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Por que você não deve mandar um morador de rua "arranjar um emprego"

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HOMELESS BRAIN INJURY
Getty/Benjamin Lowy

Eu estava indo para o trabalho de carona quando passamos por um morador de rua com um cartaz de papelão à beira da rua. "Arranje um emprego!", gritou pela janela um dos meus colegas, pelo qual até então eu sentia admiração. Éramos um grupo de estudantes colegiais brancos de classe média que tínhamos conseguido empregos de verão em uma empresa de mudanças. O que nós sabíamos sobre a vida nas ruas?

Os seres humanos são ótimos em fazer suposições sobre situações que não compreendem. Quase um quarto dos canadenses considera que as pessoas sem teto são culpadas por suas circunstâncias, e quase um quinto acredita que seu maior defeito é a preguiça. Talvez você pense assim.

Mas e se eu lhe disser que muitas pessoas se tornam moradoras de rua pelo mesmo motivo que o jogador de hóquei Sidney Crosby teve de parar de jogar?

Um estudo recente do Hospital St. Michael descobriu que quase a metade dos homens moradores de rua sofreram lesão cerebral traumática (LCT) e que 87% dessas lesões aconteceram antes de eles terem perdido suas casas. A idade média das pessoas na primeira LCT era de 11 anos; assaltos e esportes eram os culpados mais comuns. Na próxima vez em que você quiser gritar "arranje um emprego", imagine uma criança jogando hóquei que sofreu um golpe forte, ou seu vizinho adolescente que levou uma surra quando voltava da escola.

Não é tão fácil atribuir a culpa quando seu alvo tem um rosto humano. Madre Teresa resumiu a questão quando disse: "Se eu olhar para a massa, jamais agirei. Se olhar para uma pessoa, sim". Se você mora em uma cidade, vê pessoas sem teto o tempo todo. Olhar nos olhos da desigualdade de renda e meditar sobre as falhas do sistema de saúde é demais para uma manhã de segunda-feira. Em vez de sentir-se culpado durante o café, é mais fácil fingir que os moradores de rua são um bando de preguiçosos vagabundos. Eles são fundamentalmente diferentes de você e de mim.

Mas não são. Muitos são as versões adultas daquele jogador de hóquei de 10 anos ou do adolescente agredido. E ver os moradores de rua como indivíduos próximos, em vez de um grupo de degenerados, é crucial se quisermos tirá-los das ruas. Veja um estudo em que pesquisadores apresentam estatísticas sobre a fome na África versus detalhes sobre uma criança de 4 anos com "as costelas se projetando pela pele seca". Adivinhe qual cenário obteve mais doações? Todo mundo que tem um coração -- mas especialmente os pais -- sente injustiça diante da visão de um pequeno corpo inocente devastado pela fome.

Esse é um dos motivos pelos quais houve inúmeras campanhas para humanizar os moradores de rua e provar que o Zé Ninguém na rua é exatamente igual a todos nós. Vídeos virais mostram que um corte de cabelo e um terno transformam um morador de rua em um banqueiro de Wall Street.
Mas a maioria das pessoas ainda acha difícil imaginar-se como um escravo das esmolas de estranhos.

Essa pesquisa poderia invalidar de uma vez por todas o argumento "a culpa é deles mesmos". Mas até agora nosso clamor sobre os traumas encefálicos se restringiu a Sidney Crosby e seus colegas.

Pelo menos três estudos anteriores confirmaram a correlação entre LCT e a falta de moradia, mas ainda falamos apenas sobre hóquei e futebol. Por causa dos suicídios de atletas, surgiu um debate nacional sobre a violência nos esportes. Isso é bom. Mas as lesões cerebrais afetam um grupo muito maior.

Obviamente, a ligação entre essas lesões e a falta de moradia não é uma linha reta. Os efeitos cognitivos podem exacerbar ou provocar doença mental e dependência química -- problemas que predispõem algumas pessoas a acabar nas ruas. Mas a teoria da LCT repercute. O estudo foi publicado no Reddit e tem mais de mil comentários. Um usuário escreveu: "Parece que você está descrevendo meu meio irmão mais velho. Ele foi atingido por uma van quando andava de bicicleta na adolescência e teve uma lesão cerebral traumática. Ele desenvolveu esquizofrenia com 20 e poucos anos. Era incrivelmente inteligente, era tutor de crianças gênios em matemática da Cal-Tech, mas era simplesmente estranho e maluco. Ele é um morador de rua no sul da Califórnia há décadas e teve diversos problemas com a justiça".

As descobertas têm implicações para os trabalhadores de saúde e sociais também. Os médicos podem informar melhor seus pacientes com LCT sobre possíveis sintomas em longo prazo. O trabalhadores na linha de frente devem ser treinados para procurar sinais do trauma.
Todos nós deveríamos usar essa pesquisa para confrontar a falácia de que a maioria das pessoas sem teto são culpadas por sua sorte. Porque talvez a única coisa que nos diferencie delas é um golpe forte na cabeça.

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