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20 anos depois do genocídio em Ruanda: lições aprendidas e desaprendidas

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BAN KIMOON
STR via Getty Images

Hoje, na República Centro-Africana, governo e líderes comunitários têm dificuldade para ajudar o país a encontrar o caminho da paz.

Na segunda-feira, em Kigali, vou me juntar à população de Ruanda na comemoração dos 20 anos do genocídio cujas reverberações ainda se sentem em um arco de incertezas na região dos Grandes Lagos na África - e na consciência coletiva da comunidade internacional.

Cada situação tem sua dinâmica própria. Assim como o conflito na Síria, que a cada dia faz novas vítimas. Mas cada uma dessas situações impõe um desafio complexo e de vida-ou-morte: o que a comunidade internacional pode fazer quando populações inocentes são massacradas em grandes números e o governo não tem a capacidade ou o desejo de proteger seu povo - ou até mesmo está entre os agentes da violência? E o que podemos fazer para evitar essas atrocidades?

Os genocídios de Ruanda e Srebrenica foram fracassos emblemáticos da comunidade internacional. A escala da brutalidade de Ruanda ainda é chocante: uma média de 10 000 mortes diárias, dia após dia, por três meses, com transmissões de rádio inflamando e incitando ruandenses a matar ruandenses.

A comunidade internacional deu passos importantes para aprender com esses terríveis eventos. Estamos unidos contra a impunidade, cujo símbolo é o estabelecimento da Corte Penal Internacional. Tribunais internacionais e aqueles assistidos pela ONU, incluindo o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, buscam os responsáveis e têm efeito visível sobre aqueles que cogitam violar as normas básicas internacionais. Em um julgamento histórico, um ex-chefe de Estado foi condenado por crimes de guerra.

A comunidade internacional endossou a "responsabilidade de proteger"; Estados não podem mais afirmar que crimes atrozes são assunto doméstico, além do alcance da comunidade internacional. Um número crescente de governos e organizações regionais está criando mecanismos para a prevenção de genocídios. As Nações Unidas e seus parceiros têm enviado com frequência monitores de direitos humanos para áreas problemáticas - "olhos e ouvidos" que deixam claro para governos e agentes não-estatais que o mundo está atento. E, como esse tipo de crime exige planejamento, estamos nos concentrando nos fatores-chave de risco, da falta de instituições às queixas sem resolução.

Também temos agido mais fortemente na proteção de civis, incluindo a violência sexual desenfreada. Missões de paz assertivas derrotaram uma das mais brutais milícias no leste da República Democrática do Congo. A ONU abriu os portões de suas bases no Sudão do Sul para abrigar dezenas de milhares de pessoas ameaçadas de morte. Há 20 anos, esse tipo de ação seria impensável. Hoje, trata-se de uma política deliberada, um exemplo claro de nossa nova iniciativa "Direitos Em Primeiro Lugar" - uma lição que se tornou real depois de Ruanda. São situações que seguem frágeis, mas a essência é clara: mais proteção, não menos.

Entretanto, esse tipo de trabalho encontra adversidades. O fim da guerra civil no Sri Lanka, em 2009, levou a dezenas de milhares de mortes e a uma falha sistêmica da ONU na hora de se pronunciar e agir. Durante mais de três anos, a comunidade internacional se dividiu com relação à resposta para a situação na Síria, oferecendo somente uma fração do financiamento para ações humanitárias e jogando gasolina no fogo com a provisão de armas para ambos os lados, na esperança equivocada de que haveria uma solução militar rápida para o conflito.

O mundo precisa superar esses pontos cegos morais. Países-membros podem ter definições conflitantes de interesse nacional, ou podem não estar dispostos a assumir novos compromissos financeiros e militares. Eles podem se intimidar com a complexidade e com o risco, ou temer que as discussões sobre crises iminentes em outros países possam um dia se voltar para suas próprias situações domésticas. Mas o resultado dessa indiferença e indecisão é claro: o derramamento do sangue de inocentes, sociedades fraturadas e líderes a quem não resta alternativa a não ser repetir as palavras "Nunca mais" - o que, em si, é um sinal de fracasso.

Na última década, a República Centro-Africana tem tentado chamar a atenção global para seus apuros, e no último ano o país viu o colapso do Estado e terríveis massacres, que têm gerado terror e levado ao êxodo. Identidades religiosas são usadas na disputa por objetivos políticos, ameaçando uma longa tradição de coexistência pacífica entre muçulmanos e cristãos.

Eu apelo à comunidade internacional para providenciar apoio militar urgente a fim de salvar vidas, levar a polícia de volta às ruas e permitir que as pessoas possam voltar para as suas comunidades. A União Africana e a França enviaram tropas, mas esforços para uma ação militar da União Europeia não renderam frutos até agora. Há uma necessidade igualmente urgente de começar um processo político no qual a reconciliação tenha papel de destaque. Se a violência se espalhar existe o risco de convulsão em toda a região.

Quando o colapso de um país é tão profundo, o desafio pode parecer insuperável. Mas a história prova o contrário. O apoio sustentado da comunidade internacional ajudou Serra Leoa e Timor Leste em transformações dramáticas. Ruanda tem registrado ganhos notáveis em seu desenvolvimento, e outros países conseguiram se reerguer depois de atos de violência indescritíveis. A República Centro-Africana pode seguir o mesmo caminho. Continuarei a apoiar o governo na busca do caminho que possa levar um país com esses recursos e tradições a um futuro estável e próspero.

Em Ruanda, visitarei o memorial do genocídio e lembrarei as vítimas -- como fiz com outras tragédias que desafiaram o mundo, de Auschwitz e Camboja décadas atrás a outras em nosso tempo. A comunidade internacional não pode se dizer preocupada com crimes atrozes e depois deixar de contribuir com os recursos e a vontade necessários para evitá-los. Líderes globais devem fazer mais para prevenir o prevenível e para combater a crueldade que acontece diante dos nossos olhos. As pessoas no mundo todo deveriam colocar-se no lugar daqueles em situação vulnerável, da Síria à República Centro-Africana, e perguntar-se o que mais poderiam fazer para construir um mundo de direitos humanos e dignidade para todos. Vamos mostrar àqueles que estão diante de grandes ameaças que eles não estão sozinhos ou abandonados - e que a salvação está a caminho.

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Ban Ki-moon é secretário-geral das Nações Unidas. Este artigo foi publicado originalmente no Independent on Sunday (Reino Unido).