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O estupro coletivo das mulheres acontece todos os dias

Publicado: Atualizado:
RAPE
Arman Zhenikeyev - professional photographer from Kazakhstan via Getty Images
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As mulheres são violentadas todos os dias, física ou emocionalmente. São violentadas pela socialização, quando os pais descobrem o sexo de um bebê ainda na barriga da mãe e fazem um enxoval rosa, com direito a brincos para identificar a criança como menina na saída da maternidade.

Quando vestem as meninas com roupas femininas o tempo todo, somente rosa, vermelho, vestidos e saias, que já as sexualizam com dias de nascidas. Por que outra razão meninos têm ao menos os genitais cobertos por, no mínimo, um short, mas as meninas não? Vestidos de menininhas não chegam no meio dos joelhos, vão apenas até o fim da fralda.

O estupro diário de todas as mulheres acontece quando dizemos às meninas para brincar apenas de bonecas, panelinhas, desenho, que as ensina tanta empatia que, quando crescemos, só sabemos cuidar dos outros, das necessidades dos outros, nunca das nossas, enquanto os meninos estão lá fora, brincando de bola.

Quando dizemos que elas não podem xingar, mas ensinamos palavrões aos meninos. Quando dizemos para elas fecharem as pernas "porque isso não são modos de meninas". Quando repassamos a ideia de que meninas são frágeis e meninos são fortes. Ou a de que meninas amadurecem mais cedo que os meninos, por isso elas aprendem mais cedo a cuidar da casa.

E toda essa socialização acima descrita não deve chegar aos pés do que acontece na periferia, na favela, nos cantões onde a lei, que deveria proteger a todos, só chega atrapalhando a ordem local.

Vamos esclarecer um fato desde já: eu sou privilegiada. Eu não vim da favela. Eu vim de um BNH. Mas vamos convir que um bairro que abriga médicos, advogados, delegados, não é um bairro empobrecido. Minha casa era realmente humilde. Nós realmente passamos um tempo comendo apenas pão de sal e café pela manhã e arroz e feijão de almoço e jantar.

Mas eu sou privilegiada. Não tenho como saber como é a vida na favela. Já dei aula por dois anos em favelas no Rio, estava lá todos os dias da semana de trabalho. Isso não faz de mim nenhuma expert em termos de favela. Eu não vivi a realidade de uma. Eu não posso chegar aqui e dizer que devemos fazer isso, aquilo, aquilo outro e mais aquilo outro para começarmos a atacar o problema da vulnerabilidade das mulheres que moram no morro.

O máximo que eu posso fazer, do meu lugar de fala, é abrir o meu espaço para que as que vivem essa realidade virem contar a sua história. Com o meu privilégio, o que eu posso é cutucar todos os que conheço à minha volta para que seja articulada alguma intervenção para que possamos ajudar mulheres que vivem uma realidade violenta e não tem como escapar dela.

E que intervenção seria essa? Não se pode chegar numa favela, num morro, ou mesmo para alguém desse locais e dizer: estou vendo o problema de vocês. O que vocês devem fazer é isso, aquilo e aquilo outro. Não. Nunca. Nunquinha. Jamé. Pode parar.

A intervenção que deve ser feita é entrar em contato com as mulheres em questão. Se elas quiserem entrar em contato. Elas têm de ser ouvidas. Porque depois do estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio de Janeiro, a cultura do estupro nunca mostrou-se tão desesperadamente viva e abrangente.

Dias após um excepcional envolvimento de feministas de várias vertentes em socorro da jovem vítima, as poderosas garras da socialização masculina, do pegador, do forte e unido time dos homens que nunca foram repreendidos por objetificarem mulheres, bastou um áudio não identificado, onde se ouve vozes de homens apenas, dizerem que a menina consentiu, para que se colocasse em dúvida se o estupro aconteceu ou se foi, na verdade, uma gang bang.

Logo em seguida, a internet foi inundada com posts expondo a identidade da vítima, com fotos que a comprometem como alguém digna de confiança para as mentes que aceitam e propagam a cultura do estupro.

O que é a cultura a cultura do estupro? É todo um sistema de ferramentas criadas para culpabilizar a vítima e defender o agressor. É objetificar, desumanizar a mulher, para que os homens não consigam vê-la como um ser sentiente. O estupro é um ato violento que visa humilhar a vítima. O estupro não é um ato provocado pelo desejo sexual. É um ato de poder, de apropriação do corpo do outro.

Tanto assim é que qualquer pessoa num grupo vulnerável é também uma vítima em potencial, como meninos pequenos, senhoras idosas, bebês de apenas meses de idade. É um crime tão hediondo que é repugnado até mesmo por criminosos condenados. Um estuprador preso será fatalmente violentado na cadeia por homens héteros por ter abusado de alguém sabidamente vulnerável. Nem assassinos perdoam um ato tão covarde.

Aqui fora, "homens de bem" repudiam o estupro condenando o agressor a "virar mulherzinha" na cadeia. A punição pela covardia de abusar sexualmente de alguém é "ser transformado em mulher". A mulher é vista como o alvo de um ódio sem precedentes.

Castração química não resolve o problema dos contínuos abusos sexuais a que mulheres, principalmente, estão sujeitas diariamente. O estupro não é sobre sexo, lembram? Os agressores da jovem do Rio não são monstros, doentes que precisam de tratamento. São pessoas normais.

Dizer que são doentes acaba tirando deles a culpa pelo seus crimes. Segundo a vítima, cerca de 33 homens estavam ao seu redor quando voltou a si. Nenhum foi capaz de dizer não. Seria muita coincidência que alguns traficantes conhecessem 30 outras pessoas que tivessem a mesma doença e que estavam coincidentemente todos livres por três dias para estuprar uma única menina.

Viram-se para nós, mulheres, após a maciça culpabilização da vítima e dizem: "Vocês não sabem como é a vida na favela. Essas meninas fazem isso todo dia". Isso não quer dizer que ela mereceu ser violentada.

Eu também acredito nos relatos de jornalistas que trabalham ou trabalharam junto às comunidades, que sabem que o problema lá é bem mais embaixo. Que as milícias e os líderes protegem os moradores, e que quando o governo retira as lideranças tradicionais de locais carenciados e coloca a sua despreparada polícia - despreparada e perpetuadora da cultura do estupro, porque o delegado que cuidava do caso perguntou à vítima se ela tinha o hábito de fazer sexo grupal - a tragédia se torna mais eminente.

Nós sofremos um estupro coletivo toda vez que os homens dizem que "ah, nem todos são estupradores". Que "homens de bem nunca fariam isso". Que "não vamos generalizar, nem todo homem é um estuprador em potencial". Quando se diz isso, estamos sendo violentadas, ou no caso de muitas de nós, novamente violentadas por sermos desacreditadas, desmentidas, e nosso relato relativizado.

Das analogias que mais gostei de ler nessa semana, destaco três:

O pacote de MM's - se eu te oferecer um pacotinho de MM's, mas te disser que dez deles estão envenenados, você arriscaria comer um porque sabe que os outros não são?

Você vai numa floresta onde sabe que há ursos. Você arriscaria se aproximar de um ou tentaria só observá-los à distância?

E a campeâ: se você fica sabendo que um caminho que você pretende tomar é um campo minado, você arriscaria atravessar?

Fica a reflexão.

LEIA MAIS:

- Querem que a punição para estupros recaia de vez sobre a vítima

- A atual crise política é (muito) machista também

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