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Por uma maternidade sem culpa por trabalhar fora ou não trabalhar

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Há tempos escrevi para esse blog sobre ser mãe de tempo integral. O artigo recebeu muitas críticas positivas e negativas, e é dessas últimas que gostaria de falar um pouco hoje.

Quando dizemos que somos mães de tempo integral, queremos dizer que estamos com os filhos o dia todo. Não estamos dizendo que mães que vão trabalhar e deixam seus filhos em creche ou com cuidadores em casa deixam de ser mães quando não estão perto dos filhos. Às vezes a gente precisa explicar coisas simples como essas.

Sou mãe que fica o dia todo com os filhos e que não os deixa em creche ou com cuidadores para ir exercer uma atividade remunerada por escolha própria. Não, não estou ferrando com o feminismo. Pelo contrário: estou acrescentando uma pauta ao feminismo. Os críticos ao meu artigo nunca pararam para perguntar porque eu não trabalhava fora de casa, ou exercia uma atividade remunerada qualquer que me garantisse independência financeira.

A verdade é que eu nunca pensei em ser mãe que só cuida de filhos e não tem emprego fora de casa. Mas eu mudei de país para que o companheiro aproveitasse umas quantas oportunidades de trabalho e acabei não conseguindo me recolocar nos dois países seguintes onde passei a viver, em Portugal por crise financeira e no Reino Unido por não ter o inglês que tenho agora em 2006. Resultado: pensei que seria uma experiência vibrante ficar com os filhos o tempo todo durante os seus primeiros anos. E está sendo mesmo.

Mas o que sempre acontece na vida são os imprevistos. Desde que engravidei do primeiro filho, não pararam de surgir oportunidades incríveis de trabalho que eu pegaria sem pestanejar - se não tivesse filhos. A pior constatação desses últimos anos dedicados à maternagem é a quantidade de trabalhos e empregos que tive de recusar porque ELES não se encaixaxam na criação de filhos que eu queria ter.

Sim, eu tive que sacrificar carreira pelos filhos e não me arrependo. Mas eu tive de recusar e aceitar ser sustentada pelo companheiro para poder ver sorriso de criança, dentes nascendo, caindo, primeiras palavras, saber que "dauri" é dinossauro e "rrrrrrrrrri" é aranha, que "moco" é mosca e "grrrrrr" é grilo, que "luco" é look e que quando duas crianças com cinco anos de diferença convivem o dia todo e hiper benéfico para elas, porque o mais velho se enche de paciência para explicar e o mais novo para aprender.

Sacrifiquei carreira porque exigiam que só pensasse na minha carreira e em dinheiro ou sobrevivência, que eu pusesse isso acima do contato diário com toda a lerdeza que é arrumar dois meninos ativos para sair e dar uma volta pelo quarteirão para sentir um sol mirrado de 10 graus na pele.

Não me levem a mal, mas se eu virar mãe solo vou continuar não abdicando desses momentos. Vendo comida pra fora, aprendo um artesanato, sei lá. Qualquer coisa que me garanta a sobrevivência e que não me tire esses momentos, que sei também que são importantes para os meus filhos.

Mas se a gente só tem valor quando reclama e manda a real, então aí vai a minha reclamação: querem que as mulheres trabalhem e ganhem o próprio sustento? Eu quero. Empregadores, empresas, comecem a organizar licença maternidade que vislumbre ao menos a recomendação da OMS de amamentar, no mínimo, por dois anos.

Não é loucura, é ciência.

E que tal licença de no mínimo 9 meses para a mãe (para dar tempo dela estabelecer a introdução alimentar) e 3 meses para o pai tambem curtir a extero-gestação (atenção manas que são mães ou vão ser mães, estudos mostram que os três primeiros meses de vida do bebê é basicamente os três últimos meses da "gestação" - o bebê ainda não percebeu que nasceu) e na volta ao trabalho, sala para amamentar sossegada, permissão de estar com a cria no trabalho, à "disposição" da mãe quando chorar, ou trabalho flexível, em home office (a partir de casa), em meio período.

Porque ao fim e ao cabo, após me tornar mãe, não apareceu NENHUMA oportunidade de trabalho/emprego que servisse à uma mãe. Ou melhor, que levasse em conta a existência de crianças pequenas no cenário.

Desculpa, mundo.

O fato de eu não estar exercendo atividade remunerada não é culpa minha - a culpa é da sociedade que não oferece espaços públicos para mães e seus rebentos. Podem perguntar por aí nos movimentos feministas a luta que é para as mulheres com filhos pequenos fazer faculdade, sair para resolver assuntos burocráticos, ter uns minutos de lazer indo ao cinema, fazer caminhada.

O fato de eu não estar exercendo atividade remunerada não é culpa minha. E a minha escolha é clara: escolhi gastar menos, ser mais minimalista e não aceitar trabalho que não previsse minhas necessidades como mãe porque sou, ainda por cima, sortuda por ter um companheiro que apoiou essa maternagem de colo e sem gritos e topou me bancar por esse período. Mas veja vocês: as minhas exigências acima têm o poder de beneficiar mãe solo que já tem que sacrificar tanto.

Então a crítica, aqui, é ao sistema que não prevê a existência de crianças na sociedade. Começam a surgir movimentos que se intitulam feministas e que não só excluem as mães, mas que espalham por aí um discurso de ódio contra elas e contra as crianças. Sociedade, por favor, toma vergonha na cara.

Vocês querem continuar existindo como sem crianças para substituir vocês no futuro?

Não querem aceitar estrangeiros, vai ter que ter criança, ué. Vocês parecem que esquecem que criança cresce e vira força de trabalho. e que um dia vocês nasceram criança.

A não ser que o objetivo seja só viver essa vida e chegar à extinção mesmo...

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