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Os homens inseguros que mataram Diego e ameaçam o cristianismo

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DIEGO VIEIRA
Reprodução/TVGlobo
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Em 12 de junho de 2016, 49 pessoas foram mortas e 53 ficaram feridas em um ataque a uma boate gay em Orlando.

Em 02 de Julho de 2016, o estudante homossexual Diego Vieira Machado foi encontrado morto na Ilha do Fundão. Em comum, ao que tudo indica: dois crimes de ódio cometidos por homens inseguros usando violência em nome de uma suposta causa religiosa ou moralista de limpeza de valores.

Quem matou Diego? E por quê?

Essas são as perguntas que devem ser respondidas por Fábio Cardoso, delegado titular da Divisão de Homicídios responsável pela investigação do crime. Mas esboço aqui um estudo preliminar: foram homens brancos e inseguros de classe média.

Faltam estudos e discussões aprofundadas sobre a violência no Brasil, mas a história e os estudos nos Estados Unidos não deixa muito espaço para dúvidas: 90% dos homicídios em geral são cometidos por homens. E todos os tiroteios em massa.

Diversos estudos tentam explicar por que a violência, o homícidio e os assassinatos em massa são fenômenos majoritariamente masculinos. Segundo artigo da revista TIME: A testosterona alimenta a agressividade. Meninos demoram mais a amadurecer do que meninas. Machos querem proteger ferozmente sua posição social e qualquer ameaça a essa posição vai para o centro de sua identidade e auto-estima. Machos tendem a culpar fatores externos por seus problemas, enquanto fêmeas tendem a culpar a si mesmas.

A questão específica da ameaça ao status e à auto-estima parece estar intrinsecamente ligada à sexualidade e, especificamente, à frustração sexual masculina. Diversos assassinos em massa deixaram diários explicitando seu ódio por mulheres que os rejeitaram e homens que se dão bem com mulheres. E, além disso, homens parecem mais predispostos a basear decisões morais em princípios abstratos, enquanto mulheres tendem a basea-las em empatia.

A violência homicida masculina em crimes de ódio trata-se, portanto, de uma questão de demostração infantil de poder frente a ameaças. Segundo o jornalista William Hamby, citando um estudo de 2010 por Rachel Kalish e Michael Kimmel, homens brancos rotineiramente sofrem de um sentimento de "direito lesado", uma mistura de humilhação pela perda da masculinidade e a obrigação moral e sentimento de que é seu direito recuperá-la.

Como isso tudo se relaciona ao assassinato de Diego?

É impossível não ver nas ameaças de um grupo conservador da UFRJ todos os sinais da masculinidade insegura, que sente-se ameaçada pela presença de ideias e pessoas diferentes de sua formação (pobres, negros, homossexuais, nortistas, progressistas, socialistas, marxistas). O moralismo e conservadorismo aponta uma séria de comportamentos que seriam punidos:

1) Vida de baladas, drogas e promiscuidade
2) Intelectualidade marxista, apoiar Dilma, apoiar a esquerda
3) Odiar Bolsonaro
4) Apoiar descriminalização de aborto e legalização da maconha
5) Mandar e receber nudes
6) Cometer furtos
7) Denegrir imagem de colegas de trabalho
8) Receber bolsas governamentais
9) "Se achar" afrodescendente
10) Renegar educação cristã e catolicismo

10 "crimes". Mas quem são esses "justiceiros" que usam o cristianismo e o catolicismo para justificar sua violência e tirar uma vida que, segundo essa mesma crença, é sagrada?

Quem são os membros dessa tal "Juventude Revolucionária Liberal Brasileira" que usam o nome de Deus para substituir os 10 Mandamentos recebidos por Moisés por uma revolta moralista?

Quem são esses criminosos, que se acham acima da lei dos homens e de Deus e decidem aplicar sua própria punição a pessoas que pensam e agem diferente deles?

Quem são esses homens brancos inseguros de classe média que não têm nem coragem de assinar seu manifesto pessimamente escrito?

Porque quem tem coragem, e não tem vergonha de seus atos, mostra a cara e assina. Até mesmo os monstros assassinos em massa. Pelo visto, a "Juventude Revolucionária Liberal Brasileira" é mais abjeta que os monstros e mais covarde que os ratos.

O Brasil tem 86,8% de cristãos, entre católicos e evangélicos, de acordo com o senso do IBGE de 2010. Considerando a uma população de 200,4 milhões de habitantes, e se não me falha a regra de três, chegamos ao expressivo número de 173.947.200 cristãos.

Que maravilha seria o Brasil se essas 173.947.200 pessoas vivessem de acordo com os ensinamentos de Cristo e repudiassem todos os crimes de ódio, todos os atos de violência e toda.

LEIA MAIS:

- A homofobia mata: Tudo que sabemos sobre o assassinato do estudante da UFRJ

- Brasil é o país mais perigoso para homossexuais, diz NYT

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