Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Bárbara Semerene Headshot

Ensinar os filhos a abraçar o diferente

Publicado: Atualizado:
Imprimir

Era o dia da Festa da Família da escola do meu filho. Eu esperava ansiosamente na plateia do auditório para assistir à apresentação que meu pequeno passou meses ensaiando em casa. Finalmente a cortina se abriu, e ele brilhou. Porém, alguém além do meu menino me chamou a atenção entre as 24 crianças que se apresentavam: o único garoto negro entre elas. Não foi a etnia que saltou aos meus olhos, mas o fato de ele claramente se portar diferente dos demais. Estava recolhido, choroso, o único que usava chupeta e com uma professora ao seu lado o apoiando. Aos 3 anos de idade, aquele garotinho aparentemente já tinha registrado na alma o preconceito, o racismo e o fato de ser minoria numa escola de elite.

No ano passado, a escola elegeu como tema principal para ser trabalhado ao longo do ano a cultura africana e a questão da diversidade. Na primeira reunião de pais, perguntei quantos negros havia em sala de aula. "Nenhum", respondeu a professora. E na escola inteira, indaguei? "Um". Era o menino solitário em cima do palco. Do berçário até a 5ª série, o único negro. Adotado por pais brancos, era único inclusive na família. Duas perguntas pairaram no ar: Como aprender de fato sobre diversidade convivendo apenas com iguais? Como aprender sobre cultura africana sem ter a menor proximidade real com representantes dela?

Outro dia avistei o menino negro brincando no parquinho, enquanto a mãe adotiva o monitorava. Uma colega apontou em sua direção e disse "você tem a cara marrom". A mãe, mais do que rapidamente, com lágrimas nos olhos, pegou o menino nos braços e saiu bem rápido dali, em um impulso evidente de defender sua cria de um potencial bullying. "Cara marrom" poderia ser apenas uma característica observada por outra criança que sequer ainda carrega preconceitos arraigados dentro de si. Mas o fantasma do racismo rondava cada espaço daquela escola, e assombrava aquela mãe branca, que muito provavelmente nunca antes havia tido noção do que era sofrer daquilo na própria pele.

Pesquisei bastante antes de matricular meu filho nesta escola. Para decidir entre as dezenas de instituições que visitei, elegi como critério essencial: uma filosofia libertária, uma abordagem moderna, que não reproduzisse os dogmas e valores da "tradicional família católica brasileira" (como a que estudei), que não segmentasse os alunos e suas atividades nem por gênero nem por credo nem por raça, e que privilegiasse a inserção no universo das artes. Acreditei ter achado o colégio ideal -- este onde meu filho está agora -- pelo fato de ele propagandear um conceito educacional de acordo com a demanda de pais pretensiosamente alternativos, modernos e intelectualizados.

Certamente, a escola adota uma teoria linda. Meu filho anda repetindo frases politicamente corretas como "essa pessoa não é melhor nem pior, só é diferente. Ser diferente é bom". Frases de efeito que soam totalmente artificiais quando a professora relata que a menina mais popular da turma é loira de cabelos lisos e olhos azuis, e que todas as meninas dizem que o cabelo da "tia" é feio e bagunçado simplesmente porque é crespo. A valorização do diferente soa hipócrita e forçada na medida em que as colegas do meu filho, aos 3 anos, acham "estranho" que uma delas use roupa de balé azul e não rosa.

Não quero ensinar meu filho a "tolerar" nem a "respeitar" as diferenças. O que eu queria mesmo era que as diferenças lhe fossem familiares, naturalizadas, o que somente seria possível se fizessem parte de seu convívio no cotidiano. Melhor ainda: queria que, ao conviver com o aparentemente diferente, meu filho notasse que, no fundo, ninguém é igual, nem os aparentemente iguais a ele. E que ele pode ter muito em comum com o aparentemente diferente. Mas como a convivência diária com a diversidade não ocorre de fato - principalmente porque cada espaço de convívio na nossa sociedade é segregada por classe socioeconômica --, o "diferente" só pode ser visto, no máximo, como exótico. A diversidade na escola do meu filho é bela apenas na teoria, em outro território, bem distante do meu.

Uma amiga minha, também com o intuito de proporcionar a familiarização de seu casal de filhos com o diferente, os colocou em uma escola pública. Ela parte do princípio que conviver com pessoas de classes socioeconômicas diversas é muito mais enriquecedor e necessário nesta idade do que aprender matemática e português "direito". Seus filhos já conhecem os bairros mais pobres da cidade, onde frequentam festinhas de aniversário dos colegas nos finais de semana. Diariamente, minha amiga tem de trabalhar com seus filhos diferenças culturais que eles relatam sobre seus colegas. São crianças que comem macarronada na hora do lanche da tarde (servido pela escola) porque muitas não têm comida em casa na hora do almoço (enquanto assistem os filhos da minha amiga comerem frutas orgânicas e iogurte sem lactose). Outro dia, sua menina chegou em casa contando que uma colega de sala estava toda roxa porque seu pai havia batido nela, o que, segundo a coleguinha, ocorre toda vez que ela faz uma "mal criação". A filha perguntou se aquilo era correto, e porque ela própria nunca havia apanhado dos pais. A mãe, em um esforço diário de evitar tratar as diferenças culturais e sociais que seus filhos apresentam em termos de "certo" e "errado", explica que "cada pai acredita ou prefere um tipo de educação". E que ela "acredita mais no diálogo" pois "não gosta deste tipo de punição". Minha amiga, porém, confessa ficar angustiada de mostrar "respeito às diferenças" quando esbarra no limite da violência doméstica.

Ela havia decidido deixar seus filhos na escola pública até a 5ª série. Mas ultimamente anda repensando o efeito que esta experiência de fato tem trazido. Naquela escola pública seus pequenos têm sido considerados os "príncipes" do colégio, provocando o encantamento de alguns e a inveja de outros por serem os únicos que têm carro, tênis de marca, viagens para o exterior e casa própria em bairro nobre da cidade. O convívio só seria natural se houvesse, de fato, uma mistura de classes, mas neste sentido seus filhos são únicos dentro daquele contexto. Onde não há mistura, o que ocorre é segregação. A mesma que ocorre no colégio "alternativo" que escolhi para o meu filho. A mesma que ocorre em cada espaço da nossa sociedade tão desigual.

Talvez então minha amiga tire os filhos da escola pública no ano que vem pelo mesmo motivo que a cozinheira lá de casa tirou o filho dela da escola particular onde tinha conseguido bolsa de estudo paro o garoto depois que seu marido foi contratado como vigia na instituição. O filho da cozinheira preferiu abandonar aquele colégio tão limpo, de arquitetura moderna e onde os professores nunca faziam greve. O fez porque, além de ter se sentido incapaz de acompanhar o aprendizado dos colegas em cada matéria, ele era o único que não usava tênis de marca. Era o único que voltava das férias sem ter viajado para lugar nenhum. E era o único que não era convidado para nenhuma festa nos fins de semana. Talvez ele nunca consiga entrar para a faculdade. Mas sua autoestima agradeceu.

Ah, a bendita autoestima. Afora o contexto social tão cruel em que vivemos, e um histórico de profundas desigualdades, é a tal da autoestima que, quando fraca, baixa ou dúbia, leva à violência e à negação do outro. Quando eu não suporto ou quero negar as minhas próprias falhas e conflitos internos aponto o dedo para as supostas "falhas" e características que denigrem o outro. Assim me sinto melhor, superior.

Eu não posso, em curto prazo, "consertar" o mundo e fazer dele um lugar com menores diferenças socioeconômicas para meu filho viver. Eu não posso apagar o passado escravocrata do meu País. Eu não posso convencer todos os meus amigos de classe média a colocarem seus filhos em escola pública para que haja uma real diversidade social e com isso o nível de aprendizado melhore naturalmente. Mas eu posso trabalhar no miúdo a autoestima do meu filho. Eu posso mostrar que ele é diferente de todos os seus amiguinhos porque ninguém é igual a ninguém, por mais que aparentemente seja. E eu posso fazê-lo compreender que ele só é tão amado porque é único, exclusivo, autêntico. E que ele pode ser diferente inclusive de si mesmo: se transformar de um dia para outro. Mudamos o tempo todo, de sentimento, de opinião, de percepção, de rosto, de idade. E isso é ok. E ele pode gostar de coisas opostas dependendo do momento.

Aceitando suas próprias diferenças e contradições internas, quem sabe meu filho não terá necessidade de denegrir o outro para se autoafirmar dentro de um grupo em nenhum momento de sua vida?