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Eu não sou o meu corpo

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MIND BODY
Shutterstock / ollyy
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Em um sábado de manhã, eu estava na aulinha de música do meu filho, quando um senhor calvo e gordinho veio em minha direção me perguntar onde eu havia feito o pré-primário. Ele se lembrou do meu rosto, que hoje provavelmente mantém alguns traços da menina que fui.

Quando disse o seu nome e sobrenome, me recordei claramente de um garoto bonitinho, sapeca, magrinho e baixinho - que era sempre o primeiro da fila indiana em todo o ensino básico. Inacreditável que aquele menino era ele. Tenho esbarrado com pessoas nestas circunstâncias frequentemente nos últimos tempos. E olha que eu ainda não fiz 40 anos.

Desde que comecei a ver na rua pessoas que foram coleguinhas minhas de infância hoje gordas, carecas ou de cabelos grisalhos, quase irreconhecíveis, desenvolvi um hobbie esquisito. Olho para qualquer idoso e fico tentando imaginar como ele era quando jovem e quando criança. De modo que tenho conseguido enxergar crianças e jovens travestidos de corpos envelhecidos.

Tem sido sensacional a experiência de desassociar ocorpo da pessoa. É como se finalmente eu tivesse me dado conta de que o corpo não é a pessoa. Tem alguém ali dentro. É como se o corpo fosse apenas uma roupa, ou uma fantasia. Talvez este seja um mecanismo que tenho desenvolvido para lidar melhor com a decadência do meu próprio físico, que chega de mansinho. E um modo de impedir que ele determine o meu estado de espírito.

Essa nova concepção do meu eu tem mudado a minha relação com meu corpo. Estou bem mais disposta e desapegada dele. Não confundir com descuidada. Explico: eu sempre odiei água fria. Tomar banho frio era algo insuportável em um nível indescritível. Tomava banho quente inclusive naqueles verões mais escaldantes. Mas estes dias fui a uma cachoeira e pulei naquela água gelada sem pensar muito.

Simplesmente prestei menos atenção no primeiro contato entre o meu corpo e a água, e me ative à sensação de bem estar durante e após o mergulho. Um indescritível bem estar físico e mental que deixou todos os meus sentidos alertas o resto do dia, e minha mente muito mais relaxada. Passei quatro dias entrando sem titubear naquele rio congelante feliz da vida. O mesmo tem ocorrido nas madrugadas deste inverno, quando meu corpo resiste em se levantar para irmos juntos à academia. Atropelo sua preguiça e levanto em um pulo só, sem deixar que ele fique preso à cama, enrolado nas cobertas. "Yessss, te venci", comemoro, assim que fico de pé. E rapidamente já estou na ativa.

É como se, de repente, eu tivesse autorizado minha cabeça e meu desejo a se adonarem do meu corpo. Elegi minha mente como a chefe do meu eu, de modo que meu corpo não consegue mais boicotar os meus desejos e metas, nem reprimi-los.

Foi nesta toada que eu decidi, pela primeira vez na vida, cortar 10 dedos dos meus cabelos cerca de três meses atrás (leia aqui matéria publicada neste Huffington Post sobre o tema). Sem sofrer, sem titubear, sem perguntar para todas as minhas amigas, primas e mãe se eu deveria fazê-lo e me confundir com a opinião de cada uma. Sem fazer simulações em algum software para prever como eu de fato ficaria. E então saí do salão me sentindo livre, leve e solta. Principalmente, livre.

Fiquei pensando como eu teria sido mais feliz se tivesse me tocado disso há mais tempo: o meu corpo não me define. Ele vai mudar muito ao longo do tempo. E eu vou continuar sendo eu. Se o tempo vai modificar a minha imagem, por que eu sou tão resistente a fazer isso com minhas próprias mãos? Por que sempre fui tão apegada à minha imagem e tive tanto medo de fazer experimentações, sejam estéticas ou sensoriais?

Então me toquei de como todos nós seríamos mais felizes se de fato sentíssemos que nossos corpos não nos determinam, são apenas uma de nossas ferramentas, uma espécie de vestimenta definitiva, que eu posso customizar e re-customizar de diferentes formas. Se todos tivessem esta compreensão mais lúdica e desprendida em relação aos corpos, julgaríamos menos uns aos outros e a nós mesmos. Adeus preconceito de raça e de gênero. Avançando na ideia, se meu corpo não me determina, o meu sexo não determina meu gênero necessariamente. A minha cor não determina meu comportamento. Minha "deficiência" física não determina meu estado de espírito ou minhas possibilidades.

Tentei lembrar quando foi que aprendi a ver meu corpo como preponderante sobre todas as outras coisas que compõem o meu ser. Talvez foi quando me vi no espelho pela primeira vez e me disseram "aquela é você". O corpo é apenas o que consigo ver de mim. Mas por que a visão na nossa cultura é tão preponderante sobre todos os outros sentidos? Eu ouço a minha voz, e minha voz também sou eu. Eu me toco, e esta sensação também sou eu. Eu tenho sentimentos que também são eu. Eu penso, e meus pensamentos são eu. Eu medito e o "não-pensamento" que consigo atingir também sou eu.

Nossa, como foi que passei tanto tempo acreditando piamente que aquela que via no espelho era eu e desenvolvi um amor incondicional pela minha própria imagem, que eu teimo em padronizar, enquadrar, rotular e me cuidar para que não mude?! Mesmo vendo que minha cara, meus trejeitos, minhas mãos já se modificaram tanto tanto ao longo do tempo. Eu já olhei para as minhas mãos um dia e elas eram minúsculas como as do meu filho de 3 anos. Hoje olho para elas e são mãos de mulher, com unhas compridas e pintadas. Daqui a 20 anos, provavelmente estarão enrugadas e cheias de sardas. Serão mãos de velha.

O corpo muitas vezes funciona como um obstáculo para a gente olhar para dentro, e de fato conhecer quem se é internamente, existir com todos os sentidos, se ouvir mais do que ouvir os outros. É por isso que quero cada vez mais fechar os olhos para enxergar. E olhar menos para o espelho.

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