internacional que nomeia, todos os anos, uma mulher que tenha realizado feitos que possam contribuir para o empoderamento feminino. Do outro lado, outra publicação de alcance e prestigio internacional, concorrente direta, anunciando uma decisão editorial controversa. As duas têm em comum o desejo de acompanhar os novos tempos.

A tradição da famosa revista Glamour é escolher uma mulher de talento para nomear de "Mulher do Ano". Para ser nomeada, é preciso ter feito algo de extraordinário pelos direitos das mulheres. Acontece que a publicação está causando grande polêmica e debates acirrados entre as feministas de diversas vertentes e teorizações pelas suas últimas três escolhas. Em 2014, nomearam a atriz transexual Laverne Cox, fato celebrado na comunidade LGBT e também por feministas. Em 2015, a nomeada foi Caitlyn Jenner, outra mulher transgênero, que ainda assim foi comemorado pela visibilidade dada a essa minoria (de pessoas trans), mas que causou algum desconforto, por ser o segundo ano seguido em que a escolha recaiu sobre uma mulher transgênero.

Mas a escolha de 2016 foi a que causou o maior estrago entre o público da revista (e também a quem não a lê mas reconhece a importância de se dar destaque as mulheres). A glamour decidiu eleger o vocalista da banda U2, Bono Vox, como a personalidade homenageada pela revista. Feministas de praticamente todas as vertentes, mesmos as mais liberais, que aclamaram a decisão de nomear mulheres transgênero, se mostraram ferozmente decepcionadas. Algumas, inclusive, questionam porque a revista não homenageia mulheres biologicamente nascidas há três anos consecutivos, que seriam, a priori, o foco da publicacão, já que a segurança desse grupo, que constitui metade da populacão humana, tem sido negligenciada por milênios.

A explicação da Glamour não foi satisfatória para a maioria das feministas. A revista publicou que a decisão foi tomada para homenagear um dos muitos homens que lutariam tanto pelos direitos das mulheres como muitas das principais líderes do movimento e que a homenagem era uma espécie de incentivo para que outros homens se engagem na luta por equidade entre os sexos.

Para as feministas que reclamam da nomeação, a inciciativa pode produzir um efeito devastador no movimento: o de "validar" a luta somente através de atitudes de homens famosos, o que faria com que as líderes atuais fossem descartadas como supérfluas.

O temor das feministas não é algo desvairado. Muito se fala, dentro do movimento, de grandes ativistas que têm vindo a teorizar, escrever, publicar e debater sobre o feminismo e suas demandas, para serem aviltadamente desacreditadas com argumentos falhos, de falsa simetria. Com muita violência, elas são constantemente silenciadas ou ameacadas por exporem a cultura do estupro e as ferramentas de controle do sistema patriarcal. Mas basta um autor homem se posicionar a respeito do feminismo para que o assunto saia do campo das "ideias ridículas" e chegar no campo das "ideias brilhantes".

Acontece o tempo todo. No Facebook, volta e meia aparece um "textão" escrito por um homem que fala exatamente sobre algo que grandes teóricas do feminismo vem dizendo há séculos - literalmente. Mas enquanto esses homens recebem aplausos e visibilidade por compartilhamentos, as mulheres recebem ameaças de morte e de estupro por se posicionarem contra um sistema que as oprime.

No meio da polêmica decisão da Glamour, outra revista feminina anuncia outra iniciativa controversa que está atiçando ainda mais os ânimos. Para alguns, é uma medida revolucionária. Para outros, reacionária. A Vogue, em busca de um projeto editorial que reflita os novos tempos, declarou que, a partir das próximas edicões, não mostrará mais fotografias femininas com decotes ousados que exponham seios apenas "para o deleite de homens".

Feministas que acreditam que o empoderamento pessoal deve ser a maior luta feminina da atualidade estão indignadas com a decisão. Elas acreditam que a medida é um retrocesso, uma volta a um passado não muito distante, onde as mulheres eram paradas nas praias e tinham seus maiôs medidos por homens para verificar se a indumentária estava de acordo com a lei, obedecendo ao tamanho considerado "decente".

Contudo, essa não parece ser a real intenção da Vogue. O objetivo da medida, segundo a autora de um artigo, é parar de mostrar as mulheres de forma hipersexualizada e, com isso, evitar a enxurrada de abuso verbal que elas frequentemente recebem, principalmente nas redes sociais, relativas ao seu corpo.

Segundo o jornal britânico The Independent, o artigo se chama "Acabou o decote: os peitos não ficarão mais disponíveis para os rapazes", tradução livre de "cleavage is over: the tits will not be out for the lads". No texto, a estilista Elizabeth Saltzman afirma que a nova tendência, que deverá focar em mostrar costas, ombros, barriga e pernas femininas (cobertas ou não) surgiu especificamente devido a "creepy comments online" (comentários online assustadores/bizarros). A profissional da moda explica que algumas das mulheres fotografadas pela Vogue recebiam enxurradas de comentários. Uma delas, de grandes seios, chegou a receber mais de 100 mil comentários. Quando a revista os checou, cerca de 90 mil falavam apenas sobre os seios dela de forma terrivelmente desrespeitosa.

O desafio, agora, é saber como lidar com essas duas decisões editoriais tão polêmicas. Toda história tem ao menos dois lados. Fica a dúvida sobre quais os reais efeitos dessas medidas na luta pelos direitos das mulheres. Representatividade e visibilidade são ótimos... mas como ficam as mulheres quanto a decisão de se nomear Bono Vox como Mulher do Ano? Será que não é o tipo "errado" de visibilidade? Quanto a Vogue, a falta de "visibilidade" de seios em suas próximas edições poderá ajudar a combater a cultura do estupro, retratando mulheres como homens são normalmente retratados, ou seja, focando em talento em vez de corpo? Só o tempo dirá.

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