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Sobre 'childfree' e a intolerância crônica com crianças

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CHILD TANTRUM
Turner-Art via Getty Images
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Um restaurante de São Paulo exibe em sua página numa rede social que o estabelecimento não permite a entrada de animais de estimação nem de crianças e gera grande polêmica (polarizada, como se tornou costume no Brasil) com a atitude. De um lado, estão os que aprovam a ideia com louvor, e do outro, os que acreditam que a medida é discriminatória.

Entre as razões para apoiar o restaurante estão argumentos altamente questionáveis, como "crianças fazem muito barulho", ou "adultos têm o direito de se sentir incomodados com crianças", ou pior ainda, "adultos precisam de lugares livres de crianças".

Sempre que me deparo com argumentos assim para se falar das crianças, eu procuro trazer alguns pontos de vista que tenho encontrando pela internet. O primeiro deles e mais importante é: por que as crianças incomodam?

É o barulho que elas fazem com gritaria? E por que elas estão gritando? Elas estão brincando, estão fazendo birra? Estão pulando? Estão correndo? Atirando comida nos outros? Espetando alguém com garfos?

Se isso tudo está mesmo acontecendo, o que pode estar acontecendo com essas crianças? Estão entediadas, cansadas, com fome (por que a comida delas ainda não chegou?)? Alguém se preocupou em prover distração para essas crianças toparem um momento mais sossegado?

Se não, por que crianças brincando incomodam tanto? No tal restaurante, por exemplo, estão tendo ali reuniões importantíssimas que estão decidindo o futuro da nação? Em todos os momentos em que o restaurante está aberto, estão ali casais em crise resolvendo seus problemas?

Todos os dias, todas as pessoas que querem frequentar esse restaurante estão ali porque queriam estar num local absolutamente silencioso (eu questionaria se não era melhor ir para uma biblioteca, mas enfim)? Ou estão apenas comendo? Crianças também não comem? Outra coisa, adultos também conversam. Adultos brasileiros, inclusive, falam bem alto, riem bem alto. Só porque riem sentados não quer dizer que não estão incomodando também. Por que só as crianças?

Outro ponto é a possível comparação de crianças com pets. Por mais bagunceiras que as crianças possam ser, elas não vão fazer cocô ou pipi no chão do restaurante. Vocês conhecem assim tantos casos de crianças que morderam clientes de restaurantes?

Por mais que os pais deixassem as crianças soltas, que geração de adultos é essa para a qual a simples visão de crianças (mesmo que elas não estejam brincando de forma livre) já fica incomodada?

Recentemente, vi uma matéria sobre uma empresa chamada Patagonia, que possui um sistema de trabalho que beira ao co-working, com uma creche no local. Esse sistema permite que os pais possam visitar os filhos o dia todo na creche, possibilitando que os homens vivenciem uma paternidade ativa, e que 100% das funcionárias mulheres permaneçam no mercado de trabalho.

Um ponto interessante que a matéria ressaltava nesse assunto era de que a presença de crianças tornava o ambiente de trabalho muito mais civilizado, porque no geral as pessoas se contêm mais na frente delas. Será essa uma das reais razões pelas quais existem locais que não deveriam estar excluindo crianças mas estão? Que, aliás, é contra a lei, porque é proibido fazer discriminação de faixa etária...

O que me leva a mais um ponto para questionar: se não podemos dizer que em tal local é proibida a entrada de negros, mulheres, judeus, gays, idosos etc, por que a sociedade se sente tão confortável em dizer que determinados locais não permitem crianças? Uma coisa seria um casal, ou até mesmo uma pessoa solitária, estar tentando conversar em um restaurante e uma família ao lado estar sendo tão ruidosa, por causa das crianças, que os incomodados peçam para mudar de mesa para que possam conversar sem interrupções. Mas nada, absolutamente nada, justifica adultos verem crianças e imediatamente assumirem que qualquer criança vai arruinar o seu jantar e que, por isso, elas precisam ser proibidas de frequentar o estabelecimento.

As crianças, vejam bem, já quase não possuem espaços na nossa sociedade. Nós temos os filhos, e depois eles têm de estar escondidos do mundo até virar adultos. Pode perguntar a qualquer um: crianças já não são aceitas na maioria dos espaços. Quem nega isso é desonesto. Até espaços feitos para crianças estão em constante risco de serem tomados delas.

Quando a continuação do filme dos peixinhos saiu, dessa vez Procurando Dory, houve comoção no mundo virtual quando jovens adultos (que eram crianças quando viram Procurando Nemo) decidiram publicar discurso de ódio nas redes, ameaçando chutar crianças que fossem assistir à animação.

Já estive em restaurantes com outras mães que ficaram constantemente ralhando com meus filhos por eles estarem brincando no espaço infantil do restaurante. Quando chamei meus filhos para perto de mim e pus brinquedos na mesa para que eles esperassem a comida deles, também ralharam com meus filhos porque mesa não é lugar de brinquedo.

Já levei meus filhos para ver um desenho animado no cinema às 3 da tarde e um homem se aproximou de mim para que eu lhe garantisse que meus filhos não iam incomodar a família dele, justificando o pedido com: minha esposa tem pavor de crianças. Essa família tinha duas meninas pré-adolescentes. Quando me abordou, estávamos ainda nos trailers - o filme não tinha começado ainda. E meus filhos estavam sentados ao meu lado. Não correndo, nem pulando, nem gritando.

Já estive passeando com meu filho pequeno, andando atrás dele para garantir a sua segurança, mesmo andando na calçada, e uma mulher me parou para exigir que eu pusesse uma coleira de crianças no meu filho. Eu podia até concordar se eu estivesse cheia de bolsas num supermercado. Mas ali, numa calçada, onde eu saí totalmente preparada para estar apenas ali para ele, qual a necessidade?

Que mundo estranho é esse onde crianças não são mais seres humanos em formação, mas um grupo perigosíssimo do qual temos que nos preservar, temos que manter a distância, e muitos, pasmem, bradam pelo direito de dizer que as odeiam? Vamos combinar? Não é legal dizer que se odeiam negros, gays, idosos. Então também não é legal dizer que se odeiam crianças.

Ninguém precisa ser pai ou mãe se realmente não quiser (tirando, é claro, o fato de que nenhum método contraceptivo é 100% eficaz). O princípio aqui é: quem não quer ter filhos previna ao máximo. É direito das pessoas não querer filhos. Mas isso não dá a ninguém o direito de dizer que odeiam seres humanos em formação. Vocês também já foram crianças, ninguém nasceu Benjamin Button.

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