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A atual crise política é (muito) machista também

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Laurent Hamels via Getty Images
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Faz uma semana que a presidenta Dilma Roussef está impedida, por 180 dias, de exercer as funções para as quais foi reeleita em 2014.

Nesse curto período, o governo interino tem tomado medidas que vão contra conquistas importantes no campo dos direitos humanos. A era Temer começa caracterizada por uma ausência gritante de mulheres no primeiro escalão.

O Brasil acabou batendo um pequeno recorde: no momento, é o único País da América Latina sem nenhuma representação feminina nos Ministérios.

Mas a vertente machista do nosso desgoverno vem muito antes disso. Tem início na desigualdade geral. No fato de que alguns países com maioria muçulmana, por exemplo, onde mulheres não podem dirigir ou mostrar os cabelos em público, têm mais representatividade feminina no governo do que o Brasil.

No fato de que a presidente eleita foi execrada no seu desfile de posse por ser considerada velha, gorda e feia. Seu vestido de renda, vestindo o corpo de uma senhora de idade que foi torturada na juventude e que já tinha enfrentado uma batalha recente contra um câncer, foi comparado às capas de bujões de gás. Sua vida sexual foi questionada por não desfilar com um homem ao lado, tendo "apenas" a sua filha adulta.

No fato de terem criado um adesivo para se colocar no tanque do carro, com a presidente parecendo estar de pernas abertas, para ser "estuprada" pelo cano da bomba de gasolina. No fato de que, desde a redemocratização, foram feitos vários pedidos de impeachment de praticamente todos os presidentes eleitos, inclusive de Lula e FHC, mas que nunca foram levados a sério porque eles eram homens.

No fato de que Eduardo Cunha somente aceitou um dos muitos pedidos de impeachment contra Dilma porque esta teve papel importante em eliminar o esquema de corrupção de Furnas, e quando as denúncias chegaram a ele, a presidenta se recusou a blindá-lo. E ele então se agigantou e aceitou o impeachment da presidente porque ela não quis fazer mais acordos que ganhou até mesmo de Lula. Por que só agora? Porque ela é mulher. Homens têm mania de se agigantar perante mulheres.

No fato de que o próprio presidente interino se ressentia de ser um vice decorativo, enquanto a maioria das mulheres vive toda a sua vida sendo decorativa e sem direito a reclamar. Mas um homem não pode ser decorativo. Um homem não pode ser governado por uma mulher. Um País não pode ser governado por uma mulher porque as mulheres não recebem a mesma educação, formação, criação que os homens. Elas não teriam a mesma capacidade deles de ser visionários.

No fato de que a esposa do presidente interino, Marcella Temer, foi considerada "mulher de verdade" por ser "bela, recatada e do lar". E no fato de que a mesma pode integrar o governo interino na condição de assistente da área social por nepotismo e à sombra do marido, porque se fosse por merecimento ela nunca chegaria lá, na visão machista.

No fato de que Dilma foi notificada pela justiça para esclarecer porque usa a palavra golpe para se referir ao impeachment. Uma forma clássica de silenciamento das mulheres. Bolsonaro homenageou torturador e ninguém fez nada.

No fato de que, depois do afastamento da presidenta, está claro que a luta das mulheres regrediu com a extinção do Ministério das Mulheres, com a nomeação de mulheres somente para secretarias (quantos filmes Hollywoodianos a gente conhece com mulheres secretárias de grandes executivos?). Com a redução de recursos para programas como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida, que têm como principais beneficiários as mulheres que são mães solo, negras e das periferias e cantões. É como se essas últimas estivessem quase sendo punidas por não ter um marido.

No fato de que o aborto é ainda uma questão não só tratada nos grandes círculos de poder apenas por homens brancos e heteros, mas também no fato de que o atual governo quer chamar a igreja para discutir o assunto, mas não a mulheres.

É até mesmo pelo fato de que o novo ministro da saúde dizer que é preciso reduzir o tamanho do SUS e incentivar a aquisição de planos de saúde.

No cenário obstétrico brasileiro, prevalece desde os anos 70 a figura do médico que trata a gestação como uma doença a ser resolvida com uma cesária, apesar da pesquisa da Fio Cruz publicada em 2014 revelar que mais de 70% das brasileiras preferem ter um parto normal, e apenas 10% das que querem conseguem um. No mundo da humanização do parto, onde sou micro-ativista, moderando grupos de mães no Facebook para promover rodas de gestantes, todas sabemos que as chances de parir com convênio médico são mínimas.

Para as gestantes que não têm recursos financeiros para pagar uma equipe de parto humanizado, nós indicamos o SUS. Nos planos de saúde, quase não se encontram profissionais (obstetras, obstetrizes, enfermeiras obstétricas) para atender partos. A cirurgia desnecessária e sem indicação rola tão solta em vésperas de feriados nos hospitais brasileiros que o país não conseguiu ainda alcançar as metas da OMS de reduzir a mortalidade materna, devido aos índices aumentados de óbitos decorrentes das cesarianas eletivas.

O que nos deixa com a nítida impressão de que a vida da mulher brasileira não vale nada. Estamos encaminhando para um feminicídio sem precedentes e, como sempre, estamos de mãos atadas.

Porque por mais que hajam protestos presenciais em todos os lugares, e reparem, muitos deles são apenas de mulheres atualmente, tamanha é a gravidade da situação, ainda há não somente governantes homens, brancos e heteros nos dizendo o que fazer, mas também os nossos pares, as nossas amigas com quem temos contatos nas redes sociais, nos criticam por lamentar a extinção do Minc e a falta de mulheres no governo porque há assuntos mais importantes, como a saúde e a educação.

Como se a saúde e a educação também não tivessem sido ameaçados com o desligamento de 10 mil médicos do Programa Mais Médicos e com o fechamento de novas inscrições para o FIES, entre várias outras medidas.

A punição às mulheres será, como sempre, mais dura. Será mais dura às mulheres negras E mais dura ainda às que são mães, da periferia, pobres, lésbicas. Ser maioria da população nunca valeu tão pouco. Já dizia Simone de Beauvoir que nunca devemos esquecer que os direitos das mulheres são sempre revistos numa crise política.

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- Por uma maternidade sem culpa por trabalhar fora ou não trabalhar

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