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Um dia de luta contra um episódio de depressão

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Hoje eu acordei sentindo que estava bem no meio de mais um episódio de depressão na vida. Não tinha nenhuma vontade de fazer nada. Sabe quando você sente um desânimo colossal? Que nada vale a pena? Assim.

Para muitas pessoas, é absolutamente impensável "não fazer nada". Ficar enfiado numa cama um dia inteiro, não tomar nem banho, não comer, não conseguir se distrair com um filme que você ama, mas é nesse estado que eu estou hoje.

Sem forças, fiz apenas o minimamente necessário para a sobrevivência.

Levantei às 8:30 porque meu filho mais novo queria mamar. Se não fosse isso, teria ficado dormindo até as 11 da manhã - como ele posteriormente ficou após mamar.

Recebi o filho de uma vizinha aqui para brincar com o filho mais velho, e enquanto eles se entretiam com joguinhos educativos online no computador, eu me recriminava por não estar fazendo nada, por não ter forças para nada.

Fui tomar um copo de água na cozinha. Olha o tamanho das minhas conquistas hoje, conseguir ter forças para ir na cozinha, lavar toda a louça do dia anterior, limpar todo o balcão da cozinha, a mesa, as cadeiras, varrer o chão, limpar o painel do fogão e tomar minha água. Fiquei me recriminando por não ter forças para dar uma faxina completa, limpar as portas dos armários, dentro da geladeira.

Aí lembrei que não podia mesmo ficar naquela moleza toda, tinha que fazer o almoço para três crianças, e lá fui eu, na maior preguiça, colocar um macarrão integral parafuso para cozinhar, porque era só o que eu tinha forças para fazer.

Das 9 da manhã até as 11, duas horas completas, como pode alguém ficar parado desse jeito? Pensava eu com meus botões. Os meninos na sala se entretendo sozinhos, eu me sentia culpada por eles estarem tanto tempo com uma tela à sua frente. Não tinha forças para, sei lá, propor uma brincadeira com eles.

Nisso, o tempo passou e o mais novo acordou. Pronto. Agora mesmo que eu não consigo fazer mais nada, suspiro, enquanto guardo o equivalente a 7 sets completos de peças de Lego no chão para passar o aspirador de pó no carpete.

Tanta coisa pra fazer. Precisando procurar por um novo computador pra comprar na Internet, comprar uniforme escolar no site da escola, tentar organizar um esquema para eu voltar a escrever para ganhar dinheiro como jornalista, e eu aqui nessa moleza, pensava eu enquanto lavava as mãos na pia do banheiro, ao mesmo tempo que passava sabonete líquido nas mãos e limpava superficialmente a pia e a tampa do vaso.

Tanta coisa para fazer, e eu sem forças de colocar um casaco na cria para ir na mercearia comprar umas frutas pro lanche da tarde. Sorte que tinha uma melancia inteira na geladeira, graças a deusa. Ia dar muito trabalho sair com três crianças, assim é só cortar a melancia em diversos pedaços, servir em três pratos diferentes e levar para a sala numa bandeja, assim eu posso sentar e tomar um cafezinho, finalmente. Me sinto culpada a beça até desse cafezinho. O que eu fiz para o merecer, fala a verdade?

Depois de uma manhã super calma, tentando preservar minhas energias ao máximo, onde só amamentei por umas 5 vezes, eu estava exausta. Depois do almoço, os mais velhos voltaram para o joguinho e o mais novo quis jogar também uns joguinhos de bebê no meu celular.

Que alívio, tirar um cochilo de 15 minutos na minha cama, com um pezinho dele carinhosamente sobre uma perna minha. Depressão é cansativo demais. Você não faz nada e se sente exausto. Os quartos estavam tão bagunçados. Só a sala, a cozinha e os dois banheiros estavam remediados, puxa.

Até escrever esse texto levou um esforço sobrehumano. Tive que dançar por meia hora com o mais novo na sala. Quando realmente não tive mais forças, botei mais um desenho educativo para os três verem só para sentar mais um pouco. Resolvi relatar meu dia para me sentir fazendo parte da sociedade novamente.

Me sinto tão culpada por não sair com as crianças nesse dia que nem está chovendo tão forte assim, ainda mais num dia morninho de Glasgow, com 15º. A louça do almoço vai ficar pra quando der, sério. E não vou arrumar os blocos de madeira de volta na caixa deles pela 3ª vez hoje, também vai ficar pra amanhã ou pra quando der na telha. Ou quando eu conseguir finalmente sair dessa deprê e voltar a viver.

Me sinto muito culpada hoje por não ter um emprego de verdade. Por não trabalhar fora. Me sinto preguiçosa hoje. Sei que sou privilegiada por poder me dar ao luxo de não fazer nada o dia inteiro por um dia ou dois para poder me recuperar de um estado de espírito mais sombrio. O texto não contém ironia. Realmente estou me sentindo assim.

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