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O Rio é o caos e nada faz sentido, mas não tem como não amar

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cristo redentor

Deus ajude o Rio depois da Olimpíada, e quem sabe durante também

O motorista do ônibus oficial da Rio 2016 me deixou no tipo de ruela de um bairro pobre que nós jornalistas deveríamos evitar, segundo todas as recomendações.

"Chegou", disse ele em português e foi embora. Ótimo. Preso no meio de uma favela com meu equipamento caro e sem a menor ideia de onde ir ou o que fazer. Mas esse era o menor dos meus problemas...

Já passei por problemas de transporte em outras Olimpíadas. Nos Jogos de Inverno de Sochi, em 2014, estava trabalhando até tarde da noite no centro de imprensa e perdi o último ônibus. A única maneira de chegar ao meu apartamento, no pé da montanha, era de teleférico.

campo de futebol

Os atletas passarão por este campo de futebol todos os dias a caminho das novas instalações esportivas

O serviço estava teoricamente fechado, mas os teleféricos ainda estavam funcionando, então pulei a cerca e subi em um. A gôndola começou a acelerar. Acelerar mesmo. Será que ela ia se desprender do cabo? Será que eu ia despencar no rio Mzymta, lá embaixo?

Estou escrevendo este artigo, então dá para perceber que cheguei são e salvo. Mas a noite ainda guardava mais terrores. A longa caminhada até meu apartamento (também não havia mais ônibus no terminal do teleférico) em uma estrada solitária do Cáucaso foi aterradora. Sem falar nos rugidos. Com certeza minha hora tinha chegado.

Um lince caucasiano selvagem me atacaria num flash de garras e dentes, transformando minha jugular num novelo de lã. Foi aí que um gato apareceu na minha frente e se esfregou nas minhas pernas.

Nenhuma Olimpíada é perfeita. Sempre há falhas no planejamento e na execução do evento. Mas, normalmente, o lince na verdade é um gatinho. Você sorri, aceita as pequenas inconveniências e se considera sortudo por trabalhar num evento tão empolgante.

arenas

O Centro de Tênis parece uma cesta gigante, e não, a arena do basquete não parece uma bola de tênis

No Rio, as coisas podem ser diferentes. O Rio é uma cidade maravilhosa, cujos moradores mostraram uma enorme generosidade nos três dias desde que cheguei.

Todo mundo me convida para jantar. A irmã do dono do apartamento em que estou hospedado fez um tour da cidade depois de um dia inteiro no trabalho e quatro horas de trânsito. Estou apaixonado pelos cariocas.

Mas esta Olimpíada me preocupa. O esporte será fantástico, como sempre, mas a logística será um pesadelo para todos. Especialmente o transporte.

Vamos voltar ao ônibus do começo desta história. Eu estava indo para Deodoro, um dos quatro lugares onde se concentram as instalações olímpicas, para entrevistar alguns atletas.

Fui ao centro de transportes (MTM) próximo do centro de imprensa (MPC). Para trabalhar numa Olimpíada você precisa lembrar de muitas siglas.

A população pagou pela Olimpíada e não recebeu nada de volta. A Olimpíada está aqui só para mostrar o Rio que os ricos e os políticos querem mostrar e vender para o mundo.

Com os 12 bilhões de dólares que o Rio gastou para realizar essa Olimpíada, você imaginaria que eles teriam dinheiro para indicar que ônibus vai para onde. Nada. Vários jornalistas perdidos cercavam os voluntários de camiseta amarela para pedir ajuda. Nenhum deles sabia a resposta. Havia um monte de ônibus no lugar, mas ninguém sabia o destino.

falta de informação

Hmmm, ali? Talvez não

No fim acabei achando um ônibus que tinha três letras indicando Deodoro no pára-brisa. Ele ia para o estádio ou para algum outro lugar? Não sei. Mas sabia que estava indo na direção certa.

exercito

Muito obrigado. Mas por que o Exército estava patrulhando esta rua e não uma das arenas não ficou claro

O percurso de 25 minutos demorou mais de uma hora. Chegamos a uma área residencial pobre. As arquibancadas eram visíveis por sobre os tetos, então não deveríamos estar longe. Tanques e soldados bloqueavam as ruas, o que supostamente melhora a segurança, mas piora o trânsito.

E depois, numa rua estreita sem soldados, o ônibus parou. Dois colegas australianos e eu estávamos sozinhos.

parada

Esta história também não tem um lince feroz. Andamos um pouco até chegar ao complexo Deodoro, depois conseguimos uma carona com um funcionário da organização. Fomos os beneficiários, não as vítimas, da má organização, pois tivemos um acesso muito mais próximo aos atletas do que deveríamos.

Escrevi minha matéria numa sala do próprio complexo, não no centro de imprensa principal. Que erro. Não tinha comida nem água.

Já tentou trabalhar com sede?

A fome dá para aguentar, mas a sede é séria, e eu não ia beber água dos banheiros químicos. Mais uma vez fui salvo pela generosidade dos brasileiros. Um dos camiseta-amarela, uma jovem chamada Raquel, me levou até a sala dos funcionários e me deu uma garrafa de água gelada. De novo: estou apaixonado pelos cariocas.

Onde pegar o ônibus de volta? Ninguém sabia, é claro. De novo, me arrisquei. O ônibus me deixou em uma via expressa, onde me garantiram que o ônibus da imprensa me levaria até o MPC.

Havia soldados, então não seria roubado, mas tudo pareceu uma grande bagunça. Sete anos de planejamento e nem um mísero ponto de ônibus?

O chefe do Comitê Olímpico Australiano e vice-presidente do COI, John Coates, sempre diz que três coisas precisam funcionar perfeitamente para garantir uma Olimpíada de sucesso: a Vila Olímpica, o transporte e a comida.

A Vila tem problemas, como todos sabemos.

Sobre o transporte acabei de falar - e nem de longe sou o único a relatar frustrações. A comida brasileira é incrível, apesar de os preços terem claramente aumentado nas imediações do Parque Olímpico.

senhora do suco

Meus dias começam com uma visita à senhora do suco de manga. Ela é uma das cariocas ganhando uns reais a mais com os jogos

Como você já deve ter lido, há um rodízio de outros problemas envolvendo o Rio, da poluição das águas ao trânsito e à qualidade do ar - e o crime, claro.

O que leva à pergunta óbvia - por que essa cidade está sediando a Olimpíada?

Volte a 2009, quando o Rio derrotou Chicago, Madri e Tóquio na disputa pelos direitos de sediar os jogos. A economia do País estava indo muito bem e era a sexta maior do mundo.

Agora ela é a nona, e o País está em recessão desde 2014. O Brasil também era mais estável em 2009. Em nível local, o Rio tem problemas de corrupção. Muitos trabalhadores não estão recebendo. Os índices de criminalidade estão aumentando.

"Talvez seja o dia mais emocionante da minha vida", disse o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2009. "Nunca tive tanto orgulho do Brasil. Vamos mostrar para o mundo que podemos ser um país grande."

O atual prefeito do Rio, Eduardo Paes, disse: "A cidade não vai servir a Olimpíada. A Olimpíada vai servir a cidade?"

biologo protesto

O biólogo carioca Mario Moscatelli protesta contra a poluição na lagoa Marapendi, na Barra da Tijuca. Ele luta pela limpeza das águas da cidade há anos

Mas a maioria dos cariocas já não compra essa narrativa. Humberto Almeida disse ao The Huffington Post Austrália que a maioria dos locais nem sequer tem dinheiro para comprar ingressos para os eventos - opinião que parece ser sustentada pelo 1,3 milhão de ingressos não vendidos às vésperas do início dos jogos.

"Algumas pessoas dizem que a Olimpíada vai trazer dinheiro para a cidade, mas a maioria do dinheiro vai ficar nas mãos dos ricos que controlam o Brasil", disse Almeida.

"Imagino que a Olimpíada seja boa para a economia da cidade e para os empresários. Para as pessoas em geral, não é tão bom. Alguns foram expulsos de casa para construir as arenas, os negros pobres das favelas morrem todos os dias com o tráfico e com a polícia, e a mídia ignora completamente essas questões."

"A população pagou pela Olimpíada e não recebeu nada de volta. A Olimpíada está aqui só para mostrar o Rio que os ricos e os políticos querem mostrar e vender para o mundo."

Basta tomar o ônibus para Deodoro para ver como a Olimpíada mudou pouco a vida do carioca. Bairros pobres agora são vizinhos de novíssimas instalações esportivas. Mas a vida dos moradores mudou?

estádio de canoagem
O Estádio de Canoagem em Deodoro é magnífico, mas o bairro vizinho, nem tanto

Depois da última grande aventura de ônibus, seu correspondente estava explorando a Lagoa de Jacarepaguá - perto do Parque Olímpico - antes de escrever este artigo. Um camisa-amarela veio correndo para fazer um alerta.

"Não vá aí", disse ela. "Jacarés!"

Não vi nenhum animal, assim como não vi o lince caucasiano. Mas vi um urubu enorme no céu, um presságio para o que vem depois desses jogos.

Quanto aos eventos esportivos em si, mal posso esperar. Só gostaria que os brasileiros tivessem mais motivos para compartilhar do meu entusiasmo, e que fosse um pouco mais fácil andar de ônibus.

urubu
O urubu

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Austrália e traduzido do inglês.

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