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De que lado você está?

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Ultimamente tenho sido invadida por duas sensações que detesto: 1. A de estar com uma faca no pescoço, encostada na parede; 2. A de me sentir obrigada a encostar os outros na parede, com a faca no pescoço.

Desde o começo do ano, amigos meus têm excluído outros amigos de suas redes sociais e saído de grupos de whatsApp com opiniões políticas contrárias às suas. Quase 30 anos depois da queda do Muro de Berlim, construíram um muro em Brasília para que o povo se posicione de um lado ou de outro. O posicionamento político foi eleito prioridade na avaliação de uma pessoa e, com base neste critério, o mundo, tão plural, foi dividido em dois. Eu assisto a tudo atônita e angustiada.

Há mais de dez anos faço terapia por dois motivos primordiais (os quais fui descobrindo ao longo do meu processo de análise). O primeiro é conhecer os meus diversos lados, muitos deles contraditórios entre si, e acolhê-los, em minha inteireza. O segundo motivo é aprender a me posicionar, sem constrangimentos, e sem sucumbir à pressão de me encaixar em um padrão socialmente aceito ou esperado. Ao longo do tempo, no divã, fui descobrindo que tenho muito mais lados do que imaginava, e que há diversos tons de cinza dentro de mim, bem como lá fora.

A terapia demora tanto para nos ajudar de fato (na prática, para além da teoria) porque ela tenta nos "des-ensinar" o que passamos a vida inteira aprendendo: que precisamos escolher um time (e ser contra outro), um personagem, um grupo para se identificar e pertencer. Nos foi dito que o mundo é dual, e que somos obrigados a escolher entre ser "isso" OU "aquilo". Homem ou mulher, yin ou yang, careta ou moderno, flamengo ou fluminense, Europa ou Estados Unidos, praia ou montanha, coxinha ou mortadela, vermelho ou azul.

Tenho lembranças bem antigas de mim, lá pelos 4 anos de idade, assistindo a desenhos animados com a minha prima da mesma idade, e disputando com ela quem dizia primeiro "eu sou a Gilda" (uma das três personagens de "As Panterinhas", não por acaso, a de cabelos compridos loiros). E se uma de nós escolhia "ser" a Gilda, a outra necessariamente tinha que escolher "ser" uma das duas opções restantes (a Sabina ou a Néli). Às vezes eu demorava mais a falar quem eu era porque me identificava com um aspecto físico da Gilda, mas também me identificava com um jeito de ser da Sabina e admirava uma atitude da Néli. Ficava confusa, mas na minha cabeça eu precisava escolher só uma delas para me representar. Este exemplo infantil se prolongou por todas as fases da minha vida, mas com outros personagens e contextos.

Talvez porque eu seja libriana, talvez porque eu tenha muito senso crítico, sempre me incomodou ter que "vestir a camisa" de um time, de um grupo, e seguir em um pensamento "monolítico". É difícil para mim porque eu vejo verdades e mentiras, vantagens e desvantagens, razões e irracionalidades, aspectos interessantes e desinteressantes, em cada escolha (seja ideológica ou prática).

À medida que fui crescendo, o meu diverso espectro de amigos espelhou todo este mundo cheio de contradições que habita dentro de mim: na minha rede de relacionamentos cabem turmas que jamais conviveriam entre si, mas com as quais eu sempre convivi tranquilamente (o que me enriquece muito) até este momento, de cisão política, de polarização, de radicalização de posicionamentos.

Até ontem, para mim, compreender e aceitar a complexidade do ser humano era algo óbvio no mundo dos adultos. Era algo posto quando chegava a maturidade. Mas, ultimamente, no cenário político que estamos vivendo, a pressão de todos os lados para que o indivíduo se posicione radicalmente de um lado, a exigência de coerência entre atitude/ ideologia/estilo de vida, tem sido antagônica ao que eu entendo como maturidade.

Parece que o Brasil vive um momento (e espero que seja só um momento) de imaturidade social. E tudo o que eu mais queria era gritar "eu não tenho só um lado, não sou coxinha nem mortadela. Tampouco sou 'isentona' ou alienada. Eu sou é inteira!". Quanto mais junto informações oficiais e de bastidores, daqui e dali, mais complexo fica definir um grupo "certo" e outro "errado", um grupo "do bem" e outro "do mal". Eu poderia defender ou detonar tanto um lado quanto o outro, por isso entendo tanto os amigos que elegeram um "time" quanto o outro para "chamar de seu". Entendo também que não tenho domínio de todas as áreas de conhecimentos que me permitem analisar o cenário em sua inteireza. Cada amigo meu tem uma expertise diferente -- muitas das quais não alcanço, como Economia ou Juridiquês --, que lhe dá elementos mais fortes para defender X ou Y.

Tenho então me posicionado por tópicos, não por times. Mas me sinto um tanto quanto solitária neste caminho independente, em busca da compreensão. Sinto olhares desconfiados em minha direção, como quem diz "afinal, quem é você? De que lado você está?".

As pessoas têm julgado duramente as escolhas de cada um e, de forma truculenta, deletado amigos com quem têm ou já tiveram tantas outras afinidades que não políticas. Esses dias eu abri a minha timeline no Facebook e encontrei um monte de postagens de pessoas pesquisando por amigos que são fãs da página do deputado Jair Bolsonaro e desfazendo amizades, incitando os demais a fazer o mesmo. Fui pesquisar entre os meus amigos, e surpreendentemente encontrei alguns que também curtiam a página dele. Foi quando me dei conta de que tenho amigos que são pessoas sensacionais, profissionais éticos, pessoas humanas e doces, mas que apoiam alguém que incita o preconceito, o racismo, o emprego da força nas relações sociais. Contraditório, não? Difícil aceitar e entender esta contraditoriedade.

Fiquei profundamente angustiada: será que é chegada a hora de radicalizar e cortar estas pessoas da minha vida? Qual a origem desta atitude aparentemente truculenta e autoritária de deletar quem discorda de mim? E quais seriam as consequências? Deletá-las da minha vida iria tornar o mundo melhor? Será que marginalizá-las iria funcionar como uma lição de moral para que mudassem de ideia? Duvido que mudariam de ideia, talvez deixariam de expressar suas ideias para deixarem de sofrer bullying, o mesmo que tantas minorias fazem (gays que se trancam no armário, por exemplo) para serem aceitas. Não, isso não iria melhorar o mundo.

Então comecei e me perguntar: não seria mais produtivo tentar iniciar com estes amigos algum diálogo de esclarecimento? Isso daria trabalho, e dá preguiça. Mas não é hora de ter preguiça. Então concluí que deletá-los do meu face e da minha vida seria isso: uma atitude preguiçosa, comodista. Nunca foi tão urgente debater, esclarecer. Foi o que fiz. Por mensagem inbox, questionei cada um destes meus amigos por que eles curtiam o Bolsonaro. E descobri que muitos deles o fazem por pura ignorância política, ideológica. Afinal, nem todas as pessoas na vida têm tempo para acompanhar o noticiário, estudar história, nem todas tiveram oportunidade de ter uma formação política, sociológica. E os jornais pouco se prestam a dar esta base de formação para seus leitores. Acho que o diálogo tête-a-tête acrescentou, tanto para mim, quanto para eles.

Se queremos um mundo melhor, mais pacífico, mais igualitário, mais justo, precisamos de ouvir e responder, esclarecer. E não gritar e reagir. A forma tem de estar coerente com a intenção: se justiça social é uma atitude de amor, que lutemos por ela de forma amorosa. Frases de efeito não esclarecem, apenas rotulam. Sejamos prolixos.

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