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Aos 29 anos, sem filhos, acabei de ligar minhas trompas

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Sou solteira, não tenho filhos, e, há seis semanas, aos 29 anos, me submeti a uma laqueadura.

Foi, sem dúvida, a melhor decisão que já tomei.

O processo de ligar as trompas teve menos a ver com a preparação física para o procedimento e mais com preparar outras pessoas em minha vida mental e emocionalmente.

O que me deixou mais surpresa foram as reações de amigos próximos e família, que há muito tempo sabiam do meu desejo de não ser mãe: apesar do apoio que todos tinham dado à minha escolha, a decisão de torná-la cirurgicamente permanente pareceu despertar uma onda de preocupação e nervosismo que nunca tinha visto antes.

Por que, pensei, é tão fácil respeitar a escolha de uma mulher de não ter filhos, desde que ela não altere fisicamente seu corpo, para apoiar aquela escolha?

Para ser clara: há seis semanas não foi a primeira vez que tive uma conversa com um médico sobre tornar permanente uma decisão que eu havia tomado há muito tempo. Ser responsável por outra vida humana, incluindo o desprendimento emocional, despesa financeira e a exaustão física que acompanha isso tudo era um conceito que sempre me causou rejeição.

Tentei fazer uma laqueadura tubária logo depois da faculdade, quando tinha 21 anos, e depois novamente logo antes de me casar, aos 25. Foram dois médicos diferentes (algo digno de nota, e talvez realmente valha a pena destacar, eram ambos homens), ambos clinicando em Manhattan, e nenhum quis realizar o procedimento. "Você é muito jovem", ouvi. "Pode ser que você mude de ideia", era outra frase favorita.

As opiniões de ambos os médicos de Nova York ecoavam afirmações que ouvi de todo mundo durante toda minha vida adulta. Algumas outras dignas de nota: "Você é egoísta por não querer filhos"; "E se você conhecer um homem que quer filhos?; "Você não sabe o que você quer"; e minha favorita: "Sua vida será incompleta sem eles".

Quando eu era mais jovem, tais declarações pomposas e presunçosas me causavam o tipo de raiva imatura típica de quem é jovem e necessita convencer as pessoas de certas crenças. À medida que fui envelhecendo, no entanto, percebi que a maioria da diarreia verbal que presenciei de pessoas questionando minha decisão não tinha nada a ver comigo e tudo a ver com eles.

Não há nada como introduzir uma ideia que vai contra as crenças tradicionais para incitar desconforto e raiva. As respostas também cruzaram as fronteiras de idade, gênero e orientação sexual. Mulheres mais velhas, homens mais jovens, garotas hetero, garotos gays: todo mundo tinha uma opinião (ou melhor, uma repreensão) sobre algo que, para ser sincera, não era nem um pouco da conta deles.

Estamos em 2016, e a ideia de que toda mulher é destinada a ser ou quer ser mãe já se tornou há muito tempo equivocada e, francamente, desgastada.

A escritora Meghann Foye recentemente foi bombardeada na imprensa devido a uma entrevista recente em que ela fazia uma comparação generalizada da licença-maternidade com um tipo de "pausa sabática" que permite aos homens e mulheres "mudarem seu foco para a parte de suas vidas que não gira em torno do trabalho".

A enxurrada de artigos que surgiram nos dias seguintes à entrevista criticaram Foye por ter comparado a licença-maternidade a uma "pausa", e incluíam mães com raiva da autora por subestimar o trabalho real que envolve cuidar de um novo filho.

Mesmo os artigos defendendo a ideia de uma pausa para todos trabalhadores, em última análise, eram direcionados a um grupo de pais específicos e focavam nos benefícios da licença parental. Mas estávamos com tanta raiva de Foye na verdade por ela ter introduzido a ideia de que todo mundo deveria tirar uma folga para focar em algo que não seja o trabalho?

Ou estávamos mais irritados com a ideia de uma profissional segura de si e sem filhos chamando a atenção para os costumes culturais desiguais envolvendo períodos de folga em geral?

Ninguém argumentaria seriamente que a licença-maternidade é equivalente a férias ou a um verdadeiro sabático, nem mesmo Foye.

A licença-maternidade (como também a licença-paternidade) é uma maratona exaustiva e cansativa de aprender como cuidar de uma nova vida. Mas não foi exatamente o que Foye disse? Uma mudança de foco do trabalho para outra coisa? Algo, para esses novos pais, muito mais importante?

Mais importante ainda, a decisão de ter um bebê não é algo controlado e decidido pelos próprios eventuais pais? Na maior parte das situações, um novo bebê não foi simplesmente jogado no seu colo. É, em geral, uma decisão pensada por um indivíduo ou um casal.

Claro, é duro, mas a escolha de ter um filho é simplesmente isso: uma escolha. A licença parental nos Estados Unidos poderia, sem dúvida, pedir um upgrade significativo.

Mas a entrevista de Foye simplesmente implica que os novos pais recebem um período de folga significativo pela escolha que fizeram de ter um filho. Por que deveríamos ficar tão irritados quando ela sugere que indivíduos sem filhos também deveriam receber uma folga significativa por uma escolha diferente?

Quanto a mim, embora eu não tenha tirado nenhuma licença significativa devido à minha cirurgia, dei imenso valor à curta folga de três dias que usei para ligar minhas trompas e me recuperar.

O que não dei tanto valor, no entanto, foi ser imediatamente questionada por várias pessoas sobre o que eu faria quando (e não "se"!) mudasse de ideia. Ainda vivemos em mundo tão patriarcal onde pensamos que a maior conquista da mulher só pode ser a de se tornar mãe?

Ou mesmo que o maior desejo de uma mulher deve ser o de ser mãe?

Talvez não tenhamos esgotado a questão quando se trata de uma vida sem filhos, maternidade, ou qualquer coisa do tipo, mas, em 2016, deveria ser simples o suficiente entender que na base de todas nossas relações com os outros deve existir o respeito pelas escolha de outras pessoas.

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